EM COMBATE – 155 – por José Brandão

O Niassa foi, nos primeiros anos da guerra, a zona prioritária das acções da Frelimo, não só porque isso permitia alargar a base de apoio à guerrilha aos povos Ajauas e Nianjas, como constituía o corredor natural para sul, a caminho da Zambézia e daqui para Tete.

A Frelimo beneficiou ainda, nos primeiros anos, do apoio do Malawi para o trânsito e refúgio de guerrilheiros.

Em Tete, a Frelimo desencadeou, nos finais de 1964, algumas acções a partir do Malawi, sobre a região sueste do distrito, como em Mutarara, em Novembro, e no Charre, em Dezembro.

Antecedentes

Em 16 de Junho de 1960, ocorreu em Mueda o primeiro conflito grave entre africanos e forças militares portuguesas.

Os Macondes, tendo os seus chefes à frente, realizaram uma manifestação para expor ao governador do distrito o seu descontentamento pelo processo de distribuição de água, pelos salários e pela tentativa de limitar o papel das cooperativas agrícolas.

Estas vinham a pôr em causa o monopólio das empresas algodoeiras e constituíam centros de contestação política contra a presença portuguesa. A manifestação realizou-se depois de o presidente da cooperativa de Mueda, Lázaro Kavandame, ter sido solto da prisão, e a repressão que se lhe seguiu provocou a morte de grande número de Macondes.

«Depois deste massacre, nunca mais o Norte podia voltar à normalidade. Em toda a região tinha-se levantado o mais amargo ódio contra os portugueses e era evidente, uma vez por todas, que a resistência pacífica era inútil», como escreveria Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frelimo.

Mueda, a capital dos Macondes, «passou a ser objecto de cuidados especiais não só devido à proximidade da Tanzânia, como ainda às características do próprio povo Maconde», relata a História do Batalhão de Caçadores 558, o primeiro a instalar-se em Mueda.

Os interesses em presença

Embora alguns dos mais importantes dirigentes e comandantes da Frelimo fossem originários do Sul e pensassem em Moçambique como entidade autónoma e una, na realidade esta ideia não existia para os Macondes, Ajauas, Macuas, Songas, Nianjas, Senas, Acheuas e outros povos, que na prática apenas conheciam a sua tribo.

Este facto, associado à configuração do território, agravou a já fraca coesão étnica, religiosa e cultural entre os grupos existentes, com dez grandes etnias a falar línguas mutuamente não inteligíveis, pelo que a ultrapassagem das barreiras tribais constituiu para a Frelimo dificuldade adicional, que se reflectiu na posterior afirmação do estado moçambicano.

É neste quadro que se pode considerar terem existido três grandes grupos de interesses em Moçambique, com estratégias próprias face ao conflito que se desenrolava.

Em primeiro lugar, os que associavam o destino de Moçambique ao da África do Sul, incluindo brancos e não brancos, grupo maioritariamente constituído pelos colonos portugueses mais antigos, que integrava desde os que admitiam o apartheid até aos que podiam aceitar a criação de um estado negro no Norte, com sede em Nampula.

Em segundo lugar, os nacionalistas que combatiam na Frelimo e pretendiam a independência a todo o custo, secundados pelos que lutavam noutros movimentos e aceitavam posições intermédias, de colaboração com Portugal e mesmo com a África do Sul, em atitude muito semelhante à da UNITA, em Angola, e que as autoridades portuguesas em Moçambique, lideradas por Kaúlza de Arriaga e pelo «mágico residente» Jorge Jardim, não souberam utilizar na sua estratégia político-militar, como o fez Costa Gomes em Angola, o que contribuiu para que todos esses grupos acabassem, mais tarde ou mais cedo, por se juntar à Frelimo, casos dos grupos de Joana Simeão e de Domingos Arouca, entre outros.

Por último, os expectantes, a grande massa dos que esperam para ver qual das alternativas em presença se revelará mais remuneradora para as suas posições.

As contradições entre os vários grupos dos que propunham uma solução moçambicana em oposição à Frelimo e fora da política oficial do regime não permitiu articular, em tempo útil, uma solução para a guerra que não fosse a sua continuação.

A manobra portuguesa de envolvimento das populações locais ficou muito longe do nível atingido na Guiné, não ultrapassando o aproveitamento da «guerra tribal» considerando etnias «boas» e «más» – para contrariar o avanço das acções da guerrilha e aprofundar as divisões étnicas que lhe permitiam surgir como entidade arbitral e supratribal, enquanto o desenvolvimento económico não alcançava os níveis obtidos em Angola.

Neste contexto, a manobra psicológica das forças portuguesas em Moçambique limitou-se quase exclusivamente a opor os Macuas aos Macondes e estes aos quadros mais evoluídos do Sul, enquanto a africanização da guerra ensaiada por Kaúlza de Arriaga com o apoio de Jorge Jardim (ou vice versa), não foi capaz de tirar rendimento operacional dos grupos especiais e grupos especiais de pára-quedistas (tropas locais), semelhante ao conseguido em Angola com todos os grupos de tropas irregulares (Leais, Fiéis, Flechas e Catangueses), nem de os considerar, como fez Spínola na Guiné, como embrião de forças armadas de novo estado independente na órbita portuguesa.

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