EM COMBATE – 165 – por José Brandão

Região de Vila Cabral. Em baixo – avião T6.

Entretanto, às sete da manhã descolaram do aeródromo de Vila Cabral dois aviões, um DO-27 e um T-6, este último armado com bombas e rockets, para executarem o bombardeamento do objectivo. Os Comandos, posicionados a cerca de mil metros da base, em dispositivo de assalto em meia-lua, avançaram após o lançamento das primeiras bombas, atacando os guerrilheiros que procuravam escapar ao bombardeamento. Deu-se depois início à busca no interior da base, tendo sido encontrado muito material. Como resultado desta operação, foram mortos vinte e dois guerrilheiros e capturadas três metralhadoras antiaéreas, dois RPG-2 e trinta espingardas de vários tipos, o que revela o grande desenvolvimento que a organização militar da Frelimo já havia alcançado no Niassa. Na continuação da Operação Marte, após o assalto à Base Gungunhana, a força de comandos regressou a pé do Lunho para Nova Coimbra, em 10 de Abril. Neste quartel encontrava-se a coluna de viaturas que devia trazer a companhia de regresso a Vila Cabral. Dado o cansaço do pessoal e as más condições de alojamento, o capitão Valente decidiu fazer uma paragem em Metangula, para pernoitar, e tomou o seu lugar na primeira Berliet. «Saímos de Metangula às oito e meia do dia 11 de Abril. Eu seguia na segunda viatura quando, a cerca de oitocentos metros da bifurcação Nova Coimbra/Metangula, ouvi um rebentamento característico de mina, ocorrido no veículo da frente. Acorremos imediatamente à viatura sinistrada, a justo tempo de retirar vivo o alferes António Calvinho. Foi-nos, porém, impossível socorrer o capitão Horácio Valente, que já não apresentava sinais de vida e ardia no fogo que consumia a viatura…» (do relatório do comandante da escolta).

Alvará da TORRE E ESPADA ao CAPITÃO “CMD” MARTINS VALENTE

Considerando que o capitão de Artilharia Horácio Francisco Martins Valente, após oito anos de campanha contra a subversão no Ultramar, pela coragem constante em presença do inimigo, pelas suas virtudes militares, espírito de sacrifício, decisão, alheamento consciente do perigo, prestígio pessoal sobre as tropas comandadas ou entre os seus camaradas e superiores, impôs-se como um valor moral da Nação; Considerando que me acções militares heróicas em Angola e feitos valorosos em combate em Moçambique – que lhe deram jus á Cruz de Guerra de 2.ª Classe e á Medalha de Prata de Valor Militar – revelou personalidade, em cujo carácter estão bem vincados o valor, a lealdade e o mérito; Américo Deus Rodrigues Thomáz, Presidente da República e Grão-Mestre das Ordens Honorificas Portuguesas, faz saber que, nos termos do Decreto – Lei n.º 44 721 de 24 de Novembro de 1962, confere ao capitão Miliciano de Artilharia, Horácio Francisco Martins Valente, sob proposta do Presidente do Conselho, o Grau de Oficial da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, a título póstumo.

Presidência da República, 6 de Junho de 1969

Comandos Os Comandos nasceram no Exército Português como forças especiais de contra-guerrilha. A sua criação correspondeu à necessidade de o Exército dispor de unidades especialmente adaptadas ao tipo de guerra que, em 1961, começou em Angola e que, depois, se estendeu à Guiné e a Moçambique, nomeadamente com capacidade para: – realizar acções especiais em território português ou no estrangeiro

– combater como tropas de infantaria e assalto – dotar os altos comandos políticos e militares de uma força capaz de realizar operações irregulares. O primeiro objectivo que se pretendeu atingir foi o de constituir uma tropa especialmente preparada para as operações de contra-guerrilha, mas os comandos portugueses participaram também em operações irregulares, com unidades especialmente organizadas para cada uma delas, e em operações de assalto, de características de guerra convencional, como aconteceu por vezes nos últimos anos da guerra, chegando a actuar com efectivos superiores a um batalhão, apoiados por artilharia e aviação. A história dos Comandos portugueses começou em 1962, quando, em Zemba, no Norte de Angola, foram constituídos os primeiros seis grupos daqueles que seriam os antecessores dos comandos. Para a preparação destes grupos foi criado o CI 21 – Centro de Instrução Especial de Contra-guerrilha, que funcionou junto do Batalhão de Caçadores 280, comandado pelo tenente-coronel Nave, e que teve como instrutor o fotógrafo italiano Dante Vachi, com experiência das guerras da Argélia e da Indochina. Os seis grupos preparados neste centro obtiveram excelentes resultados operacionais. Contudo, o comando militar em Angola decidiu reequacionar a instrução e a integração destas unidades na orgânica do Exército e, em 1963 e 1964, foram criados os Centros de Instrução 16 e 25 (CI 16 e CI 25), na Quibala (Angola). Surgiu então, pela primeira vez, a designação de comandos para as tropas aqui instruídas. Em Fevereiro de 1964, iniciou-se na Namaacha (Lourenço Marques) o I Curso de Comandos de Moçambique e em Julho do mesmo ano, em Brá (Bissau), o I Curso de Comandos da Guiné. Em Portugal, os Comandos nasceram na guerra e para fazer a guerra. A instrução tinha o objectivo de prepará-los e obedecia a duas características – a prática e o realismo –, assentando em duas vertentes: – a técnica de combate e a preparação psicológica. Tudo isto tendo por base a selecção física e psíquica com padrões elevados, embora tivessem decrescido com o desenrolar da guerra. A preparação psicológica para a guerra foi talvez o aspecto que mais distinguiu os Comandos. O seu objectivo era transformar o homem em militar auto-disciplinado, competente e eficaz em combate, apto a lutar em quaisquer situações e condições. A componente psicológica era, porventura, a mais marcante da instrução, no pressuposto de que a sua principal arma era a própria vontade. Para apurar o domínio da vontade sobre todos os instintos, a dureza física da instrução dos comandos atingia os limites da capacidade de resistência dos candidatos, pretendendo fazer de cada um o dono da sua vontade. «Face ao risco, em contacto com mais dantescos espectáculos, em luta constante com o instinto na procura da sobrevivência, no angustioso desalento da fadiga, só uma vontade assente em poderosa envergadura moral pode resistir, vencendo. E só aqui se encontra efectivamente o homem que, senhor absoluto de uma vontade, pode, em imperativos de consciência, vergar e dominar a força de um instinto» (Panfleto de Acção Psicológica do Centro de Instrução de Comandos de Angola).

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