EM COMBATE – 153 – por José Brandão

Um soldado, conhecido pelo nome de Loriga, fazia parte do contingente do RI-16. Logo que soube que eu estava de Oficial de Dia, no dia seguinte à minha apresentação, dirigiu-se a mim, contando as peripécias que havia aprontado, razão pela qual fora punido pelo capitão comandante da sua Companhia, punição essa que o impedia de sair do quartel por um sem-número de dias. Logo entendi a sua intenção e apressei-me a assinar uma “Autorização de Saída”, não sem que antes lhe determinasse que não me colocasse em “check”, de vez que eu estava desfazendo as ordens do capitão.

Foi sempre gente fixe, esse tal soldado Loriga, que, hoje, volvidos mais de 46 anos, não consigo identificar. O capitão, de castigo, colocara-o no Rancho, que, a meu ver, era onde mais se trabalhava, no quartel. Do soldado Loriga, não mais tive notícias, excepto pelo fato de haver dito ao meu saudoso tio Zé Moura, que o Aspirante Carreira havia sido um “gajo porreiro”, com ele, quando serviu no RI-16.

A viagem, não fosse o mau tempo que pegamos de Lisboa para a Ilha da Madeira, e do péssimo que tivemos ao dobrar o Cabo da Boa Esperança – para nós mais Bojador que da Boa Esperança, por razões óbvias – não deixou de ser maravilhosa, face o inusitado da mesma, pese embora o destino final e a saudade que carregávamos na alma.

Funchal, São Tomé, Luanda, Benguela, Moçâmedes e Cape Town foram as cidades a que aportamos, antes de chegarmos a Lourenço Marques, hoje, Maputo. Em São Tomé encontrei o Furriel Miliciano Crisanto, um colega de Colégio, em Coimbra, que lá cumpria a sua Comissão. Em Luanda, um emissário do meu saudoso primo António Moura procurou-me para me entregar um belíssimo isqueiro Ronson, gravado com o meu nome, o qual, ainda hoje, enfeita uma das estantes de minha casa. Em Luanda, como de praxe, reunimo-nos no Café Paris, ponto de encontro do pessoal dos diversos Cursos de Oficiais Milicianos, onde obtivemos as primeiras e mais consentâneas informações da Guerra em Angola, já que as que eram publicadas, nos jornais, não nos mereciam confiança. Em Cape Town – cidade bastante desenvolvida, com traços acentuadamente europeus – meio desconfiados e temerosos, observávamos, de longe, aquelas esculturais mulheres negras, já que o rígido Apartheid assim o impunha, conforme prévia orientação, recebida, no navio, de tarimbados tripulantes, afeitos à arte da sedução.

Chegado a Lourenço Marques tive como destino o Norte da Província, mais exactamente, a Mueda, Cabo Delgado, a uns 60 km de Tanganica, hoje Tanzânia. Em decorrência do exposto, deveria viajar, dentro de três ou quatro dias, no mesmo navio “Império”, até Porto Amélia, onde aguardaria a chegada do “Niassa”, que trazia duas Companhias de Caçadores, a CCaç 607 e a CCaç 613, que integrariam o Batalhão de Caçadores 558, do qual eu viria a ser o Oficial de Transmissões, Batalhão de Caçadores 558, cujo lema era “Forte, porém Justos”. E assim foi. Novamente embarco no “Império”, rumo a Porto Amélia, com escalas na cidade da Beira, Ilha de Moçambique e Nacala.

Em Porto Amélia, banhei-me pela primeira vez nas águas do Índico, na enorme e bela baía de mesmo nome. Ainda em Porto Amélia, comecei a sentir os primeiros calafrios do que viria a ser uma fortíssima malária que quase acabou comigo, não fora os cuidados e a competência profissional do, então Alferes Miliciano Torres dos Santos, médico da CCS do BCaç 558. Após uma semana em Porto Amélia, hoje Pemba, novamente embarco no “Niassa”, que me levaria a Mocimboa da Praia, último porto antes da minha chegada a Mueda, o que ocorreu no dia 22 de Fevereiro de 1964.

A rigor, Mueda circunscrevia-se ao Quartel, ao Campo de Aviação, ao Posto Administrativo, a uma Escola e pouco mais. Em meio de cerca de 800 militares, descobri que apenas conhecia um Alferes Miliciano, um Sargento e um Cabo, afora um civil. O Alferes Milicianos Antunes, meu companheiro do Curso de Oficiais Milicianos, o Sargento Romano, o Cabo Aparício, da CCaç 607, e o Mecânico Farrancha, todos loriguenses, à excepção do primeiro.

Tendo em vista havermos chegado a Mueda por volta da meia-noite, somente no dia seguinte tomei contacto com o meu Pelotão de Transmissões, bem como com os demais integrantes da Companhia de Comando e Serviços.

Ano de 1964 – Algures no norte de Moçambique com o Pelotão, numa Operação de Reconhecimento.

Meu pelotão era, como disse, composto da brava e boa gente, oriunda das planícies alentejanas, possuidora de fino trato, sempre pronta a bem servir, mesmo em condições as mais difíceis. Sabiam, como ninguém, revertê-las com o hábil uso de suas palavras ou de seus graciosos gestos. A eles, devo, sem dúvida, boa parte dos momentos mais agradáveis que em terras de Moçambique passei. Do Pelotão de Transmissões, faziam parte dois Furriéis Milicianos, meus braços-direitos: o Furriel José Marques e o Furriel Rogério Duarte, ambos muito atenciosos. O Zé Marques, natural do Porto, e, o Rogério, de Elvas. Com eles tive o melhor relacionamento possível, pois foram sempre cumpridores dos seus deveres, quer quando desenvolveram actividades nas Telecomunicações, quer quando trabalharam no Centro Cripto. Graças ao desvelo e competência profissional de ambos, nunca tive, com eles, qualquer tipo de problema.

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