A VIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VI) – 5– por Álvaro José Ferreira

1973 (Continuação)

14. Edição do álbum “Venham Mais Cinco”, de José Afonso; «”Venham Mais Cinco” é o segundo álbum “francês” com arranjos e direcção musical de José Mário Branco e é um dos pontos mais altos da carreira discográfica de José Afonso. É inútil discutir se é melhor que “Cantigas do Maio”, tanto mais que é evidente a sua complementaridade. Partindo das mesmas premissas de extrapolação da balada para outras paisagens musicais, o disco de 1973 triplicou o número de músicos empregues dois anos antes, dezoito no total. José Niza recorda a razão de tão grande número de participantes: “É o disco com mais músicos porque cada canção foi encenada de acordo com determinado tipo de sonoridades e de instrumentos.” José Mário Branco imprimiu a “Venham Mais Cinco” o seu estilo, tal como o fizera em “Cantigas do Maio”. Recorreu de novo a Michel Delaporte e ao seu arsenal de percussões, mas num contexto de diversificação de horizontes sonoros, acrescentou instrumentos como o violino, o violoncelo, a harpa e o saxofone, até então ausentes na discografia de Zeca Afonso, enquanto este, por seu turno, introduziu um elemento estranho na paleta do seu director musical, sob a figura do guitarrista brasileiro Yório Gonçalves. A unidade musical que formava o reportório de “Cantigas do Maio” deu lugar a uma diversidade em “Venham Mais Cinco”, onde as suas intuições foram exploradas numa multiplicidade de direcções. E à maior variação sonora correspondeu logicamente uma mais declarada liberdade poética. “Venham Mais Cinco” [>> YouTube] é um típico hino dos anos de resistência, “Adeus, ó Serra da Lapa” [>>YouTube] será uma forma mais lírica de dizer o mesmo, mas já “A Formiga no Carreiro” [>>YouTube] cruza a evidente metáfora de insurreição no refrão com a fábula surrealista dos versos. Antes, José Afonso já cortejara o paradoxo, mas este é o álbum em que mais se afastou do discurso inteligível. Temas como “Gastão era Perfeito” [>>YouTube] e “Nefretite Não Tinha Papeira” [>> YouTube] revelam um humor corrosivo, mas também desconcertante, enquanto “Paz, Poeta e Pombas” [>> YouTube] é quase um poema fonético. Foi aqui que José Afonso celebrou por excelência a desordem do discurso verbal e musical, porventura a forma superlativa de sagrar a revolução. E por isso mesmo, se “Cantigas do Maio” é o seu álbum mais aclamado, “Venham Mais Cinco” é uma das suas obras mais enigmáticas e perenes, ontem resistente a um regime político, hoje a uma cultural boçal.» (Luís Maio, in “Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa”, Público/FNAC, 1998). Refira-se que alguns temas deste álbum, entre os quais “Era Um Redondo Vocábulo” (que muitos consideram a mais sublime composição de José Afonso) [>> YouTube], foram concebidos durante o período em que esteve detido na prisão de Caxias, em Abril e Maio de 1973; para o alinhamento ficar completo, há que referir “Rio Largo de Profundis” [>> YouTube], a sublime “Que Amor Não Me Engana” [>> YouTube] e ” Se Voaras Mais ao Perto” [>> YouTube];

15. Edição do álbum “Mestre”, de Petrus Castrus; «O projecto musical de Pedro Castro surgiu logo no princípio da década de 70, numa recusa do rock quadrado que se vinha praticando na década anterior e que ele próprio protagonizara, na adolescência. Antigo guitarrista dos Sheiks e dos Chinchilas, Pedro Castro criou os Petrus Castrus com o seu irmão, José Castro. A intenção era produzir uma música mais reflectida, que atribuísse um suplemento de sentido à palavra, fugindo instrumentalmente aos ‘clichés’ do que se vinha praticando, ainda muito arreigado ao rock’n’rol (dos anos 50 e ao som dos Beatles de contornos imberbes, ou seja, anteriores a “Revolver” e mesmo a “Rubber Soul”). Os irmãos Castro convidaram João Seixas e Júlio Pereira, dois jovens músicos dos Play-Boys (grupo que praticava uma música mais violenta do que então se usava, podendo aqui encontrar-se a génese do ‘heavy’ português). O quinto elemento, Rui Reis, era um pianista de formação clássica. Esta união de naturezas, formações e intenções divergentes foi o fermento para a criação da primeira banda de rock progressivo em Portugal (rock sinfónico dos Tantra ou de José Cid seria a consequência desta primeira abordagem). O recurso ao surrealismo, ao absurdo e até a um inesperado calão era uma estratégia de choque solidificada pela intencionalidade da construção musical, em que o esmero da execução e das estruturas de composição era pensado, e não amanhado ao som do que era usual fazer. Proposto à Sassetti, o álbum será gravado, em Novembro de 1972, nos estúdios Strawberry do Castelo de Hérouville, em França, onde José Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho também gravaram. Com letras e músicas de José Castro e Pedro Castro, excepto onde indicado, o alinhamento é assim constituído: “Mestre” [>> YouTube], “Pátria Amada” [>> YouTube], “Porque” (Sophia de Mello Breyner Andresen / Rui Reis) [>> YouTube], “País Relativo” (poema de Alexandre O’Neill) [>> YouTube], “Macaco” (poema de Alexandre O’Neill) [>> YouTube], “S.A.R.L.” (poema de Ary dos Santos) [>> YouTube], “Pasárgada / Saudades do Rio Antigo” (poema de Manuel Bandeira) [>> YouTube], “Velho Avarento” (poema de Bocage) [>> YouTube], “Tiahuanaco” [>> YouTube], “História do Azul do Mar” (letra de António Cena) [>> YouTube] e “Só Mais Nada” (poema de Fernando Pessoa) [>> YouTube];

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