POESIA AO AMANHECER (17) – por Manuel Simões

Herberto Helder – Portugal

( 1930 –   )

“SEI ÀS VEZES …”

 

Sei às vezes que o corpo é uma severa

massa oca, com dois orifícios

nos extremos:

a boca, e aos pés a dança com a coroa de labaredas

– a cratera de uma estrela.

E que me atravessa um protoplasma

primitivo,

uma electricidade do universo,

uma força.

E por esse canal calcinado sai

um ruído rítmico, uma fremente

desarrumação do ar, o verbo sibilante,

vento:

o som onde começa tudo – o som.

Completamente vivo.

(de “Poesia Toda”)

Talvez a mais exuberante personalidade poética que se manifestou na segunda metade do século XX. A sua poesia, com fortes conotações surrealistas, conheceu sempre a marca do experimentalismo, tendo sido um dos grandes animadores de “Poesia Experimental 1 e 2”. Os seus primeiros textos (“O amor em visita”, 1958; “A colher na boca”, 1961) trouxeram para a poesia portuguesa um sinal indelével de novidade. Citem-se ainda, entre outros possíveis: “Ofício cantante” (1967), “Vocação Animal” (1971), “Cobra” (1977), “Flash” (1980, “Poesia Toda” (1990).

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