POESIA AO AMANHECER (18) – por Manuel Simões

António Osório – Portugal

(1933 –  )

FALA O ARRUMADOR DE AUTOMÓVEIS

Assustado com a miséria e estes anos,

pouco espero de Deus e dos homens.

Não mendigo, olho de soslaio, adivinho,

sem gratidão guardo no bolso os óbolos.

E fui pescador, depois faroleiro: longe

deitava a alma, relâmpago

sobre falésias, em estrelas tocava,

a sirene era o meu grito de amor.

Transluzente e distante e bom

como clarões de um farol nunca foi fácil:

algo se afundava debaixo de mim,

desconhecida culpa. Odeio, sim, odeio

este parque onde chuva e sol impõem as mãos

e na pele penetram sem bálsamo.

Primeiro a luxúria, depois vinho,

escuridão. No fundo de um poço

cujas paredes ressumam lágrimas e avencas.

Custa ganhar a vida e perdê-la.

Tudo foi defraudado, sou eu

– eu ou alguém por mim – quem aperta

desde a infância o nó que me estrangula.

(de “A ignorância da morte”)

Autor de uma vasta obra poética que recupera a grande tradição, é geralmente definido como o mais italiano dos poetas portugueses, por nascimento (mãe italiana) e por formação cultural.  Dos seus muitos livros destacam-se: “A raiz afectuosa” (1972), “A ignorância da morte” (1978), “O lugar do Amor” (1981), “Décima Aurora” (1982)  e

“A libertação da peste” (2002). Reuniu a sua poesia no volume “A luz fraterna” (2009).

 

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