A VIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI) – 2 – por Álvaro José Ferreira

1973 (Continuação)

3. Falecimento do escritor britânico J. R. R. Tolkien; concluiu os estudos de Língua e Literatura Inglesas, no Exeter College, da Universidade de Oxford, em 1915, e foi mobilizado no ano seguinte para a I Guerra Mundial, integrando os Lancashire Fusiliers, recebendo o baptismo de fogo na batalha do Somme (França); retirado da frente de combate, depois de haver contraído a febre das trincheiras, terá sido durante a convalescença que deu início ao estudo de formas arcaicas de linguagem, que viria a estender ao domínio do seu trabalho de ficção, designadamente à escrita da obra “Silmarillion”, publicada postumamente (1977); nos anos 30, demonstrou interesse pela epopeia nacional finlandesa, o Kalevala, de onde recolheu ideias, não só para a criação de uma das línguas imaginárias, o Quenya, como também para a trama de algumas das suas histórias, se bem que grande parte das personagens derivem do folclore e da mitologia inglesas, ou de um passado anglo-saxão idealizado; a sua primeira obra de ficção, “The Hobbit” (1937), foi uma adaptação de histórias contadas aos próprios filhos, acabando as respectivas personagens por reaparecer em “O Senhor dos Anéis” (“The Lord of the Rings”, 1954-55), uma trilogia em que Tolkien descreve a cosmogonia e a história da mitológica Terra Média, um mundo de fantasia habitado por seres fabulosos, e para o qual inventou vários idiomas, entre os quais os élficos Quenya e Sindarin; em meados dos anos 60, as edições de bolso piratas norte-americanas de “O Senhor do Anéis” transformaram a trilogia numa obra de culto, atingindo vastíssima popularidade depois da transposição para cinema pelo neozelandês Peter Jackson: “A Irmandade do Anel” (“The Fellowship of the Ring”, 2001) [>> YouTube], “As Duas Torres” (“The Two Towers”, 2002) [>> YouTube] e “O Regresso do Rei” (“The Return of the King”, 2003) [>> YouTube];

4. Falecimento do artista plástico espanhol Pablo Picasso; nascido em Málaga, no ano de 1881, Pablo Ruiz y Picasso tornar-se-ia o artista plástico mais famoso do século XX; demonstrou uma prodigiosa precocidade artística, produzindo delicados desenhos clássicos aos 10 anos de idade; entre 1901 e 1904, radicado em Barcelona, desenvolve uma atitude social, evocando os mendigos e os deserdados, reflectindo a influência de Toulouse-Lautrec, que corresponde ao “período azul”, uma fase sensível e melancólica, em que os tons azuis predominam; segue-se, já em Paris, o “período rosa”, mais vigoroso: tematicamente, interessa-se pelo circo, pelos saltimbancos; de 1906 a 1908, preocupa-se menos com os sentimentos e mais com a estrutura; com Georges Braque, desenvolve uma nova concepção de pintura que dará origem ao cubismo; vários eventos estão na base dessa mudança: a revelação da escultura tribal africana, a retrospectiva de Seurat no Salão dos Independentes em 1905, a homenagem a Paul Cézanne, no Salão de Outono de 1907, e o conhecimento da ancestral escultura ibérica; surge então a obra que é considerada a fundadora do cubismo, “Les Demoiselles d’Avignon” (1907): as cores ainda estão sob a influência do “período rosa”, mas tornaram-se mais duras, e as personagens apresentam formas semigeométricas expressas enquanto volumes num espaço abstracto (a atenção foi dirigida para as qualidades puramente formais); numa primeira fase, o cubismo tem como referência o real, embora adoptando relativamente ao objecto vários pontos de vista e os problemas de profundidade e perspectiva deixam de se impor; Picasso e Braque colam nas telas pedaços de jornais, papeis, tecidos, embalagens de cigarros; começarão depois a surgir imagens conceptuais do real, como em “Natureza-Morta” (1911), o que corresponde a uma nova fase do cubismo e que dará origem a uma viragem ainda mais radical na História da arte; as formas já não são directamente inspiradas pelo real, a sugestão do volume é definitivamente abandonada, os planos são segmentados em planos de cor viva, por vezes texturada; nos anos vinte, inicia o seu período “greco-romano”, com temas clássicos como em “Mãe e Filho” (1921) e nas figuras de centauros e faunos; este período teve a sua origem na descoberta da arte italiana e na colaboração estreita com Diaghilev, desenhando os cenários e o guarda-roupa dos bailados “Parade” (1917), “Pulcinella”, (1920) e “Mercure” (1924); “Minotauromaquia” (“Minotauromachie”, 1935) é um dos principais trabalhos dos anos trinta e fundamental para a compreensão de “Guernica”, obra que representa a destruição da cidade basca por bombardeiros alemães, a 26 de Abril 1937, um dos tristes episódios da Guerra Civil de Espanha; os elementos principais da obra são o touro, simbolizando “a brutalidade e a escuridão”, o cavalo, como símbolo do “povo sofredor”, e a rapariga com uma luz (este painel foi proibido pelo regime franquista e tornou-se emblemático de um período de comprometimento político); nesta época as deformações das imagens são acentuadas, a expressão é trágica; o fim da guerra traz mais serenidade e alegria à sua pintura; na Provença, multiplica as experiências e as matérias, cria esculturas, trabalha com cerâmica; no último ciclo da sua pintura, o artista questiona as obras de Delacroix, de Velázquez e do contemporâneo Matisse, sob pretexto de concretizar o tema da criação, do pintor e do modelo; Picasso foi sempre um criador muito pessoal, nunca se prendendo a fórmulas – criava estéticas, combinava-as, renovava esquemas mais tradicionais; embora marcada pelo cubismo, a sua arte evocará sempre múltiplas metamorfoses: segundo o próprio Picasso, os seus sucessivos estilos «não devem ser considerados como evolução, mas como variação» [>> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube];

