A DETERMINAÇÂO DA TAXA LIBOR – PARTE I. Por Satyajit Das – II

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

SÉRIE BANCA – 11
(continuação)

Primeira determinação….

Antes de 2007, as taxas foram manipuladas por Barclays com a finalidade de obter benefícios financeiros. Subsequentemente, durante a crise financeira global (“CFG”), o banco Barclays manipulou as taxas devido a preocupações relativas a questões de reputação.

O episódio de antes de 2007 relaciona-se principalmente com os desajustamentos ou desequilíbrios entre activos e responsabilidades. Na maior parte do tempo, os bancos simultaneamente emprestam dinheiro e levantam dinheiro por empréstimo. Nos produtos derivados, os bancos simultaneamente emprestam e contraem empréstimos a taxas iguais ou semelhantes.

Por exemplo, um banco pode ter contraído empréstimos a 1 mês para financiar a concessão de um crédito onde a taxa é baseada na taxa Libor a 3 meses. Os traders sobre produtos derivados podem estar a receber à taxa LIBOR a 3 meses, mas estar a pagar à taxa LIBOR a 6 meses. Desequilíbrios podem decorrer de diferenças em termos de tempo de vida activa dos contratos; um banco pode ter uma transacção  estabelecida  à taxa Libor a 3 meses num dia e em que esta operação  é depois compensada no dia seguinte ou alguns dias mais tarde por uma outra  posição a  preço  determinado na base da taxa Libor a três meses.

Os desequilíbrios temporais, a não correspondência entre as maturidades das responsabilidades e das disponibilidades, podem ser deliberadamente criadas para aumentar os lucros. Estes desequilíbrios também resultam do fluxo natural das transacções dos clientes.

Estas não correspondências temporais (conhecidos como reset risk) podem ser geridas por entrar em transacções, tais como reset swaps. Um banco pode pagar 1 mês LIBOR contra receber à taxa LIBOR a 3 meses. As coberturas de risco são caras e não estão sempre prontamente disponíveis.

O incentivo para manipular as taxas de lucro decorre destes desequilíbrios entre posições de contratos. Esta explicação é consistente com o tipo de actividades desenvolvidas.

Em 13 de Setembro de 2006, um trader em Nova York escreve: “Ei, oh pessoal, temos uma grande posição em taxa libor a 3 meses para os próximos 3 dias. Vejam se podemos manter o fixing da Libor, a 5.39 para os próximos dias. Isto realmente ajudaria muito. Não queremos que seja mais alto que este valor. Muito obrigado”. Em 13 de Outubro de 2006, um responsável pelo departamento ou secção de swaps em euros afirma: “Tenho uma enorme fixação de taxa na segunda-feira… qualquer coisa como 30 mil milhões… e eu gostaria que fosse muito, mas mesmo muito, alta… Podes fazer alguma coisa para ajudar? Conheço um grande operador que estará contra nós… e não quero perder dinheiro nesta operação financeira. “. Em 26 de Outubro de 2006, um trader externo faz uma proposta para uma mais baixa taxa Libor a três meses para o dólar, enviada por email a um trader do Barclays “se ela permanece inalterada serei um homem morto “.

Os traders procuraram determinar os conjuntos de taxas para aumentar os lucros das empresas e, finalmente, para aumentarem os seus próprios bónus. Na sequência do pedido acima citado de 26 de Outubro de 2006, o Barclays apresentou-lhe uma proposta de taxa LIBOR para o dólar a 3 meses que foi meio ponto base menor do que a taxa Libor do dia anterior. O trader externo agradeceu ao trader do Barclays: ” meu caro. Devo-lhe um grande momento! Venha um dia depois do trabalho que eu abro uma garrafa de Bollinger”.

Uma segunda determinação….

Durante a CFG, a FSA alega que o Barclays tentou manipular a LIBOR para minimizar as suas preocupações à volta da sua posição financeira.

