FICÇÕES DA DERROTA: OS “SUBTERRÂNEOS DA LIBERDADE” E A LITERARIEDADE DA HISTÓRIA – por Roberto Vecchi

 

A literatura brasileira do século XX é atravessada por uma espécie de mitologia do romance proletário como um objecto utópico a ser procurado. Como se a partir da matriz moderna, histórica e ideológica, da década de 30, que permeia uma parte relevante da narrativa de Jorge Amado, o romance de forte engajamento pudesse de certo modo imunizar as derrotas que os movimentos sociais sofriam e iriam sofrendo no plano da história, pelos processos de modernização autoritária que marcam pelo menos dois consistentes segmentos da periodização do século, o Estado Novo a partir do golpe de 1937 e a ditadura militar de 1964. Certamente a tentativa mais conscientemente articulada deste ponto de vista, de um “romance proletário do partido proletário” (Reis: 54), foi a trilogia de Jorge Amado, Os subterrâneos da liberdade, o vasto fresco que cobre a sofrida trajectória do Partidão, o Partido Comunista Brasileiro, de 30 de setembro de 1937, pouco antes do golpe varguista, até 7 de Novembro de 1940, dia em que ocorre o processo-farsa a Luís Carlos Prestes, o “cavaleiro da esperança” a que o escritor bahiano dedicara uma célebre biografia.

Romance “histórico”, no entanto, que apresenta-se como um objecto extremamente complexo, pelos inúmeros problemas que põe no plano da historiografia literária, da própria exegese do romance amadiano e também, sendo um romance à clef , na história dos partidos e movimentos sociais no Brasil, como tentei repertoriar noutro ensaio (cfr Vecchi, 1994). No entanto, há uma microleitura possível dentro da tríade narrativa, que pode exemplarmente dar conta, com concisão, da riqueza e da produtividade da conexão arte-história, inclusive pelos futuros desdobramentos da obra de Amado, nesta articulação narrativa. De facto, na obra, o factor da “verdade”, o do “real”, sai parcialmente relativizado pela debilitação do referente que se modifica em virtude das exigências representativas do evento produzindo assim um movimento próprio de historização. História e romance juntam-se de modo inextricável  no discurso, mas enquanto que na tradição do romance histórico a tendência do autor é aquela de aproximar a progressão do enredo o mais possível da matéria histórica, aqui, em Os subterrâneos, a perspectiva parece invertida, no sentido que se percebe por parte do autor um movimento contínuo de afastamento da realidade factual, ainda que este movimento seja habilmente dissimulado. A ilusão referencial tecida através da integração de fragmentos documentais produz discursivamente um efeito de realidade eficaz para as  finalidades persuasivas da narração, significando com maior funcionalidade um passado que, ainda que parcialmente modificado, nem assim resulta menos “autêntico” no plano do rendimento expressivo da cadeia de acontecimentos. Justamente pelo seu estatuto de romance histórico à clef, na análise dos modos de construção da personagem em Os subterrâneos, é possível distinguir a interpolação do detalhe histórico, isto é do dado real com os elementos narrativos recondutíveis exclusivamente ao projecto literário, ou seja o eixo onde o plano real comunica com o da ficção. A caracterização da personagem referencial, inscrita num modelo real transposto no contexto romanesco, e portanto transfigurado com base nas exigências de organização estética do material narrativo, constitui um índice confiável de como e de quanto o autor interveio, com ligeiros retoques ou verdadeiras alterações, sobre a realidade, para construir com verosimilhança literária a própria narração, visto que a substância da personagem se baseia justamente nesta coesão de dados reais e de ficção (cfr. Candido: 66-69).

Em Os subterrâneos da liberdade o pacto de leitura estipulado desde o início pelo autor é, não por acaso, um pacto referencial, ditado pela intenção de reconstruir de forma fiel os acontecimentos do passado. O pacto é firmado com o leitor na epígrafe do romance que se repete na abertura de cada volume da trilogia e que é constituído pela tercina final do célebre soneto de Camões [Conversação doméstica afeiçoa] e que justamente diz: “Metido tenho a mão na consciência,/ e não falo senão verdades puras / que me ensinou a viva experiência”. Como se pode reparar, o pacto de leitura tem, pelo menos aparentemente, uma valência dupla,  referencial e, em simultâneo, autobiográfica. Todavia, o texto infringe na substância a declaração de intenções inicial, a partir do momento em que este, não obstante a índole evidentemente autobiográfica, se delineia para todos os efeitos como um romance, sem dúvida um romance de matriz histórica, no qual, porém, o modelo referencial é submetido a um processo sistemático de reelaboração, certas vezes até radical, por parte do narrador.

Jorge Amado com Pablo Neruda e Luís Carlos Prestes.