5. Falecimento do violoncelista catalão Pablo Casals; nascido no ano de 1876, em Vendrell, Catalunha, foi desde tenra idade iniciado no canto e no piano pelo seu pai, um organista de igreja; com cinco anos de idade já cantava no coro da igreja, ao mesmo tempo que aprendia a tocar instrumentos, como a flauta e o violino, que passou a ser a sua grande paixão; sendo alvo de chacota por parte dos colegas de escola por tocar violino com os olhos fechados, sentiu-se impelido a mudar de instrumento e abraça o violoncelo; tinha treze anos quando encontrou, numa loja de antiguidades em Barcelona, uma edição das “Seis suites para violoncelo solo”, de Johann Sebastian Bach, então praticamente desconhecidas; dedica-se ao seu estudo até que, em 1901, se atreve a interpretar em público uma delas; e não mais parou de tocar aquele maravilhoso conjunto de peças, a ele se devendo o seu resgate para o grande repertório violoncelístico [Suite n.º 1, grav. Londres, 1938 >> YouTube] [Suite n.º 2, grav. Londres, 1936 >> YouTube] [Suite n.º 3, grav. Londres, 1936 >> YouTube] [Suite n.º 4, grav. Paris, 1939 >> YouTube] [Suite n.º 5, grav. Paris, 1939 >> YouTube] [Suite n.º 4, grav. Paris, 1938 >> YouTube]; antes, em 1905, formara com o violinista Jacques Thibaud e o pianista Alfred Cortot aquele que se tornaria um dos mais conceituados trios de câmara do mundo; data da mesma altura o início de uma relação sentimental com a também violoncelista Guilhermina Suggia que conhecera em Espinho, no ano de 1898, e a quem daria lições de violoncelo a pedido do pai dela; virá a separar-se em 1913, casando-se um ano mais tarde com a soprano norte-americana Susan Metcalfe; em 1938, pressentindo a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, exilou-se no sul de França, recusando-se a tocar para os nazis, atitude que lhe custou a prisão domiciliária, durante vários anos; após a II Guerra Mundial, Casals interrompeu uma já iniciada série de concertos, de forma a mostrar a sua indignação com a ditadura do general Franco; regressa aos palcos, em 1950, mas por uma única razão: a celebração dos 200 anos da morte de Johann Sebastian Bach; reuniu, na pequena cidade francesa de Prades, músicos de todo o mundo, e aí fundou um festival que ficaria com o seu nome; passou os últimos anos de vida, na terra natal da mãe, a ilha de Porto Rico, na companhia da sua segunda esposa, Marta Montañez (59 anos mais nova); aí também deixou um enorme legado: um outro festival com o seu nome, um conservatório e uma orquestra que ele próprio dirigiu várias vezes; faleceu, a 22 de Outubro de 1973, aos 96 anos de idade, sendo sepultado no Puerto Rico Memorial Cemetery, uma vez que sempre se recusara a regressar a Espanha enquanto Franco estivesse no poder; anos mais tarde, em 1979, os restos mortais de Casals seriam transladados para a sua Vendrell;

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