Alda Espírito Santo – S. Tomé e Príncipe
(1926 – 2010)
PARA A TÂNIA
Nesta noite morna de luar africano
Salpicando de sombras as estradas
Eu estendo os meus braços sedentos
Para a nossa mãe África, gigante
E ergo para ti meu canto sem palavras
Suplicando bênção da terra
Para as vias dos teus caminhos
Para a rota do destino imenso
Traçado na inteireza de todo o teu ser
Para ti, a projecção das nossas estradas
Varridas da impureza dos dejectos inúteis
Para ti, o canto de glória
Da nossa Mãe África dignificada.
(de “É nosso o solo sagrado da terra”)
Nasceu em S. Tomé. Teve a sua educação em Portugal e é uma das mais conhecidas poetisas africanas de língua portuguesa.. Militante anti-colonialista, participou activamente na luta pela libertação. Depois da independência, foi ministra da Educação e Cultura e tamdém deputada. Publicou apenas dois livros de poemas: “O jogral das ilhas” (1976) e “É nosso o solo sagrado da terra. Poesia de protesto e luta” (1978).
POESIA AO AMANHECER (13) – por Manuel Simões
Noémia de Sousa – Moçambique
(1926 – 2002)
DEIXA PASSAR O MEU POVO
Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
– certos e constantes –
vindos nem eu sei donde.
Em mim casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos
e Robeson e Marian cantam para mim,
spirituals negros de Harlem,
«Let my people go»
– oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo! –
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
[…]
Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro,
enquanto escrevo, noite adiante,
com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso
do rádio
– «let my people go
oh let my people go»!
E enquanto me vierem de Harlem
vozes de lamentação
e meus vultos familiares me visitarem
em longas noites de insónia,
não poderei deixar-me embalar pela música fútil
das valsas de Strauss.
Escreverei, escreverei,
com Robeson e Maria gritando comigo:
«Let my people go»
OH, DEIXA PASSAR O MEU POVO.
(de “Sangue Negro”)
A poética de Noémia de Sousa é marcada pela constante e persistente presença das raízes africanas, de protesto e de denúncia. Autêntica pioneira (com Craveirinha) da literatura moçambicana, a sua poesia assume-se como representação da voz do povo. Refractária a reunir em volume os seus poemas, embora se encontrem em muitas antologias que a divulgaram a nível internacional, em 2001 publicou-se uma colectânea da sua obra, “Sangue Negro”, em homenagem ao seu 75º. aniversário.
POESIA AO AMANHECER (14) – por Manuel Simões
Daniel Filipe – Cabo Verde
(1925 – 1964)
MORNA
É já saudade a vela, além.
Serena, a música esvoaça
na tarde calma, plúmbea, baça,
onde a tristeza se contém.
Os pares deslizam embrulhados
de sonhos em dobras inefáveis.
(Ó deuses lúbricos, ousáveis
erguer, então, na tarde morta
a eterna ronda de pecados
que ia bater de porta em porta!)
E ao ritmo túmido do canto
na solidão rubra da messe,
deixo correr o sal e o pranto
– subtil e magoado encanto
que o rosto núbil me envelhece.
(de “A ilha e a solidão”)
Nasceu em Cabo Verde mas veio para Portugal com cerca de dois anos. Co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio”. Figura em várias antologias, designadamente em “Poesia portuguesa do após-guerra.1945-1965” (1965) e “Poetas portugueses modernos” (Rio de Janeiro, 1967). Assume a caboverdianidade com “A ilha e a solidão” (1957) e atinge uma dimensão universalizante com os seus livros “A invenção do amor” (1961), de que resultaria o filme de António Campos, e “Pátria, lugar de exílio” (1963).
POESIA AO AMANHECER (15) – por Manuel Simões
Fernando Guimarães – Portugal
(1928 – )
POST COITUM OMNE ANIMAL TRISTE
Em ti o poema, o amplo tecido da água ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensão e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.
Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as árvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestígio dos últimos peregrinos, aves nuas
que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.
Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.
Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.
(de “Poetas Portugueses Contemporâneos”)
Autor de importantes estudos sobvre a poesia portuguesa desde o Simbolismo até hoje: “O problema da expressão poética” (1959), “A poesia da Presença e o aparecimento do Neo-Realismo” (1969), “Os problemas da Modernidade” (1993), entre outros. Simultaneamente é autor de uma obra poética consistente, de que se destacam: “A face junto ao vento” (1956), “Os habitantes do amor” (1959), “Tratado de harmonia” (1988), “O anel débil” (1992).