Este efeito produz-se de modo macroscópico e emblemático num episódio (entre os muitos mencionáveis, mas, neste caso, relevante), típico do movimento de afastamento do autor do contexto que se propõe reproduzir através da introdução de elementos imaginários, independentemente do pacto de leitura referencial e da adopção do módulo à clef para algumas personagens do romance. O autor sustém, de facto, uma particular troca narrativa com a obra do escritor checoslovaco, Jan Drda. Tal como referido por Zélia Gattai no seu volume de memórias, Jorge Amado empenhado durante a sua estadia em Praga na escritura de Os subterrâneos decide, de acordo com Drda, também este ocupado com a redacção de um romance, de organizar o encontro em Espanha durante a Guerra Civil entre as duas personagens das respectivas obras, de modo que os dois romances apresentem trechos comuns (Gattai: 28). A personagem de Amado, envolvido na operação intertextual é – curiosamente – justamente um personagem à clef historicamente identificável pelo pseudónimo transparente: trata-se de Apolinário Rodrigues, o Apolônio de Carvalho na realidade histórica, grande protagonista das lutas sociais do século XX no Brasil. O capitão brasileiro da brigada Lincoln encontra assim, entre as filas do exército republicano, o sargento checoslovaco Franta Tyburec, da companhia Gottwald, da décima terceira brigada Dimitrov. A cooperação textual entre a obra de Amado e a de Drda cria-se unicamente no plano das possibilidades oferecidas pela ficção narrativa entre a personagem de Amado, Apolinário, cujo alter-ego real efectivamente combateu em Espanha, e o protagonista da obra de Drda, Franca Tyburec, personagem fictícia, mas nem assim menos verossímil e realístico no contexto auto-referencial da narração, como se pode notar no fragmento de seguida transcrito:

Apolinário   ouve o ruído dos risos e das exclamações. Não será com certeza o nazismo   alemão, os soldados não ririam assim … Aparecem entre os laranjais: ao lado   do jovem paraguaio vem o desconhecido. É um sargento que lhe bate continência   e se apresenta:

– Sargento   Franta Tyburec…

Um rosto de   operário, mãos calosas saindo da túnica enlameada. Apolinário responde à   continência, o sargento está explicando como se perdeu dos companheiros de   batalhão. Exibe a cabeça ferida e sorri. Um riso simpático de homem simples e   bom. Apolinário sorri também, acompanha com interesse a narração do sargento,   reconhece-lhe a ascendência eslava:

– Russo?

O sargento   fala espanhol com um acento pesado:

– Tcheco.   Mineiro e comunista. Sargento da Companhia Gottwald, da décima terceira   brigada, a brigada Dimitrov.

– Capitão   Apolinário Rodrigues.

– Espanhol?

– Brasileiro e   comunista. Brigada Lincoln. O melhor é vir conosco. Vamos pernoitar na aldeia   que está mais adiante (Amado II: 166-167)

Além do mais, é atribuída a Franta uma finalidade precisa na narração, a partir do momento em que o autor lhe delega a tarefa de comunicar a Apolinário o resultado trágico da greve efectuada no porto de Santos dois meses antes, desempenhando assim a função de personagem-anáfora chamada a substituir a voz do narrador para citar e acrescentar detalhes informativos que dão coesão ao desenvolvimento e à organização do enredo (cfr. Hamon: 93). Personagens como Franta e Apolinário que vagueiam de uma obra para outra obedecendo ao acordo extratextual entre os seus autores confirmam a prevalência no romance histórico de Amado do aspecto romanesco sobre o histórico, do fictum sobre o factum, do processo de redução a que o referente é submetido  que acentua o carácter literário da obra. Uma chave que favorece uma outra leitura não tanto dos “dois Amados”, mas de uma obra enorme e complexa que atravessa largamente -dialogando dialecticamente com ele- o século tragico.

 

Referências

Amado, Jorge (1987) Os subterrâneos da liberdade (I Os ásperos tempos; II Agonia da noite; III A luz no túnel). Rio de Janeiro: Record. 40ª edição.

Candido, Antonio (1970) A personagem do romance. In: AA.VV A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva.

Gattai, Zélia (1988) Jardim de inverno. Lisboa: Europa-América.

Hamon, Philippe (1977) Semiologia lessico leggibilità nel testo narrativo. Parma: Pratiche.

Reis, Zenir Campos (1987) O mundo do trabalho e seus avessos: a questão literária. In. Bosi Alfredo (org.) Cultura brasileira. Temas e situações. São Paulo: Ática. 42-57.

Vecchi, Roberto (1994) Dentro il moderno e oltre: il doppio fondo di storia e politica in Os subterrâneos da liberdade di Jorge Amado. In: Lanciani Giulia (org.) Jorge Amado. Ricette narrative. Roma: Bulzoni. 95-135.

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