ONDE PÁRA A AUTORIDADE ? por clara castilho

 

Ontem, na fila da caixa do supermercado, um menino aí de uns 6 anos chorava dentro do carrinho atrás de mim. Os pais não lhe ligavam, conversavam com o outro filho. A criança já não tinha muita vontade, era aquele choro sincopado, com o mesmo ritmo e ia perdendo a convicção. Admirei a força de vontade dos jovens pais, pois já assistira a várias cenas semelhantes  em que estes cedem e comprar à criança aquilo que ela pede (ou exige).

Este é um tema que tem sido apontado por muitos dos pais com quem tenho trabalhado em grupo, como sendo uma das suas grandes dificuldades. E estes deliciam-se sempre que são postos a fazer um role-playing em que têm que desempenhar algum papel relacionado com uma situação parecida.

O filósofo Fernando Savater defende que para as crianças, encontrar em casa  figuras de autoridade que é um elemento fundamental para o seu crescimento. Considera que hoje  os pais têm dificuldade em querer assumir qualquer autoridade. Dado o pouco tempo que passam com os filhos, preferem que este seja passado num ambiente alegre e sem conflitos. Porém, considera que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes.

Para o  pediatra líbio-francês Aldo Naouri ( ‘Educar os Filhos’, Aldo Naouri, Livros d’Hoje):

É importante que a criança seja para os pais uma fonte de prazer e felicidade, e não um foco de sofrimento e angústia.  Realça que há uma diferença entre educar e criar. Criar será dar os cuidados básicos, dar banho, alimentar, etc. Educar será formar qualquer coisa que ainda não existe. Por isso a criança não estará nunca ao mesmo nível dos pais, não podendo haver uma relação horizontal, sendo importante que haja uma relação vertical: os pais em cima, as crianças em baixo.   E autoridade significa serenidade, não violência. Autoridade é fazer-se obedecer, não é dar uma palmada. Ter autoridade é dizer: ‘Quero isto’, e esperar ser obedecido.

 Não vale a pena ser violento, aliás porque a criança sente a autoridade. É quando o pai ou a mãe não está seguro do seu poder que a criança tenta ir mais longe. Quando há uma decisão que é assumida pelos pais, ela cumpre-a.

Outro dos assuntos que aborda é o facto de os pais terem esquecido o seu papel de educadores porque querem ser amados pelas crianças, sentindo-se muitas vezes culpabilizados por trabalharem muito e passarem pouco tempo com as crianças. Ao  relembrarem os conflitos que tiveram com seus próprios pais,  não querem que os seus filhos tenham esse tipo de ressentimento em relação a eles. E pensam que a melhor maneira de o fazer é seduzir os filhos para que eles os amem. O que, segundo este pediatra, será um enorme erro. Porque nesse momento, a relação vertical se inverte e a  hierarquia fica de pernas para o ar. E a criança fica baralhada, e ocorrem desequilíbrios com consequências variadas.

 

 

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