POESIA AO AMANHECER (16) – por Manuel Simões
Fernando Echevarría – Portugal
( 1929 – )
“HÁ FIGURAS QUE AGUARDAM O MOMENTO”
Há figuras que aguardam o momento
de ficarem na luz de serem vistas.
Até lá, vivem num tempo
que as conserva esquecidas,
ou onde ondeia o silêncio,
apagando o vestígio das suas próprias linhas.
É isso o limbo. Estar sentado
antes ainda de haver epifania.
Mas, quando chega o momento
de as figuras surgirem em ser vistas,
a penumbra nomeia cada gesto
e cada linha
que desloca a luz dos membros,
conforme os move a animação mais íntima.
Estão no mundo. E reina o movimento
na surpresa que ilumina
a ordem de estarmos vendo
como movem o irem sendo vistas.
(de “Figuras”)
Nasceu em Espanha mas veio muito novo para Portugal. Animou revistas como “Graal”, “Eros” e “Limiar”.A sua poesia caracteriza-se por uma componente reflexiva, pela sensibilidade metafísica e pela especulação filosófica. Estreou-se com “Entre dois anjos” (1956), tendo publicado ainda, entre outros textos poéticos: “Tréguas para o Amor” (1959), “Introdução à Filosofia” (1981), “Fenomenologia” (1984), “Figuras” (1987), “Sobre os mortos” (1991).
POESIA AO AMANHECER (17) – por Manuel Simões
Herberto Helder – Portugal
( 1930 – )
“SEI ÀS VEZES …”
Sei às vezes que o corpo é uma severa
massa oca, com dois orifícios
nos extremos:
a boca, e aos pés a dança com a coroa de labaredas
– a cratera de uma estrela.
E que me atravessa um protoplasma
primitivo,
uma electricidade do universo,
uma força.
E por esse canal calcinado sai
um ruído rítmico, uma fremente
desarrumação do ar, o verbo sibilante,
vento:
o som onde começa tudo – o som.
Completamente vivo.
(de “Poesia Toda”)
Talvez a mais exuberante personalidade poética que se manifestou na segunda metade do século XX. A sua poesia, com fortes conotações surrealistas, conheceu sempre a marca do experimentalismo, tendo sido um dos grandes animadores de “Poesia Experimental 1 e 2”. Os seus primeiros textos (“O amor em visita”, 1958; “A colher na boca”, 1961) trouxeram para a poesia portuguesa um sinal indelével de novidade. Citem-se ainda, entre outros possíveis: “Ofício cantante” (1967), “Vocação Animal” (1971), “Cobra” (1977), “Flash” (1980, “Poesia Toda” (1990).
POESIA AO AMANHECER (18) – por Manuel Simões
António Osório – Portugal
(1933 – )
FALA O ARRUMADOR DE AUTOMÓVEIS
Assustado com a miséria e estes anos,
pouco espero de Deus e dos homens.
Não mendigo, olho de soslaio, adivinho,
sem gratidão guardo no bolso os óbolos.
E fui pescador, depois faroleiro: longe
deitava a alma, relâmpago
sobre falésias, em estrelas tocava,
a sirene era o meu grito de amor.
Transluzente e distante e bom
como clarões de um farol nunca foi fácil:
algo se afundava debaixo de mim,
desconhecida culpa. Odeio, sim, odeio
este parque onde chuva e sol impõem as mãos
e na pele penetram sem bálsamo.
Primeiro a luxúria, depois vinho,
escuridão. No fundo de um poço
cujas paredes ressumam lágrimas e avencas.
Custa ganhar a vida e perdê-la.
Tudo foi defraudado, sou eu
– eu ou alguém por mim – quem aperta
desde a infância o nó que me estrangula.
(de “A ignorância da morte”)
Autor de uma vasta obra poética que recupera a grande tradição, é geralmente definido como o mais italiano dos poetas portugueses, por nascimento (mãe italiana) e por formação cultural. Dos seus muitos livros destacam-se: “A raiz afectuosa” (1972), “A ignorância da morte” (1978), “O lugar do Amor” (1981), “Décima Aurora” (1982) e
“A libertação da peste” (2002). Reuniu a sua poesia no volume “A luz fraterna” (2009).
