António Osório – Portugal
(1933 – )
FALA O ARRUMADOR DE AUTOMÓVEIS
Assustado com a miséria e estes anos,
pouco espero de Deus e dos homens.
Não mendigo, olho de soslaio, adivinho,
sem gratidão guardo no bolso os óbolos.
E fui pescador, depois faroleiro: longe
deitava a alma, relâmpago
sobre falésias, em estrelas tocava,
a sirene era o meu grito de amor.
Transluzente e distante e bom
como clarões de um farol nunca foi fácil:
algo se afundava debaixo de mim,
desconhecida culpa. Odeio, sim, odeio
este parque onde chuva e sol impõem as mãos
e na pele penetram sem bálsamo.
Primeiro a luxúria, depois vinho,
escuridão. No fundo de um poço
cujas paredes ressumam lágrimas e avencas.
Custa ganhar a vida e perdê-la.
Tudo foi defraudado, sou eu
– eu ou alguém por mim – quem aperta
desde a infância o nó que me estrangula.
(de “A ignorância da morte”)
Autor de uma vasta obra poética que recupera a grande tradição, é geralmente definido como o mais italiano dos poetas portugueses, por nascimento (mãe italiana) e por formação cultural. Dos seus muitos livros destacam-se: “A raiz afectuosa” (1972), “A ignorância da morte” (1978), “O lugar do Amor” (1981), “Décima Aurora” (1982) e
“A libertação da peste” (2002). Reuniu a sua poesia no volume “A luz fraterna” (2009).

