CONSEQUÊNCIAS FINANCEIRAS DA NÃO INTERVENÇÃO ATEMPADA EM SAÚDE MENTAL por clara castilho

 

Que acontece quando não se está atento aos primeiros sinais de perturbações de saúde mental e não se intervém atempadamente? Em Portugal e tendo em conta os dados de 2012 para este indicador, trata-se de uma perda anual de 1,6 mil milhões de euros. Para além das questões financeiras, fica todo o sofrimento dos próprios, dos familiares ascendentes e dos filhos que possam vir a ter.

E sabe-se que as manifestações de perturbações de doença mental podem ser detectadas desde a infância, tais como deficits de atenção, depressão, ansiedade e abuso de substâncias, sendo factores que vão ter influência no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças e adolescentes. Um inquérito da Organização Mundial de Saúde abrangeu mais de 37 mil pessoas de 22 países diferentes, excluindo estudantes e desempregados. Nas entrevistas, que em Portugal decorreram em 2009 e 2010, foi pedida informação sobre sintomas e distúrbios detectados na altura em que os inquiridos tinham completado os estudos, assim como os rendimentos pessoais e familiares nos 12 meses anteriores ao inquérito.

Os países foram divididos em níveis de rendimento (Portugal insere-se nos de alto rendimento) e tentou perceber a associação entre as perturbações que começam na infância e o rendimento disponível bruto das famílias, sendo a participação de Portugal foi coordenada por José Caldas de Almeida.

Os primeiros dados publicados, em 2010, revelaram que Portugal tem das maiores prevalências de doença mental, com um em cada cinco portugueses a dar conta de um distúrbio psiquiátrico, detectado nos 12 meses anteriores ao inquérito.

Para os coordenadores do estudo a implicação política óbvia é que os governos têm de investir mais no diagnóstico e tratamento atempado dos distúrbios que começam na infância ou adolescência, que, mesmo que tipicamente pareçam ligeiros, quando surgem, têm efeitos muito adversos no futuro.

E quais são as doenças que mais forte relação têm com os rendimentos futuros? São as fobias e a depressão. Mas é nas pessoas que chegam à idade adulta com mais de quatro distúrbios que começaram a manifestar-se na juventude, seja hiperactividade, depressão ou dependências, que se registam os maiores impactos: têm rendimentos familiares 16% a 33% inferiores à mediana do país, sendo o efeito mais forte entre as mulheres.

Contacto diariamente crianças que se podem enquadrar neste espectro, as quais têm a sorte de ter algum apoio. E sei que, no futuro, muitas serão das que irão ter menores rendimentos – se forem só estes os seus problemas… O F. apareceu no outro dia a visitar-nos. Vinha mostrar-nos a sua bebé de 6 meses e apresentar-nos a sua companheira. Quando o conhecemos ia nos 8 anos, tinha dificuldades de linguagem, o seu nível gráfico era de 3 anos. Conseguiu tirar o 7º ano com 16 anos. E foi trabalhar na construção civil com um tio. E lá se tem aguentado, apesar da falta de trabalho. Deixou-me um cartão de apresentação com o nome da empresa. E quis levar fotografias dele enquanto frequentou a instituição. Na altura estas não eram digitais e ainda gastei umas horitas a localizá-las. Foi feliz com a visualização das suas lembranças. Para mostrar aos outros como tinha conseguido vencer as suas dificuldades. Foi um dia em que cheguei à noite compensada.

(ver “Early-Life Mental Disorders and Adult Household Income in the World Mental Health Surveys”  de autores vários, publicado em Biological Psychiatry, Volume 72, Issue 3 (August 1, 2012), da editora Elsevier).

 

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