POESIA AO AMANHECER (19) – por Manuel Simões
Ruy Belo _ Portugal
( 1933 – 1978 )
MORTE AO MEIO DIA
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
[…]
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer
(de “Boca Bilingue”)
Poeta da inquietação de raízes ontológicas (com pontas de interrogação religiosa que se foi tornando cada vez mais laica), esteve ligado à revista “Rumo”, à Editorial Aster e à União Gráfica. Publicou “Aquele Grande Rio Eufrates” (1961), a que se seguiram, entre outros, “O Problema da Habitação” (1962), “Boca Bilingue” (1966), “Homem de Palavra(s)” (1970), “Transporte no Tempo” (1973), “Toda a Terra” (1976), “Despeço-me na Terra da Alegria” (1977).
POESIA AO AMANHECER (20) – por Manuel Simões
Pedro Tamen – Portugal
( 1934 – )
“AGORA ABANDONADO SEM SENTIMENTO ALGUM”
Agora abandonado sem sentimento algum
de ter valido a pena ou de não isso,
de olhos abertos mais, assumo e amo,
encordoado como não sei que bicho,
de pé coxinho como não sei que homem.
Olho A e B, e a ti, porém contando
com posição de mar roçando a praia alheia,
tão marginal mas útil de outra forma,
tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.
O lar sonhado não é aqui, mas onde
não sonhe mais por ele. Vivo
de pé, completo com aquilo
que outro vento não tive que me desse,
e mais ainda, com o que não tenho agora
nem pretendo prever: o dia é grande,
a morte igual, a voz silente.
Não posso pedir mais que o dom da sede.
(de “Poetas portugueses contemporãneos”)
Poesia que traduz uma profunda reflexão é, em muitos lugares, intensamente sentenciosa. . Estreou-se com “Poema para todos os dias” (1956) a que se seguiu uma abundante produção. Citam-se, entre outros: “O sangue, a água e o vinho” (1958), “Escrito de memória” (1973), “Princípio de sol” (1982), “Tábua das matérias” (1991), “Guião de Caronte” (1997).
POESIA AO AMANHECER (21) – por Manuel Simões
João Vário – Cabo Verde
( 1937 – 2007)
FRAGMENTO DE “EXEMPLO RELATIVO”
E então subimos aquele grande rio
e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril,
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhámos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do país
miravam-nos como se fôssemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrem.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, ó homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocámos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?
(de “Exemplo relativo, 1968)
Pseudónimo de João Manuel Varela, tendo usado ainda os nomes de Timóteo Tio Tiofe e de G.T. Didial, estes correspondentes ao poeta da caboverdianidade e da África, enquanto João Vário é um autor influenciado pela cultura ocidental. Licenciou-se em Medicina em Portugal mas exilou-se na Bélgica, tendo-se dicado à investigação científica em vários centros internacionais. Depois da independência trabalhou como neurologista tanto em Angola como em Cabo Verde. Estreou-se com o livro “Horas sem carne” (1958), depois renegado. Participou em “Êxodo-fascículo de poesia” (Coimbra, 1961) e publicou “Exemplo geral” (1966) e “Exemplo relativo” (1968). Seguir-se-iam outros “exemplos” e a reunião na obra monumental “Exemplos- Livros 1-9” (2000).
POESIA AO AMANHECER (22) – por Manuel Simões
Maria Teresa Horta – Portugal
( 1937 – )
CLIMA
Neste clima de armas
submersas
de silêncios calados
bocas crespas
de já grandes coragens
e vontades
de já claridade
e já certeza
Neste clima espesso
grosso
enorme
ao tamanho dos olhos – temperatura
à exacta liberdade retomada
uma espécie de grito
e de sutura
Este clima ferida
cerco
incerto
a avolumar na pele cada
dia
este clima punho
Quente
Aberto
(de “Amor Habitado”)
Pertenceu ao movimento “Poesia 61” e é coautora, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, de “Novas Cartas Portuguesas”. A partir dos anos 60 a sua escrita assume-se como representação da “voz feminista”. Da sua obra poética saliente-se: “Espelho inicial”” (1960), “Tatuagem” (1961), “Verão coincidente” (1962), “Amor Habitado” (1963), “Minha Senhora de Mim” (1971), “Educação sentimental” (1975), “Mulheres de Abril” (1977), “Poesia Completa 1 e 2” (1983).
