DESPEDIDA DE JORGE AMADO – por Fernando Py

Conheci Jorge Amado de maneira casual, num dia em que fui visitar Manuel Bandeira. Subia as escadas do prédio onde o poeta morava, quando cruzei com alguém que vinha descendo: era ele. Isto em 1960 ou 61. Já nesse tempo eu me deixara enfeitiçar pela sua Gabriela, de “cheiro de cravo e cor de canela”, e atraía-me a sua ficção, um tanto popularesca é verdade, mas cheia de uma legítima solidariedade e compaixão pelos desfavorecidos da vida. Aos poucos ia penetrando no seu universo baiano e – por que não dizer? – universal, cheio de altos e baixos, como a topografia da própria cidade de Salvador, de contrastes e confrontos. Por algum motivo íntimo, inclinei-me a valorizar o que julgava excelente em seus livros, e a desprezar os momentos menos felizes de sua obra. Desprezá-los a ponto de recusar-lhes uma leitura mais atenta. Hoje, passados tantos anos daquele contato inicial e tendo uma maturidade de expressão e de avaliação que então não possuía, percebo como é importante o conjunto dessa obra, não obstante as realizações que deixam a desejar. Mas é a tal história: ninguém dá sempre o máximo de si mesmo.

Como qualquer escritor, Jorge Amado tem romances melhores e piores, mas em todos está presente sempre o interesse pelo povo de sua época, pela pobreza desassistida, pelo mundo de decaídos, malandros, prostitutas, mais a contraparte dos coronéis, senhores de fazenda e figurões políticos, etc. Sua opção ideológica pode ser rastreada desde 1932, quando publicou O país do carnaval. Mas somente com Jubiabá (1935) e Mar Morto (1936) é que o escritor começa a indicar não ser apenas um autor a mais. São romances em que, pela primeira vez, Jorge Amado firma uma estrutura própria, fornece ao leitor uma obra bem acabada, e cria a figura do herói (que mais tarde será comum em seus livros), sobretudo no negro Antônio Balduíno, de Jubiabá.

Digamos que a obra de Jorge Amado se divide em duas fases distintas. A primeira, indo de O país do carnaval até Seara vermelha (1946), com as características já apontadas acima: a solidariedade e compaixão pelo pobres, a pintura e denúncia de uma sociedade injusta e cruel, o retrato de costumes, enfim, o interesse em exaltar os desfavorecidos, pregando a revolução como saída para estes. Depois, a partir de Gabriela, cravo e canela (1958), acrescenta aos livros o aspecto picaresco, onde uma sátira, quase sempre subreptícia, mantém sua necessidade de combater pela revolução e assegurar vida mais condigna às camadas populares.

Em ambas as fases – que têm como uma espécie de interlúdio, durante seu curto mandato de deputado à
constituinte e logo após a cassação dos direitos políticos, livros mais propriamente político-ideológicos, como O mundo da paz (1950) e Os subterrâneos da liberdade (1954) -, Jorge Amado apresenta legítimas obras-primas que são, a meu ver, na primeira, Capitães de areia (1937) e, principalmente, Terras do sem-fim (1942). Este último, tido por alguns críticos como sua obra máxima, é um romance em que, fundindo admiravelmente a atmosfera lírica e o sentimento épico da narrativa, Jorge Amado consegue conferir grandiosidade à ação, o que só raramente obteve depois.

Na segunda fase, onde predomina o picaresco, os títulos principais são, além de Gabriela (que sempre me encantou), o volume de duas novelas, Os velhos marinheiros (1960), onde o texto inicial , ‘A morte e a morte de Quincas Berro D´água’, significa o máximo de liberdade  na criação da obra de Jorge Amado, e o romance Tieta do Agreste, pastora de cabras (1977), grande painel da vida no interior baiano, onde uma antiga prostituta se torna a principal benfeitora da cidadezinha em que nasceu. É vasta e diversificada a obra de Jorge Amado, e o esquema de classificação que proponho é apenas fruto de escolha (e gosto) pessoal.

No ano seguinte após aquele encontro casual com Jorge Amado, não sei se antes ou depois de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, compareci a uma tarde-noite em que ele autografava seus livros. Apresentei-lhe meu exemplar encadernado da segunda edição de Gabriela, cravo e canela, também de 1958, e lembro que ele, antes da dedicatória, foi olhar a lombada para ver que livro era. E me olhou com um sorriso, como se agradecesse o cuidado pela conservação do volume. Sorriso que até hoje me acompanha e lhe devolvo agora, grato pelo universo ficcional com que dotou a nossa literatura.

(Publicado inicialmente na Tribuna de Petrópolis, Petrópolis, 19-08-2001)

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