O URUGUAI E PORTUGAL – 1 – por Carlos Loures

Em Portugal, o Uruguai é referido sobretudo pelos excelentes futebolistas que jogam na I Liga – dois deles, ostentam apelidos de origem portuguesa – Pereira. Fenómeno curioso: enquanto os brasileiros se tentam desfazer dos apelidos portugueses, preferindo nomes de outras origens, no Uruguai uma grande parte dos nomes de família é de origem portuguesa. Eduardo Lourenço, em A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia (Lisboa: Gradiva,1999), explica a necessidade de «matar o pai» que o Brasil tem para se afirmar e sobreviver culturalmente:  Para o discurso cultural brasileiro, Portugal existe pouco ou nada, mas, se existe, é apreendido como pai colonizador que o Brasil teve de matar para poder existir. Sem essa necessidade freudiana, ou melhor, subsidiária de Jacques. Lacan, no Uruguai uma grande parte dos apelidos é de origem portuguesa. Incluindo o de gente com protagonismo social – Medeiros, Silveira, Sobral, Albuquerque, Pereira, Álvares, Barreto, Freitas, Saraiva, Figueiredo, Pereira… Porquê?

 Em 25 de Agosto de 1825, pela chamada “Declaratoria de la independencia” o Uruguai separava-se formalmente do Brasil. O Brasil que em 1822 se tornara independente, mantivera a “Província Oriental” e prosseguira a guerra que Portugal iniciara contra os independentistas uruguaios. Mas, o que tinha Portugal a ver com um país de língua castelhana e situado no antigo território da coroa espanhola? Tudo começou com a Colónia do Sacramento.

A Colónia do Sacramento

A Colónia do Sacramento, foi uma povoação fundada pelos portugueses em 1680 na margem esquerda do rio da Prata, em território onde actualmente se situa a cidade de Montevideu, capital do Uruguai. No vídeo com que iniciamos o artigo fala-se nas belezas do pequeno território, no seu valor histórico e, sobretudo, no papel que desempenha como principal destino turístico do País. Vamos desenvolver um pouco a história da colónia.

 Quando D. Manuel Lobo assumiu o cargo de governador do Rio de Janeiro, em 1679, recebera em Lisboa ordens directas de D. Pedro II para fundar no rio da Prata uma colónia fortificada que servisse de apoio logístico ao comércio com as províncias colonizadas pelos castelhanos. O rei correspondia a pedidos do município do Rio de Janeiro e dos comerciantes locais, interessados em expandir os seus negócios. D. Manuel Lobo organizou uma expedição em que levou, além de agricultores com suas mulheres e filhos, artífices de várias especialidades e, naturalmente, clérigos e soldados. Em 22 de Janeiro de 1680 a colónia foi solenemente fundada, num promontório próximo da actual cidade de Montevideu. Nome muito português: Colónia do Santíssimo Sacramento.

O governador castelhano de Buenos Aires, na outra margem do rio, ordenou uma ofensiva contra a nova possessão portuguesa. Quatro mil homens, entre os quais muitos índios guaranis, atacaram a fortaleza. Os portugueses resistiram a três ataques sucessivos, desenvolvidos aos longo de mais de sete meses. Finalmente, em 7 de Agosto, a fortaleza foi tomada, aprisionado D. Manuel Lobo que veio a morrer no cativeiro em Buenos Aires. A coroa espanhola assumiu o controlo do entreposto até que o Tratado de Lisboa, firmado em 1681, devolveu a colónia a Portugal. Duarte Chaves, novo governador do Rio, foi a Sacramento reaver a colónia. O território atravessou então uma fase de prosperidade, vivendo da salga de peixe, criação de gado, comércio de carne e couros, plantação de trigo. Foram distribuídas terras aos colonos agricultores. A guerra da Sucessão (1701-1714), motivada pela extinção, em 1700, da Casa de Habsburgo e pela subida ao trono de Filipe V, de Bourbon, neto de Luís XIV de França. Uma aliança liderada pela Inglaterra, em que Portugal se integrou, envolveu-se no conflito. Durante essa guerra, o II Marquês das Minas, comandou um exército que ocupou Madrid durante mais de mês e meio, fazendo aclamar como rei o arquiduque Carlos III. Estes acontecimentos europeus reflectiam-se, como é óbvio, nas colónias. Reacendeu-se o conflito em Sacramento, e as forças espanholas voltaram a tomar o entreposto português em 1705. Em 1715, o Tratado de Utreque devolveu o território à coroa portuguesa. Zonas periféricas da colónia foram povoadas e exploradas. Em 1718 chegaram algumas centenas de colonos transmontanos que começaram a cultivar terras fora dos limites fixados pelo tratado. Os castelhanos fundaram então eles uma colónia da qual iria nascer Montevideu, a actual capital uruguaia. Entretanto, a expansão dos colonos portugueses não cessava. Foi essa expansão que motivou novos ataques das forças sediadas em Buenos Aires que arrasaram a fortaleza e obstruíram o porto, isto apesar de o Tratado de Paris, assinado em 1763, reconhecer a soberania portuguesa sobre a colónia. Durante mais alguns anos, os colonos portugueses de Sacramento viveram em paz e com a prosperidade que a riqueza do território permitia. No entanto, o Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777, consagrou nova e definitivamente a soberania espanhola.

Mas os portugueses voltariam ao Uruguai. A Colónia do Sacramento tornou à posse de Portugal a partir de 1817, quando D. João VI decidiu incorporar toda a região do actual Uruguai no domínio de Portugal no Brasil.

 Amanhã – A Província Cisplatina

Leave a Reply