PEQUENA CRÓNICA DE FARO – II. Por Júlio Marques Mota.

Saio da casa onde estou de férias. Moro numa rua de muitas clínicas de exames médicos especializados, o que é uma enorme e amarga ironia num país onde se passa a vida a querer fechar os hospitais e todos os centros hospitalares de retaguarda para gastar menos de impostos de quem pode mais.   

Numa destas clínicas quando passo naquela manhã está um bombeiro a entrar com uma senhora bem pesada numa cadeira de quatro rodas. Para uma clínica destas está a entrar uma mulher bem robusta, pesada, numa cadeira de quatro rodas, trazida e empurrada por um só bombeiro que deixou a ambulância no passeio em frente.

Olho e que vejo?

Entre o passeio estreito e a entrada na clínica há um desnível de 7 a 10 centímetros. O bombeiro quer entrar na clínica de costas a puxar a cadeira de 4 rodas, sem ter ganho nenhum balanço- As duas rodas de trás, encostadas ao degrau com o declive assinalado naturalmente recusam-se a saltar o degrau em causa, por mais força que o bombeiro fizesse. Com a força que este bombeiro fazia, ele corria o risco de cair para trás e de costas já para dentro da clínica  a com a doente que ficaria assim bem mais doente.

Espanto-me e grito: olhe e veja que deve entrar  ao contrário? Volte-se e incline-se levemente para trás com as rodas da frente levemente levantadas. Entra imediatamente, vai ver!

Bombeiro no extremo das suas resistências, pensei. Rescaldo de uma violência de dias a fio neste Algarve de cinzas e  de fogos que o país consumia, de noites em que não dormia, foi o que imaginei. Homens de trabalho dia e  noite e sem a esta terem direito, homens  da vigilância sem medo e sem meios, homens a quem não  se lhes pode exigir o que não os ensinar cientificamente a fazer: apagar fogos com os meios com que o possam fazer.

Meio minuto depois, o bombeiro estava dentro da clínica com a doente pesada que antes parecia pesar toneladas e que por aquela via se tinha transformado leve como uma pena. A doente se pudesse talvez me  tivesse dado um olhar silencioso de agradecimento pela atenção havida numa época em que tudo isto merece o não merecido esquecimento

Os exames médicos essa doente tê-los-á  feito. Trata-se de exames que nós pagamos e a um custo bem superior ao que se poderia pagar se os Hospitais estivessem equipados como deve ser, mas afinal os Hospitais passam agora a estar concebidos para se adaptarem às necessidades dos mercados e os seus operadores, como os donos destas clínicas, não podem ficar decepcionados nos seus investimentos privados. São os investimentos públicos que a estes se devem condicionar. É simples, afinal.

O Algarve tem estado a arder. Sem formação, com bombeiros destes queremos que os fogos se apaguem com a mesma facilidade com que a minha neta desenha castelos no ar, nos seus sonhos de criança. E procuram-se responsáveis outros que não os verdadeiros. Esses, os verdadeiros, estão no Governo a cortar cegamente nos orçamentos públicos porque os fogos não se inscrevem na contabilidade pública e nos seus défices, na dívida externa privada e pública, na dívida pública presente, inscrevem-se isso sim no património de um povo, de um pais, do seu futuro, e não na ganância dos mercados que imediatamente estes políticos querem ansiosamente satisfazer.

Com esta formação geral de que o nosso bombeiro deu mostra, não há pasto, não há floresta, não há mato, que resista a tanta ignorância. E os campos arderam. Procuram-se agora os responsáveis por tanta incapacidade supostamente mostrada na luta contra o fogo.

 E os responsáveis pela incapacidade em atacar o fogo não são eles certamente eles, estes bombeiros, são os que esta ignorância produzem, ampliam, e estes responsáveis estão nos ministérios, tem nome e uma responsabilidade, com os diabos, que é a do nosso voto. Não procurem mais, procurem nas urnas de voto.

Júlio Marques Mota

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