Fernando Guimarães – Portugal
(1928 – )
POST COITUM OMNE ANIMAL TRISTE
Em ti o poema, o amplo tecido da água ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensão e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.
Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as árvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestígio dos últimos peregrinos, aves nuas
que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.
Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.
Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.
(de “Poetas Portugueses Contemporâneos”)
Autor de importantes estudos sobvre a poesia portuguesa desde o Simbolismo até hoje: “O problema da expressão poética” (1959), “A poesia da Presença e o aparecimento do Neo-Realismo” (1969), “Os problemas da Modernidade” (1993), entre outros. Simultaneamente é autor de uma obra poética consistente, de que se destacam: “A face junto ao vento” (1956), “Os habitantes do amor” (1959), “Tratado de harmonia” (1988), “O anel débil” (1992).