POESIA AO AMANHECER (23) – por Manuel Simões
Fernando Assis Pacheco – Portugal
( 1937 – 1995 )
SONETO
Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade
a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade
a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade
azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade
Lisboa, 28-IV-94
(de “Respiração Assistida”)
Foi jornalista, crítico, tradutor. A sua escrita é caracterizada por uma veia jocosa e satírica. Deixou marcas de grande cronista no “Diário de Lisboa”, na “República” e no “JL”. Obra poética: “Cuidar dos vivos” (1963), “Câu Kiên: Um Resumo” (1972) sob camuflagem vietnamita e que em 1976 conheceria a versão definitiva “Katalabanza, Kilolo e Volta”. Reuniu toda a poesia em “Musa Irregular” (1991). Saiu postumamente o volume “Respiração Assistida” (2003).
POESIA AO AMANHECER (24) – por Manuel Simões
Manuel Alegre – Portugal
( 1937 – )
REGRESSO A ÍTACA
Conheces a casa pelos cheiros e os ruídos
As sombras na parede a certas horas
Uma jarra de rosas sobre a mesa
E a Primavera no quintal com seu perfume
De terra e musgo e buxo e flores de limoeiro
Conheces a casa até por sua música
Que é um branco silêncio povoado
Por móveis e tapetes ecos vozes
Este devia ser o teu lugar sagrado
Aquela Ítaca secreta em que pensavas
Quando buscavas um caminho ou um destino
Mas eis que chegas e algo está mudado
É certo que na vila os velhos te reconheceram
Como a Ulisses o fiel porqueiro
Porém na casa algo está diferente
O teu próprio retrato te parece um outro
E mais do que nunca sentes-te estrangeiro
Por isso o teu exílio é sem remédio
(de “Chegar aqui”)
Com “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967), uma autêntica epopeia às avessas, tornou-se um caso extraordinário de popularidade nas letras portuguesas. Poeta da errância em sentido físico e existencial, quase todos os títulos sucessivos navegam à volta desta componente: “Um barco para Ítaca” (1971), “Nova do Achamento” (1979), “Atlântico” (1981), “Chegar aqui” (1984), “Sonetos do obscuro quê” (1993), até ao recente “Nada está escrito” (2012).
POESIA AO AMANHECER (25) – por Manuel Simões
José Carlos Ary dos Santos – Portugal
( 1937 – 1984 )
SONETO DO TRABALHO
Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.
Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.
Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
(de “Abril. 30 anos trinta poemas”)
Estreia-se como poeta com “A liturgia do sangue” (1963). Tornou-se mais conhecido como autor de poemas para canções (“Desfolhada”, “Tourada”, por exemplo), de que terá escrito centenas de composições. Os seus textos foram cantados por intérpretes de
grande nível (Amália, Carlos do Carmo, etc.). Ainda em 1984, publicou-se o volume “VIII Sonetos de Ary dos Santos”, com estudo de Manuel Gusmão. À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas (“As palavras das cantigas”) que deveria reunir a produção poética dos últimos quinze anos.
POESIA AO AMANHECER (26) – por Manuel Simões
Fiama Hasse Pais Brandão – Portugal
( 1938 – 2007 )
O CONSUMO DE CEREAL
À beira
do rio a imagem é fiel, ascende
entre as matérias
múltiplas das casas, ou entre o odor
que exalam
os seus costumes, eiras: esses círculos
onde os seres vivos, que no rio divergem reflectidos, na vila
conjugam o cereal.
É de metal o fluido da água tal
a dureza, a curta imagem de uma vila consumindo
uma colheita a tempo: o debulhar,
o grão medido, as palhas que na aragem do fim
são outras aves vindo.
(de “F de Fiama”)
Animadora do movimento “Poesia 61”, foi coorganizadora da importante “Antologia de Poesia Universitária” (1964), onde publicou o poema “Barcas novas”, o qual, juntamente com o “Poema para a padeira que estava a fazer pão enquanto se travava a batalha de Aljubarrota”, a tornaria imediatamente famosa. O seu itinerário poético, de grande densidade, evoluiu para formas de notável depuração e complexidade, desde “Em cada pedra um voo imóvel” (1957), passando por “Morfismos” (1961), “Melómana” (1978), “Área branca” (1979), “F de Fiama” (1985) ou “Cantos do canto” (1995).
POESIA AO AMANHECER (27) – por Manuel Simões
Casimiro de Brito – Portugal
( 1938 – )
“AFASTO-ME DE MIM QUANDO ME APROXIMO”
Afasto-me de mim quando me aproximo
Do fio da fala; quando pesco raízes
Para os homens. Afasto-me do jovem
Pescador que fui de conchas nas areias
Do sul. O sol nascia comigo no azul
Solene; o sol e as gaivotas, o desenho
De suas patas na manhã. Ninguém de nós
Sabia nada – nem eu nem o sol nem as aves
Sabíamos nada não havia nada para saber nada
Para dizer sob o lago celeste que nos
Envolvia. Pescador de palavras ainda sou –
Ainda colecciono o rumor da cal ainda ouço
A flauta rouca o pó complacente que envolve
Dentro de mim as coisas todas.
