Hilda Hilst – Brasil
(1930- 2004)
DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE
O tempo é na verdade o do retorno.
Pensa como se agora fôssemos argila
E estivéssemos sós e mudos, lado a lado.
Por um momento (se viessem chuvas)
Talvez se misturasse o meu corpo com o teu
E um gosto de terra úmida aproximasse
Brandamente
As nossas bocas.
Que seja assim lembrada a tua ausência:
Como se nunca tivéssemos nascido
Sangue e nervos. Como se nunca tivéssemos
Conhecido a verdade e a beleza do amor.
Pensa como seria se não fôssemos.
E não houvesse o pranto, o ódio, o desencontro.
O tempo é na verdade o do retorno.
Se não for amanhã, será um dia.
O céu azul e limpo, o mar tranqüilo
Pássaros e peixes, pássaros e peixes
Mais nada.
(de “Roteiro do Silêncio”)
Poetisa, ensaísta e ficcionista. Figura polémica pelo seu inconformismo, a sua poética caracteriza-se pela mordacidade e pela ironia. Da sua monumental obra é forçoso citar: “Presságio” (1950), “Roteiro do Silêncio” (1959), “Trovas de muito amor para um amado senhor” (1959), “Cantares de perda e predilecção” (1983), “Poemas malditos, gozozos e devotos” (1984). Reconhecida como um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea.