As condições do mercado monetário eram extremamente difíceis no final de 2007 até ao início de 2009 quando as maciças intervenções de financiamento pelo Banco Central aliviaram as pressões ligadas às necessidades de financiamento. Houve muito pouca ou mesmo nenhuma grande transacção nos mercados monetários, especialmente para contratos de maturidade superior a uma semana.

A actividade de financiamento e as cotações para a LIBOR de cada banco foram intensamente escrutinadas. As atenções estavam centradas naqueles bancos que estavam a ter acesso às facilidades de financiamento de emergência do Banco Central, tais como as facilidades de emergência tipo stand by do BoE. Durante este período, uma alta taxa LIBOR era interpretada como um sinal de que um banco estava com muitas dificuldades em se financiar no mercado, levando a sair dos limites do mercado monetário e agravando as dificuldades de financiamento. Os mercados de capital também reagiram selvaticamente, vendendo-se acções de bancos ao mínimo sinal de dificuldades de financiamento eu destes fossem conhecidas.

A incerteza era evidente dado os enormes valores mantidos como reservas junto dos bancos centrais e sabendo-se ainda que as instituições assumiam os piores cenários sobre os seus pares. Também era evidente a diferença entre a taxa Libor do dólar a 3 meses e a taxa overnight indexada de swap, que é um indicador da vontade dos bancos para emprestarem uns aos outros. Esta diferença alcançou um valor recorde de 364 pontos base a 10 de Outubro de 2008, em comparação com uma média de 10 pontos base no período 2003-2008 e de 45 pontos base desde 2008.

Os bancos também consideram difícil calcular com segurança e precisão as taxas devido à falta de liquidez nos mercados monetários. As propostas tornaram-se uma estimativa do nível que se verificaria se o mercado existisse com base em discussões com outros participantes do mercado e por confronto com propostas anteriores dos seus concorrentes.

O relatório da FSA refere-se à média dos relatórios em que Barclays tinha proposto altas taxas para a LIBOR e à preocupação do mercado sobre o próprio banco Barclays. O BoE também teve papel importante a conduzir um conjunto de discussões entre os altos funcionários do Barclays e as autoridades inglesas. As preocupações do BoE eram compreensíveis dadas também as dificuldades de outros grandes bancos do Reino Unido, tais como RBS e Lloyds/HBOS.

Uma nota escrita em Outubro de 2008 pelo director do Barclays, Diamond (curiosamente uma das 3 que ele apenas terá escrito) afirma que o vice-governador BoE Paul Tucker o informou que o envio de propostas para altas taxa Libor estavam a ter a atenção das “altas personalidades ” em Whitehall. O presidente Diamond lembrou que Tucker sentia que o Barclays não precisava de continuar a enviar propostas de taxas elevadas para o cálculo, para o fixing, da Libor dizendo-lhe que “nem sempre é necessário, como está a ser o caso, que nós (Barclays) apareçamos com propostas de taxas tão altas como temos estado a fazer”.

A posição de Barclays poderia agora estar a levantar outras preocupações uma vez que sinais incorrectos sobre os preços, sobre as taxas, poderiam desencadear  o pânico e assim poderiam desencadear enormes pressões sobre o financiamento.

Numa entrevista à televisão da Bloomberg em Maio de 2008, Tim Bond, um antigo executivo da Barclays Capital, indicou que os bancos de modo rotineiro enviam relatórios incorrectos sobre os seus custos em empréstimos obtidos no processo de determinação da Libor, o mecanismo BBA,  para evitar que se tenha a ideia de que estes se estão a debater com grandes dificuldades para conseguirem levantar fundos no mercado interbancário durante este período. Isto é consistente com o Banco Internacional de Pagamentos que num relatório em 2008 questionou a validade das taxas Libor, afirmando que estas poderiam estar a ser influenciadas por “comportamentos estratégicos” com os bancos a serem muito cautelosos, “wary of revealing) quanto a informações que poderiam dar o mínimo sinal de estarem em dificuldade.

Enquanto a manipulação feita pelos bancos para efeitos de ganhos financeiros é indefensável, os funcionários do Barclays argumentam que, durante a crise, estes agiram com o acordo explícito ou implícito, do BoE.

(continua)

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