(de “Na via do Mestre”)
Foi co-director dos “Cadernos do Meio-Dia” (1958-1960) e um dos poetas do movimento “Poesia 61”. Autor de uma extensa obra poética, estreou-se com “Poema da solidão imperfeita” (1957), a que se seguiram, entre outros volumes: “Negação da morte” (1974), “Labyrinthus” (1981), “Opus Affettuoso” (1997), “O amor, a morte e outros vícios” (1999), “Na via do Mestre” (2000), “Da frágil sabedoria” (2001). Tem vindo a publicar fragmentos avulsos do seu monumental “Livro das quedas”.
POESIA AO AMANHECER (28) – por Manuel Simões
Armando Silva Carvalho – Portugal
( 1938 – )
A NÉVOA DO NADA
Deu em cinzento o dia.
A cor da paciência amorosa cobre o corpo
e o mar confundido na névoa
tem a resposta abstracta
nos sentidos.
Os sons são a metamorfose dos gemidos do mel,
esse manjar bíblico de núpcias decantadas,
e agridem na sua rigidez cinzenta
a audição passiva.
Os olhos no opaco,
o sabor no vento transtornado,
o olfacto húmido de salinosa angústia
a desflorar a pele,
o frio abraço da separação
da luz.
Uma lição sensual, arrastada pela bruma
que dos versos sempre soube ser
a mais fiel amante.
Altas as aves, recortam-se no céu,
indecifráveis, vãs.
É a vida temível que se ateia nas vozes
mais ocultas da melancolia.
O tempo adensa sem saber o nada,
o amor é o dia.
(de “De Amore”)
Revelou-se como poeta com “Lírica Consumível” (1965), Prémio de Revelação da APE. Publicou a seguir, entre outros títulos: “O comércio dos nervos” (1968), “Armas brancas” (1977), “Técnicas de engate” (1979), “Sentimento dum acidental” (1981), “Lisboas” (2000), “Sol a sol” (2005), “O amante japonês” (2008), “Anthero, areia & água” (2010), “De Amore” (2012).
POESIA AO AMANHECER (29) – por Manuel Simões
Luiza Neto Jorge – Portugal
( 1939 – 1989 )
MINIBIOGRAFIA
Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! Do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.
Agora adoeço, envelheço, esqueço
Oquanto a vida é gesto e amor é foda:
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda.
E se a neve vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso
.
Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor
(da revista “Pravda”, final de 1988)
A sua poesia carcterizou-se sempre pela transgressão como voz desolada mas agressiva contra o senso comum. Estreou-se com “Noite Vertebrada” (1960), distinguindo-se depois entre o grupo de poetas de “Poesia 61” com o livro “Quarta Dimensão”. Publicou a seguir: “Terra Imóvel” (1964), “O seu a seu Tempo” (1966), “Dezanove recantos” (1969), “Os Sítios Sitiados” (1973). O livro “A lume” (1989) foi publicado postumamente. “Minibiografia” parece ter sido o último poema que escreveu.
POESIA AO AMANHECER (30) – por Manuel Simões
Carlos Nejar – Brasil
( 1939 – )
MINÉRIO DA ESPERANÇA
Quem tocar no suor e no trabalho
não terá vassalagem, nem herdade,
não terá usufruto da paisagem,
nem provará o espólio.
As ferraduras se ferram
no minério da esperança;
as ferraduras se ferram
no cavalgar dos cavalos.
As ferraduras se ferram
e o sol acende o minério
de mãos batendo o martelo.
As ferraduras se ferram
e os homens forçam o ferro,
rasgando a polpa do erro
contra a bigorna do tempo,
forcejam o sol, forcejam
a noite e a desentocam,
limpa e fraterna, no escuro,
com seu larval de sementes.
As ferraduras se ferram,
entre o mais moço e o mais velho.
Quem tocar no suor e no trabalho,
pisa o peito de um homem
sob o orvalho.
