«Os Lusíadas» em Catalão – Fèlix Cucurull

 Toda a gente sabe como é arriscada a tentativa de traduzir poesia. Trata-se de um dos empreendimentos literários em que mais difícil se torna obter resultados satisfatórios. Por isso, tantas vezes se tem erguido a voz da prudência pedindo que os poetas apenas sejam traduzidos em prosa. Desta maneira, a traição fica atenuada pela renúncia expressa à fidelidade, Reduzir o verso a prosa é quase o mesmo que reproduzir uma pintura a preto e branco. Porém, os que têm razão talvez sejam os mais cautos, os mais escrupulosos; aqueles que afirmam que não se deveria sequer tentar traduzir a poesia. Mas, na impossibilidade de aprender todas as línguas, é preciso escolher entre a limitação dos nossos conhecimentos poéticos e o perigo de que nos seja dado gato por lebre. E, habituados a que nos dêem gato, é caso para se ficar deslumbrado quando, excepcionalmente, se encontra uma tradução à altura do texto original.

Na versão catalã de Os Lusíadas (Editorial Alpha, Barcelona, 1964), Guillem Colom e Miquel Dolç obtiveram uma perfeita equivalência entre os versos portugueses e os que eles criaram. E digo criaram, porque esta tradução é tão perfeita que não temo afirmar que Os Lusíadas foram, de certo modo, criados novamente.

Logo no início do Canto Primeiro nos surpreende encontrar na versão de Dolç e Colom o mesmo sentido e a mesma cadência do texto português. Tenhamos  em conta que, por outro lado, não recorreram à facilidade do verso livre. Os versos da tradução catalã são rimados, de acordo com os portugueses:

 As armas e os Barões assinalados

Que, da Ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana (…)

 

em catalão ficou:

 Les armes i els barons mês distingits

que, de l’extrema riba lusitana,

per uns mars de ningú mai no fendits,

passaren més enllà de Taprobana (…)

Os Lusíadas existem de novo. Agora noutra língua. Existem novamente, penso eu, tal como se Camões os teria escrito se se tivesse valido da língua catalã.

Vejamos, por exemplo, como fica resolvida poeticamente a estrofe em que se encontra o verso, tantas vezes citado, da «austera, apagada e vil tristeza»:

No cantis, Musa, més, que destrempada

tinc ja la lira amb enronquit accent,

i no del cant, sinó veient que errada,

canta una sorda i endurida gent.

El favor del qual més l’enginy s’agrada,

no el dóna, no, la pàtria, adherent

al gust d’ambició i a la rudesa

d’una austera, apagada i vil tristesa.

 

Foi Miquel Dolç quem redigiu o prefácio e as 1248 notasincluídas neste volume de Els lusíades. E, de facto, foi Miquel Dolç quem sustentou o principal peso na tradução. Tradução que já prevíamos excelente, dado o facto de os dois escritores que a realizaram serem notáveis poetas, ambos bem treinados no delicado labor de traduzir. É preciso lembrar que Guillem Colom (1) traduziu Mistral para Catalão. E que Miquel Dolç, catedrático de latim na Universidade de Valença (2), é um destacado humanista, autor das impecáveis versões catalãs de Marcial, Ovídio, Pérsio Flaco, Virgílio, Tácito, Estácio, Tertuliano, etc., publicadas pela Fundação Bernat Metge. Mas, se Miquel Dolç foi sempre um tradutor prestigioso, temos de confessar que o que conseguiu agora com Guillem Colom, em Els lusíades, ultrapassa o que se possa imaginar como possível na arriscada e muitas vezes desafortunada missão de traduzir poesia.

  

(1) Guillem Colom i Ferrà (1890-1979). Poeta i dramaturg mallorquí. Fou autor de reculls poètics, d’un extens poema èpic, “El comte Mal” (1950), i d’obres dramàtiques. A més de Camões i Mistral, va traduir Èsquil i Horaci, entre d’altres). Les seves memòries, amb el títol  Entre el caliu i la cendra (1890-1965), es van publicar l’any 1972.

(2) Miquel Dolç i Dolç (1912-1994). Intel·lectual mallorquí. Fou catedràtic de filologia llatina  Sevilla i València entre 1955 i 1968. Des del 1968 fou degà de la Universidad Autónoma de Madrid. Va publicar poesia i assaig, especialment estudis històrics i literaris. Va traduir al català  l’Eneida de Virgili i obres de Marcial, Tàcit, Tertul·lià i Ovidi, entre d’altres. Fou membre de l’Institut d’Estudis Catalans (1961) i de l’Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona (1970).

Em 1975 foi lançado em Portugal o seu ensaio de Félix Cucurull, Dois Povos Ibéricos (Portugal e Catalunha), que em 1966 fora vencedor do prestigiado e prestigioso Prémio Josep Yxart. Da edição portuguesa (Assírio & Alvim, Cadernos Peninsulares, Lisboa, 1975) seleccionámos este texto complementar do ensaio. A tradução, revista pelo autor, foi de Carlos Loures. As notas finais são de Josep Anton Vidal.

(anteriormente publicado no Estrolabio)

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