DE «CAPITÃES DA AREIA», DE JORGE AMADO, À LEITURA DE OUTROS GRANDES AUTORES – por António Gomes Marques

em memória de João Elisário Carvalho

 

Na comemoração do centenário de nascimento de Jorge Amado não posso deixar de recordar o autor e a obra da sua autoria que li primeiro: «Capitães da Areia».

Era eu um menino de cerca de 13 anos, leitor habitual de histórias de aventuras, que já havia deixado a banda desenhada – gosto que mais tarde retomaria com a leitura de Hugo Pratts e outros – e que estava entusiasmado com um autor de longas aventuras, de nome Zane Grey, assim como de «Os Três Mosqueteiros» e de «O Conde de Monte Cristo», ambos de Alexandre Dumas. No liceu, entretanto, já havia encontrado professores mais jovens que tentavam levar os seus alunos a outro tipo de leituras -«A Cidade e as Serras», de Eça de Queiroz, por exemplo -, o que comentei com pessoa amiga, de idade bem mais avançada, João Elisário Carvalho, mais conhecido por João “Enfermeiro”, então motorista da Casa Hipólito, em Torres Vedras, o que o levou a dizer-me: «Vou emprestar-lhe um livro de que vai gostar», livro esse que era «Capitães da Areia, de Jorge Amado, na edição brasileira. O meu amigo não fez qualquer consideração sobre o livro, limitando-se a dizer-me que eu iria gostar de o ler.

Iniciei a sua leitura e logo me entusiasmei, de tal modo que me arrisquei a um sério conflito com o meu pai. Porquê? Vamos ver.

Em casa dos meus pais, por decisão única e exclusiva do meu pai, na hora das refeições, com excepção do pequeno-almoço, os filhos tinham de estar sentados ao seu lado e eu, o mais novo, o mais protegido até pelas três irmãs –a mais nova tem mais 7 anos do que eu -, abusei, chegando atrasado ao almoço e, mais grave ainda, coloquei o livro ao lado do prato, continuando a ler, o que irritou a chefe da família, levando-me, que remédio, a interromper a leitura das aventuras de Pedro Bala e dos seus companheiros, com profunda tristeza, mas a autoridade paterna não podia pôr-se em causa. Ao jantar não cheguei atrasado, o livro já estava lido!

A criança de 13 anos que eu era começou a julgar ter resposta para algumas das interrogações que a perturbavam, mas o que mais me impressionou foi o dramatismo da vida das crianças abandonadas, das crianças que não tinham tido alternativa na sociedade dividida, fundamentalmente, em pobres e ricos, pouco contando a classe a que hoje chamamos média, embora não houvesse entre os «Capitães da Areia» nenhuma criança oriunda desta classe, o que a criança leitora de então não deixou de anotar. Depois a confirmação da diferença entre um crente em Deus, com amor pelos seus semelhantes e uma beata que confunde o amor a Deus com o padre da paróquia, sem respeito pelo seu semelhante quando este é de um extracto social baixo, sem meios para ter uma vida digna, reflexão esta trazida pelo contacto com as personagens do Pirulito e do padre José Pedro, a quem a hierarquia acusa de «estar falando como um comunista», «Mas os comunistas são maus, querem acabar tudo… João de Adão era um homem bom… Um comunista… E Cristo? Não, não podia pensar que Cristo fosse um comunista…». Estas e outras reflexões da personagem do padre José Pedro ficaram gravadas na memória da criança de 13 anos que eu era, como também estas: «Pirulito queria ser padre. Queria ser padre, sim, a sua vocação era verdadeira. Mas pecava todos os dias, roubava, assaltava. Não era culpa deles…». Mas o leitor de 13 anos sabia que da sua aldeia natal e de outras em redor algumas crianças, feita a 4.ª classe, “iam estudar para padres” não por terem vocação mas por serem pobres e poderem assim vir a ajudar a família mais tarde; sabia também que alguns deles acabavam por não chegar a padres e, com as habilitações entretanto adquiridas, conseguiam fugir à vida de camponeses pobres. Mais tarde, com a experiência do passar dos anos e com muitas leituras –Camilo, Eça, Aquilino-, viria a perceber que a maioria dos «crentes» se serviam da religião e, sobretudo, do poder da igreja para proveito próprio.

Mas as outras personagens de «Capitães da Areia» -João Grande, o Gato, por exemplo- não deixaram de provocar interrogações na criança leitora de 13 anos, interrogações essas que careciam de resposta, sentindo hoje o avô que já sou o importante que foi para mim esta necessidade de procurar respostas, que se transformou na necessidade de ir em busca da verdade, necessidade esta que nunca mais desapareceu de dentro de mim e que sempre me colocou do lado dos humilhados e ofendidos, dos explorados.