(de “Canga”)
Poeta de grande projecção nacional e internacional, o gaúcho Carlos Nejar constrói uma vasta obra em que, de forma satírica ou lírica, épica ou dramática, contempla sobretudo a condição humana. Entre os seus muitos livros, cabe mencionar: “O Campeador e o Vento” (1966), “Canga” (1971), “Árvore do Mundo” (1977), “Os Viventes” (1979, acrescido com o inédito “Livro das bestas e dos insectos”, 1999), “Simón Vento Bolívar” (1993), “Aquém da Infância” (1995).
POESIA AO AMANHECER (31) – por Manuel Simões
Ruy Duarte de Carvalho – Angola
( 1941 – )
ENSINAMENTO ORAL DO KORÉ (A VOZ DOS KARAW)
Terceira tirada
Como o punho da lança
como abóbada celeste
como o filho único da altura
acalmai-vos, eis-me aqui
oh sopradores do crepúsculo.
Abóbada celeste
filho único da altura
ave surda-muda
labareda acesa que não atinge o osso.
Obscura é a palavra
embainhada até para os velhos mestres
e mesmo o fundador
foi procurar sabê-la mais além.
Há coisas úteis na casa do amigo
e há coisas úteis na do inimigo:
não será pois de recorrer às duas?
Pela paz se alcança a paz
e o que há para além da paz.
Labor imenso!
Transformação!
O que se ensina agora existe desde sempre.
E é casa já também
o pátio que precede a construção
(de “Ondula, savana branca”)
Poeta, ficcionista, cineasta e antropólogo, com frequência a sua poesia resulta do tratamento concedido a testemunhos da expressão oral africana. Foi um dos autores que contribuiu decisivamente para a modernidade da poesia angolana no início da década de 70. Fez a sua estreia como poeta com “Chão de oferta” (1972), a que se seguiram: “ A Decisão da Idade” (1976), “Exercícios de crueldade” (1978), “Sinais misteriosos…já se vê” (1980), “Ondula, Savana Branca” (1982), “Lavra Paralela” (1987), “Hábito da Terra” (1988), “Ordem de esquecimento” (1997) e “Observação directa” (2000). Em 1989 recebeu o Prémio Nacional de Literatura de Angola.
POESIA AO AMANHECER (32) – por Manuel Simões
Gastão Cruz – Portugal
( 1941 – )
A SOMBRA INICIAL
Vem a poesia da meia claridade
do princípio da vida quando as sombras
tornam ainda obscuro
o texto e pouco a pouco uma água
começa a percorrê-lo sem o levar
Porém que diz ao mundo uma visão
de rostos inclinados transformando-se
devagar em palavras que não
sobem do fosso em que naufragam?
É preciso salvá-las
dessa água que as lava sem levá-las
e os rostos do mundo então dividem-se
e a luz sai dos
olhos ignorados sem sabermos
se é isso a poesia ou se ela era
a sombra inicial que vimos quando a
vida se afastava do nada
(de “A Moeda do Tempo”)
Participou no movimento colectivo “Poesia 61” e foi coorganizador da “Antologia da Poesia Universitária” (1964). Teve a seu cargo a crítica de poesia no suplemto literário do “Diário de Lisboa” (1966-1967) e na “Seara Nova” (1969-1970). Co-dirigiu a série “Textos de Poesia” (1971-1972). Da sua obra poética destacam-se: “A Morte Percutiva, Poesia 61” (1961), “Outro Nome” (1965), “As Aves” (1969), “Teoria da Fala” (1972), “As Leis do Caos” (1990), “Rua de Portugal” (2002), “A Moeda do Tempo” (2006).
POESIA AO AMANHECER (33) – por Manuel Simões
António Franco Alexandre – Portugal
( 1944 – )
“FOSSES TU DEUS, SERIA EU SANTO”
Fosses tu deus, seria eu santo
alimentado a areia e gafanhotos,
sem cessar meditando o único nome
que o horizonte deserto não contém.
Sonho que acordo dentro do meu sonho
para o saber mais certo e mais real;
como o místico leio nas entranhas
da ausência a tua sombra desenhada.
E no entanto és gente, sangue e terra,
corpo vulgar crescendo para a morte;
incerto no que fazes, no que sentes,
e cioso do tempo que me dás.
Porque sei que me esqueces é que lembro
cada instante o que perco e não vem mais.
(de “Duende”)
Estreou-se com “Distância” (1969) e a sua poesia recupera a lírica de amor, embora com aspectos inovadores e contemplando, ao mesmo tempo, uma dimensão metafísica. Da sua obra poética destacam-se: “Sem palavras nem coisas” (1974), “Os objectos principais” (1979), “A pequena face” (1983), “Oásis” (1992) e “Due

