O TERNO JORGE AMADO * – poe«r Nélida Piñon

                                *Publicado      orginalmente no jornal espanhol ABC (08.08.2001).

O sobrenome de Jorge, Amado, desde o berço emitiu sinais de que viria a ser amado pelo seu povo. Aquele homem, que tinha a cara de árabe, mas de jeito baiano, estava destinado a criar uma obra que deitaria raízes no imaginário do seu povo.

Tudo nele apontava para esta configuração brilhante, particular e universal. Distinguia-se, onde estivesse. E não porque falasse alto, ditasse regras, adotasse atitudes canônicas. Seduzia devagar, com os olhos vagando pela paredes da sala e do mundo. Andava, porém, com firmeza, diria mesmo com sutil leveza. Seu corpo  falava, tudo nele dizia que era alguém sabendo por onde pisava. Certo do seu percurso.

Embora se sentisse a gosto em Paris, em Barcelona, em Lisboa, em diversas cidades do mundo, onde casualmente estivemos juntos, ostentava com naturalidade  sua condição de  brasileiro. Às vezes, usando camisas tropicais, outras vezes, em especial  nos últimos anos, envergando um terno nunca convencional, ou mesmo com o fardão da Academia  Brasileira de Letras, de que era membro. Mas sempre um cidadão da Bahia que converteu o seu cosmopolitismo em matéria brasileira.

Comovia-me vê-lo ao lado de Zélia Gatai,  companheira inseparável  de  cinqüenta e tantos anos, um amparando o outro, cada qual se vendo no olhar que partilhavam. Quantas vezes, entre amigos, entretido com uma conversa alimentada  de peripécias, era comum vê-lo esquecer-se de algum detalhe rigorosamente  insignificante. Nestas horas, porém, sem sofrer por não se lembrar algo que bem poderia substituir pelos recursos da invenção, aprazia-o recorrer a Zélia. Seu alter-ego, sua  mulher amada, cabia a ela, então, completar o que lhe estava faltando, de modo a  continuar a sua narrativa oral.

Zélia Gattai, então, dona de uma  memória a serviço de Jorge Amado,  provia-o imediatamente com receitas culinárias, com letras de bolero ou de tango, com evocações miúdas, o que enfim lhe fizesse falta. Tudo que ele próprio, grande romancista, não dera aparente atenção, mas que estava certamente incorporado à sua matriz de criação, capaz portanto, a qualquer momento, de gerar preciosos elementos para as suas construções ficcionais.

Este homem, sempre  generoso, conquanto  cercado de admiradores, de  aplausos, jamais deixava de olhar em torno em  busca do rosto amigo, na ânsia de incorporá-lo à sua glória, à sua história pessoal. Valorizava a amizade, os gestos imorredouros, a lealdade. Dava contínuas e explícitas provas da existência do próximo.

Foi  meu leitor, nos idos de 60, antes mesmo da minha estréia literária, sem eu lhe ter pedido. Confessou, então, haver gostado do livro. Suspeito, porém, que seu julgamento estético obedecera a um rasgo de generosidade. Quem sabe enternecido com uma jovem que também elegera a literatura como forma  de viver. Em quem via igual paixão pelo romance que ele, com sua obra, demonstrava publicamente.

Recordo o jantar que o compositor do musical Dom Quixote, grande sucesso então na Broadway, ofereceu-lhe em 1978, no restaurante Four Seasons, em Nova York, por motivo de Jorge e Zélia Amado haverem legalizado naqueles dias uma  união conjugal iniciada  em 1945.

Com que alegria os noivos, em meio aos amigos, entre os quais se destacava o grande editor Alfredo Machado, outro brasileiro cosmopolita, assopraram as velas
do  bolo de vários andares, celebrando os filhos Paloma e João Jorge, os netos, que haviam ficado na Bahia.

Ainda nesta  semana, celebramos na casa de campo de Alfred Knopf, fundador da mítica editora americana, seus oitenta anos. Tive, então, perfeita noção de estar presenciando o singular encontro entre duas grandes personalidades do mundo da cultura, enquanto bebíamos aquele champagne americano que Nixon  bebera com  Mao Tse-Tung, em Pequim, por motivo do reatamento diplomático entre a  China e a USA. Nesta ocasião, registrei a naturalidade com que  Jorge, sem esmorecer, sem americanizar-se, ou deixar de ser o baiano, sabia bater à porta do mundo, ostentando a  chave  de quem tinha uma casa simbólica a que  retornar.

Sempre amei sua brasilidade. Como sabia identificar os utensílios, os sentimentos,  o  corpo místico da nação. Como captava os ruídos populares,  traduzindo-os através dos lamentos amorosos de seus personagens, para alcançar assim a rara façanha de associar a sua esplêndida imaginação, povoada das  captações humanas, com o próprio instinto narrativo do povo brasileiro.

Foi sempre um escritor  que, a golpes imaginativos, misturou-se  com a vida. Entre ele e a intriga não havia qualquer distância. Esta matéria humana, fornecida diariamente  pelos homens, lhe era familiar. Sua extensa e notável obra novelesca soube  abolir os empecilhos que pudessem apartá-lo do povo que  aspirava  representar.

Inventou para tanto uma nação chamada Bahia. Um território ficcional com personagens emblemáticos,  arquétipos, voltados para a aventura humana, a compaixão, as causas populares. E no afã de dar-lhes vida, tomou de sua pena mágica e a lambuzou de emoções, sentimentos, sortilégios. Criou, enfim, histórias nascidas da inadiável necessidade que temos de ver nossas histórias contadas.

Estou convencida de que Jorge Amado e sua obra instalaram-se para sempre no coração brasileiro. Não concebo o meu país sem as suas invenções narrativas. Sem ele mesmo ter  existido, para nos engrandecer.

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