DIÁRIO DE BORDO, 22 de Agosto de 2012

 

O caso do congressista americano republicano  Todd Akin é preocupante. O senhor já fez vários mandatos na Câmara dos Representantes, e, ao que parece, pertence ao Comité de Ciência do Congresso. Entretanto aparece numa estação de televisão a pregar contra o aborto, e defende que nem em caso de violação deve haver aborto. Entretanto, talvez num momento de insegurança, resolveu acrescentar o seguinte: “First of all, from what I understand from doctors [pregnancy from rape] is really rare,” E depois “If it’s a legitimate rape, the female body has ways to try to shut that whole thing down”. Diário de Bordo transcreveu estas frases de The Nation, de um texto escrito por Ilyse Hogue.

A primeira sensação é a de que estamos perante alguém que merece ser classificado como pouco inteligente (Diário de Bordo não gosta de chamar cretino a ninguém) e profundamente ignorante. Como é que pertence há tanto tempo à Câmara dos Representantes e ao tal Comité de Ciência? Serão todos assim? Se calhar… Mas Ilyse Hogue esclarece-nos que o problema é muito mais complicado. Se, por um lado, Mitt Romney pediu a Akin que desistisse da candidatura ao Senado pelo estado do Missouri, que ele anda a disputar contra uma senhora do partido Democrata, Claire McCaskill, que já lhe cantou das boas, por outro, o nosso homem o ano passado, foi dos que propôs uma lei que visaria impedir que fundos federais fossem usados para financiar despesas, excepto em caso de forcible rape, portanto de violação pela força. Ilyse Hogue explica que a caricata (pelo menos na aparência) redundância na expressão tem uma explicação sinistra: é que assim só seriam exceptuadas as violações consumadas pela força física, ficando de fora situações de coacção psicológica, como aquelas em que adolescentes são manipuladas de modo a consentirem em relações sexuais.

A tal lei não passou. O seu principal proponente terá sido Paul Ryan, que agora foi convidado por Mitt Romney para ser candidato à vice-presidência dos EUA. Entretanto, Romney e Ryan já declararam que nunca se oporão ao aborto em casos de violação. E pediram a Akin que renunciasse à corrida ao Senado. Este pediu desculpas (presume-se que terá sido pelos disparates que disse) mas, ao que parece, continua na corrida.

As conclusões são muitas. Claro, a tacanhez do candidato Akin. E  a (falta de) lealdade de Ryan para com o parceiro de véspera. Não é só cá em Portugal… Romney ora é mais liberal, ora menos… Mas Ilyse Hogue põe o dedo na ferida. As eleições servem não só para eleger uns determinados indivíduos, mas também para veicular determinadas ideias para a opinião pública. Este conceito do forcible rape tem este aspecto sinistro: criar categorias que permitam excluir uma série de situações do apoio que as vítimas necessitam. E dá exemplos de como a opinião pública americana tem sido influenciada, como o das alterações climatéricas, se terão ocorrido ou não na sequência da acção humana. Vê este caso, dos dislates de Akin, como tendo a consequência de pôr no mainstream (ah! estes termos! Como se há de dizer em português? Corrente principal?) da opinião pública estas ideias, de uma determinada maneira. Por isso chama ao seu artigo É perigoso rir de Todd Akin.

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