POESIA AO AMANHECER (15) – por Manuel Simões

Fernando Guimarães – Portugal

(1928  –   )

POST COITUM OMNE ANIMAL TRISTE

Em ti o poema, o amplo tecido da água ou a forma

do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada

do desejo, a sua extensão e principias a entregar

os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.

Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as árvores

que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,

o vestígio dos últimos peregrinos, aves nuas

que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece

a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos

perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus

no interior de novos frutos e, abandonado, fico

junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.

(de “Poetas Portugueses Contemporâneos”)

Autor de importantes estudos sobvre a poesia portuguesa desde o Simbolismo até hoje: “O problema da expressão poética” (1959), “A poesia da Presença e o aparecimento do Neo-Realismo” (1969), “Os problemas da Modernidade” (1993), entre outros. Simultaneamente é autor de uma obra poética consistente, de que se destacam: “A face junto ao vento” (1956), “Os habitantes do amor” (1959), “Tratado de harmonia” (1988), “O anel débil” (1992).

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