(continuação)
E, por ladrões, lembro-me de uma cena passada comigo aqui em Faro no ano passado. Fui ao Fórum. Precisava de um produto vendido por uma cadeia multinacional em produtos de limpeza de pele. Fui bem recebido e aconselharam-me então um produto para o problema por mim levantado. Entretanto precisava de ir ao Aki. Nada conhecia ainda de Faro. Perguntei ao empregado que me atendeu. Sabe-me dizer onde fica o Aki? Pode não acreditar, mas não sei, foi o que ouvi como resposta. É o primeiro dia de trabalho aqui, continuou.
A minha atenção de cidadão e de professor universitário na altura ainda no activo deu-me um sinal de alarme. Estava aqui o tema que procurava. Emprego, era um bom tema, ou não era eu ainda um professor de Economia?
O seu primeiro emprego! Por onde andou, então?
Estive em Lisboa.
Onde?
No Colombo, onde era director de uma loja da Bodyshop.
E veio para aqui porquê, se posso saber.
Sou daqui.
Meu caro é daqui desde que nasceu, é daqui desde que começou a trabalhar, não? A minha questão é então porque é que saiu do Colombo?
Por uma questão de segurança.
Segurança, falta de segurança, em Lisboa?
Falta de segurança interna e externa, diga-se já agora.
Pasmo com a resposta. A degradação do ambiente em Lisboa, natural diria eu, mas falar-se de segurança interna, numa empresa multinacional, ainda por cima! Viro-me e questiono naturalmente, o que queria dizer com a expressão segurança interna.
E a resposta implacável na sua expressão mínima das palavras utilizadas cortou o silêncio gelado que naquela loja se tinha instalado.
Simples, tive ladrões na loja, ladrões empregados. Veja-me isto. Só numa semana despedi quatro. Penso que aqui não será assim. Esclarecido, digo eu, mas para finalizar, como director de estabelecimento quanto ganha? Cerca de 1000 ou de 1200 euros foi o que se terá ouvido.
E saí, com vontade de respirar ar fresco. Sabia que da nossa juventude , da melhor dela, estávamos a criar ignorantes com diplomas que atestam isso mesmo. Em tempos escrevi uma carta ao Ministro de tutela Mariano Gago desafiando-o para uma análise séria ao saber apropriado pela nossa juventude mais recentemente licenciada e mais ainda, desafiei o Ministro e autoridades académicas a fazerem um levantamento exaustivo da situação universitária em Portugal e com a mesma seriedade que foi feito ainda nos tempos do fascismo. Nos tempos do fascismo, digo bem.
Na escala de baixo, na escala daquelas que deixam a carreira pelo meio, pelo que me diz o director da loja estamos genericamente a fazer ladrões, a outra face da mesma realidade, a de estarmos a criar uma juventude que está a não dispor de valores ou de conhecimentos ou das duas coisas em simultâneo. E aqui lembro-me de Maria, a da Rússia, lembro-me da sua revolta pela nossa muito má qualidade do ensino, lembro-me, a fazer fé no jornal Público de que muitos estudantes do Técnico não são sabem sequer simples operações aritméticas! Que país se pode fazer assim? Nenhum, diremos claramente. O que todos historicamente sabemos é que a ignorância é o pasto de onde se alimenta a violência e a manipulação, com o que se alimentam as hordas políticas que a direita muito bem sabe manipular e utilizar.
O exemplo dado pelo responsável pela loja Bodyshop de então mostra-nos algo de muito grave. Sabemos que cerca de 1/3 da população estudantil abandona os seus estudos e mesmo que se tenha reduzido esta percentagem tal terá acontecido mais por conta do facilitismo instalado no ensino em Portugal nestes últimos anos do que pela evolução da sociedade portuguesa, sabemos que grande parte dessa população é cultural e eticamente muito frágil. Tudo isto leva-nos a poder afirmar que estamos a criar agora uma geração emocionalmente muito instável, assentando os seus comportamentos numa base ética que poderemos mesmo considerar como muito estreita. A complicar este quadro, não temos dúvidas de que uma parte dos considerados alunos de sucesso escolar patenteiam um terrível insucesso educacional e portanto de difícil inserção profissional num mundo em que a entrada no mercado de trabalho para além de ser cada vez mais aleatória é cada vez mais violenta. Estes últimos são criados e educados num sistema em que lhes retiraram os obstáculos para não haver insucesso escolar e para assim se baixarem as despesas com educação e por isso a maturidade emocional e lógica nunca foi desenvolvida. A estabilidade emocional também não será assim muita como muita não é a sua preparação profissional para a vida imediatamente a seguir. O quadro geral para acontecimentos como o relatado na loja da Bodyshop está pois criado e a política actual garantidamente tem-no aumentado e bem.
