SOBRE A BOMBA DE NEUTRÕES FABRICADA EM BRUXELAS E ALGURES E JÁ PRONTA PARA DISPARAR SOBRE TODA A ZONA EURO – V

POR JÚLIO MARQUES MOTA

(continuação)

O que é o  TARGET2 e o que ele nos pôde mostrar ? 

TARGET2 é o Sistema de Liquidação por Bruto em Tempo Real (SLBTR) do Euro sistema,  usado para realização  os pagamentos entre países e  entre bancos no espaço económico europeu. Os pagamentos transfronteiros que surgem de transacções comerciais, de valores mobiliários ou da concessão de empréstimos  a não-residentes, é o que basicamente se  reflecte  nos créditos ou passivos interbancários  relativamente ao  o resto da área do euro, podem ser estabelecidos e realizados com o sistema de pagamentos  TARGET2.

O efeito destas operações nos balanços dos bancos centrais pode ser ilustrado no exemplo abaixo, onde um banco espanhol faz um pagamento a um banco alemão:

• Como os bancos da área do euro mantêm contas com os respectivos bancos centrais nacionais, quando o banco espanhol faz um pagamento a um banco alemão, o sistema TARGET2 debita a conta do banco espanhol no banco de Espanha e credita a conta do banco alemão junto do Bundesbank.

• Com tudo o resto igual, o que daqui resulta é um aumento do passivo do Bundesbank, na forma de uma responsabilidade para com o banco alemão. Esta posição de passivo no Bundesbank é contrabalançada por uma correspondente posição no lado dos activos do mesmo valor na forma de uma disponibilidade, na forma de um activo, sobre o banco de Espanha – que aparece no lado do passivo do banco de Espanha no montante e no lugar da responsabilidade assumida pelo banco privado espanhol.

• A compensação de tais fluxos de pagamento em moeda do banco central cria saldos bilaterais para cada BCN que está ligado ao TARGET2. Estes saldos bilaterais são então afectos ao BCE numa base diária, deixando cada BCN com uma única posição líquida bilateral e apenas face ao BCE . Assim a posição activa do Bundesbank aparece estabelecida com o BCE, enquanto o BCE assume ele uma posição activa sobre o Banco de Espanha. No balanço do BCE (ou do Euro-sistema, mais precisamente) essas posições líquidas entre os bancos centrais nacionais e o BCE aparecem completamente compensadas.

Tudo isto leva o Jornal de Negócios com alguma ironia a dizer que o Banco Central Europeu não existe. E exemplifica com a última LTRO graficamente expressa por exemplo como:

 (Setas: fluxos de crédito, Verde: bancos superavitários; Vermelho: bancos deficitários)

O BCE define uma política mas são os bancos centrais dos países que lhe dão cumprimento. Mas o Banco Central Europeu é então a interface entre os alemães e os restantes bancos nacionais, o que o jornal não considera, uma vez que é ele que recebe as disponibilidades alemães que recicla depois colocando-as à disposição dos restantes bancos centrais  nacionais. Questão tanto mais importante quando é por aqui que passa o envolvimento do Estado alemão, nos créditos que assume face ao BCE, no domínio do que é público,  e nos correspondentes responsabilidades que o seu sistema financeiro privado  assume perante os agentes privados não residentes. O banco Central Europeu  tem que estar no meio entre as setas vindas ou idas para a Alemanha e as setas vindas ou partindo dos bancos outros que não alemães, ou seja, como se ilustra no esquema abaixo:

No caso, o BCE decidiu lançar 1000 milhares de milhões de euros mas quem cedeu os créditos foram os Bancos Centrais Locais e no nosso exemplo, o Bundesbank.  O Bundesbank disponibiliza estes fundos ao BCE e ao banco alemão marcado como BA3, assumindo uma posição credora face a estes dois  últimos. O Banco Central Europeu, por sua vez, disponibiliza o dinheiro aos Bancos Centrais Nacionais, de Portugal, da Grécia, da França. Neste último caso, a  liquidez em moeda central disponibilizada pelo central Europeu e pelo banco assinalado como BF1  é depois  disponibilizada aos bancos BF1 assinalados a vermelho.

Por exemplo, foi o Banco de Portugal que cedeu os créditos aos bancos portugueses e que “recolheu” os colaterais (as garantias pois os movimentos do BCE são contra garantias) e compensou esses empréstimos com dívida ao BC alemão.

Fig. 2 – O Euro Sistema materializa-se com os Bancos Centrais Nacionais

O que é que acontece aos saldos no euro-sistema?

Embora os bancos centrais nacionais no euro-sistema apresentem geralmente posições face ao BCE que não se compensam totalmente, o saldo tende a ser neutro geralmente. No entanto, nestes últimos anos alguns dos países têm visto as suas responsabilidades no Target 2 aumentarem (e por outro lado outros viram as suas posições credores no euro-sistema a aumentarem. A figura 2 mostra um aumento de seis vezes a soma de todos os saldos de TARGET2 positivos (ou alternativamente negativos) dos BCN da área do euro, a  partir de 2007.

(continua)

Leave a Reply