Dora, a criança que se transformou na mãe e na irmã dos «Capitães da Areia», ela que era mais nova que quase todos eles, e depois, ardendo com febre, na mulher de Pedro Bala, morrendo logo após com este ter feito amor, momento este que apanhou de surpresa a criança de 13 anos, que não conseguiu conter algumas lágrimas, sentindo dentro de si a revolta por mais esta injustiça. “Afinal, se Deus existe e é tão bom como dizem, como pode consentir na morte de Dora?” Pedro Bala, que após a morte da sua amada a passou a identificar «com uma estrela no céu. Uma estrela de longa cabeleira loira, uma estrela como nunca tivera nenhuma na noite de paz da Bahia», foi outra das personagens que me acompanhou ao longo da vida e que me ajudou a discernir um chefe de um líder, que a minha memória sempre teve presente quando, também na vida profissional, fui obrigado a tal reflexão, presença essa que se mantém ainda hoje; a personagem do Professor, o estratega indispensável a Pedro Bala nos planos de acção para os «Capitães da Areia», a sua paixão por Dora e o respeito que sempre mostrou ao sentir que ela era de Pedro Bala, como Pedro Bala era também de Dora. Professor teve a sorte que merecia, mantendo-se fiel aos «Capitães da Areia».

Outras personagens poderiam também ser invocadas, pois todas elas contribuíram para as interrogações que nasceram na criança de 13 anos durante e após a leitura de «Capitães da Areia». Ao longo da vida, este livro manteve-se presente e, mais tarde, ajudou-me a compreender a necessidade do trabalho em equipa, cujo líder deve ser capaz de aproveitar o contributo de cada um dos seus membros, sentindo que as interrogações que o livro provocou na criança que eu era só mais tarde foram encontrando respostas e, ao mesmo tempo, criando a consciência em mim de que tais respostas me levavam a outras interrogações e, assim, a compreender também a razão de Sócrates, o filósofo grego, ao afirmar que apenas sabia que nada sabia, pois, na verdade, quanto mais julgamos saber mais interrogações se nos colocam para as quais temos de encontrar respostas e assim sucessivamente.

Claro que após a leitura de «Capitães da Areia», logo o meu amigo João “Enfermeiro”, sentindo o meu entusiasmo, me emprestou «Jubiabá», «Terras do Sem Fim», esta para mim a obra-prima de Jorge Amado, a que se seguiram, sem parar, leituras de Garrett, Camilo, Eça, Raul Brandão, Aquilino, Ferreira de Castro, Silone, Pratolini, Morávia, Hemingway, Faulkner, Caldwell, Steinbeck, O‘Neill, Camus, Sartre, –este o autor que talvez mais me marcou como cidadão-, Dostoievski, Tolstoi, Gorki, Tchekhov, … e, claro, os neo-realistas portugueses, como Manuel da Fonseca, Alves Redol, Carlos de Oliveira e outros, vindo mais tarde a acrescentar aos grandes autores que mais contribuíram para a minha formação um outro autor, Mário Dionísio, com quem comecei a tomar contacto com o marxismo (Ficha 14) e com quem aprendi a procurar ser rigoroso em todos os actos da vida, para o que foi fundamental a leitura do prefácio que escreveu para «Poemas Completos», de Manuel da Fonseca, que me levou a procurar as suas outras obras.

Para tudo isto sinto como fundamental a leitura de «Capitães da Areia» e foi a leitura daqueles autores, cujas obras publicadas e traduzidas para português estavam lidas quase na totalidade aos 17 anos, com excepção de Mário Dionísio, de quem, até esta idade, apenas tinha lido «Ficha 14» e «O Dia Cinzento», leituras essas que me levaram à filosofia, a Heraclito, a Sócrates, Platão, menos a Aristóteles e não sei porquê, a Epicuro, aos utopistas do século XVIII, a Marx e … a muitos outros

A terminar, neste texto provocado pela comemoração que se aproxima do centenário de nascimento de Jorge Amado, não posso deixar de aqui escrever que tive oportunidade de dizer quase tudo o que aqui fica escrito ao próprio Jorge Amado, numa viagem de comboio Lisboa – Porto, uns anos antes da sua morte.

Lagos, 2012-07-12

7 Comments

    1. A próximas sessão de VAMOS AO CINEMA será dedicada aos «Capitães da Areia», principalmente ao filme que a cineasta Cecília Amado, neta de Jorge, realizou a partir do romance de seu avô.

  1. Muito bom, fazer da efeméride um acontecimento à medida do interesse que tivemos por Jorge Amado, um autor deste modo festejado pelo melhor dos motivos: a sua participação activa na construção das nossas ideias e da vida que podemos viver. Onde Jorge Amado possa estar, sentirá que valeu a pena, literalmente…E que pena fértil teve Jorge Amado.

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