POESIA AO AMANHECER – (6) – por Manuel Simões

Hilda Hilst – Brasil

(1930- 2004)

                                   DO AMOR CONTENTE E MUITO   DESCONTENTE

O tempo é na verdade o do retorno.

            Pensa como se agora fôssemos argila

E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.

Por um momento (se viessem chuvas)

            Talvez se misturasse o meu corpo com o teu

            E um gosto de terra úmida aproximasse

 

Brandamente

As nossas bocas.

 

Que seja assim lembrada a tua ausência:

Como se nunca tivéssemos nascido

Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos

Conhecido a verdade e a beleza do amor.

Pensa como seria se não fôssemos.

E não houvesse o pranto, o ódio, o desencontro.

O tempo é na verdade o do retorno.

Se não for amanhã, será um dia.

O céu azul e limpo, o mar tranqüilo

Pássaros e peixes, pássaros e peixes

 

Mais nada.

(de “Roteiro do Silêncio”)

Poetisa, ensaísta e ficcionista. Figura polémica pelo seu inconformismo, a sua poética caracteriza-se pela mordacidade e pela ironia. Da sua monumental obra é forçoso citar: “Presságio” (1950), “Roteiro do Silêncio” (1959), “Trovas de muito amor para um amado senhor” (1959), “Cantares de perda e predilecção” (1983), “Poemas malditos, gozozos e devotos” (1984). Reconhecida como um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea.

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