Curiosamente em Setembro de 2011 escrevia eu sobre a crise na Inglaterra:
“A marca dos novos saqueadores, os novos looters pobres de Londres, é pois já visível no extremo outro dos looters, é visível na posição dos saqueadores mais ricos que agora se estão a manifestar como não sendo aquilo de que os acusam, de salteadores ricos, pois até querem pagar os impostos “devidos”, desde que não se discuta a razão de ser dessas mesmas fortunas, desde que não se mexam nos mecanismos que permitem que estas sejam rapidamente recuperadas. É assim com Sarkozy, com Berlusconi, com Cameron e outros, enquanto outros ainda andam às voltas para colocar na Constituição o inadmissível: um travão aos défices públicos em tempo de crise. Na nossa opinião, e a justaposição de datas confere verosimilhança a esta hipótese, foi porque o medo de fortes convulsões sociais se instala e sabe-se que os prejuízos podem mesmo ser incalculáveis, foi porque se sabe agora que à mínima faísca o sistema pode entrar perigosamente numa situação de turbulências e de saídas imprevisíveis, que alguns ricos começam agora a pedir para serem tributados e disso fazerem politicamente grande campanha. O efeito nefasto sobre Londres provocado pelos salteadores pobres tem pelo menos um aspecto positivo em geral, que é o de demonstrar à opinião pública, ainda incrédula, o que têm sido os governos que por ela têm sido eleitos e de, no caso americano, poder publicamente reforçar a posição de Obama, o único adversário credível contra os rufias do Tea Party.
E em Portugal? Em Portugal, a situação, pode tornar-se igualmente explosiva, dada a forte crise em que vivemos, dada também a ausência de apoios institucionais adequados a nível da Europa e dadas as políticas ainda de mais austeridade que se avizinham a virem a ser aplicadas pelo governo a que o senhor ministro pertence. Quando a métrica da barriga se sobrepuser à métrica da ética, muita gente até agora calada pode deixar de ser mansa ou cobarde, para usar os termos de Domingos Rodrigues e o sistema pode vir a ficar politicamente fora de controlo. Uma situação que nem quero imaginar, mas dela francamente tenho medo.”
Lamentavelmente a situação está cada vez mais complicada e o quadro negro sobre a juventude adensa-se cada vez mais e tanto mais quanto a sociedade como um todo está em perfeita falência e as estruturas sociais todas elas começam a estar genericamente em ruptura. As políticas de austeridade conduzem cada vez mais a que haja menos Estado, cada vez mais a que haja menos estabilidade familiar, a desregulamentação no mercado de trabalho actua no mesmo sentido levantando a que as crianças sejam criadas sem a companhia de um dos pais quando não dos dois, levam a que cada vez mais se perca a relação familiar com os avós, enfim, leva a que as crianças cresçam sozinhos. Como se faz de cada criança um adulto são questões que deixaram de interessar, quando são questões cada vez mais prementes A tudo isto se acresce a tentativa do Estado reduzir também o papel da Escola na formação de cada estudante quando estas funções são, por seu lado, cada vez mais complexas..
A política de ensino de Maria de Lurdes Rodrigues é, desse ponto de vista, um desastre nacional e a do seu homónimo actual é, no mesmo quadro de análise um verdadeiro crime historicamente bem demonstrável. Basta considerar que um dos melhores, mais baratos e mais eficazes meios de lutar contra o insucesso escolar e educacional é a redução do número de alunos por turmas. O Governo actual fez exactamente o contrário, aumentou o número de alunos por turma. Não tarda a que as escolas se transformem num verdadeiro caos.
Por tudo isto sinto que nos estamos a transformar num país de diversos tipos de ladrões. Os resultados começam agora a estar bem à vista. Ladrões reais, ladrões potenciais, é o que agora abunda me neste país e nesta cidade também. Um país à beira de um ataque de nervos, um país à beira da primeira bomba a estoirar.
No caminho com o meu amigo recebo uma mensagem telefónica. Compra o DN. Virei-me para o meu amigo marceneiro e mostra-lha, enviada por CGP. Será a bomba de que falas, perguntei.
Ainda é cedo. A violência tem que ir mais fundo, diz-me.
Compro o jornal Diário de Notícias. Passo o jornal página a página. Vejo um muito bom artigo sobre a alta finança que se recomenda como obrigatório a toda a gente, um artigo de título “Um canhão pelo cú”, escrito por Juan José Milla, vejo um artigo sobre António Borges e sobre Lloyd C. Blankfein, Presidente do Goldman Sachs, vejo um artigo sobre a realização de mais um roubo brutal ao povo português, a privatização da RTP, vejo os comentários a este roubo praticamente todos eles duríssimos com esta atitude provável do Governo , com esta medida comunicada por António Borges, o homem que está a frente da organização que concebe, planeia, os assaltos ao património da estrutura produtiva de bens e serviços que é pertença do povo português, pela via das privatizações. Interesso-me então pelo artigo sobre António Borges e sobre Lloyd C. Blankfein.
Mas quem é António Borges?
Vejamos dois a três pequenos textos relativos a este ilustre personagem que tem levado aos píncaros da alta finança e interrogo-me então do porquê da sua vertiginosa subida. Creio que valerá a pena, da mesma forma que valerá a pena interrogarmo-nos porque é que Braga de Macedo foi ou ainda é professor em Science Po quando muita gente sente que não saberá dar pedagogicamente boas aulas, quando o vemos em debate na televisão onde eu, coisa nunca vista até aí, o vi a responder não à pergunta que lhe tinha sido feita pela moderadora de um debate mas à que ele tinha na cabeça, como que estando decorada. E o que foi ainda mais curioso, a moderada foi incapaz de lhe dizer fosse o que fosse talvez porque o respeito ao poder seja considerado por aqueles canais de Televisão uma coisa muito bonita. Que terá pensado o Carvalho da Silva, um dos participantes desse mesmo debate? Quanto a Braga de Macedo, uma personagem de relevo do regime actual e ilustre defensor dos paraísos fiscais, consta-se até que por Paris, por Science Po, terá corrido um baixo-assinado a pedir a sua demissão. Consta-se, mas concretamente nada mais sei. .
1.Um texto de Mediapart .
Os “DSKnólogos” poderiam ver nesta nomeação [ a de Borges] o sinal de que aquele sobre quem especulam quanto às suas intenções não se vai lançar na batalha das eleições presidenciais francesas em 2012: o Director-geral do Fundo Monetário Internacional anunciou a nomeação do economista português Antonio Borges para estar à frente do Departamento do FMI para a Europa . “É uma decisão que não contribuirá para tornar Dominique Strauss-Kahn mais popular junto da esquerda do Partido Socialista.”
“E (Jean-Luc) Mélenchon será capaz de sentir uma grande alegria no coração”, disse uma personalidade muito próxima do antigo ministro socialista das finanças ao jornal da WEB Mediapart .
Antigo vice-governador do Banco de Portugal antigo reitor da prestigiada “business school” europeia INSEAD (situada em Fontainebleau), Antonio Borges também foi de 2000 a 2008, um dos principais dirigentes da Goldman Sachs International, a filial de Londres do principal Banco de negócios de Wall Street, sendo como a reencarnação do diabo, uma vez que a crise financeira colocou sob os holofotes esta máquina infernal de ganhar dinheiro. E para ir para o FMI no final de Novembro, Antonio Borges vai deixar a Presidência do Hedge Fund Standards Board, uma instituição privada criada pela indústria da gestão “alternativa” afim de “definir e estabelecer um quadro de disciplina” para os Hedge funds.
Nas suas horas livres, Antonio Borges, ocupa-se com seus irmãos de uma grande fazenda, um “herdade”, no norte do Alentejo, em Alter do Chão, sede da Coudelaria Nacional Portuguesa, a Coudelaria de Alter, onde são criados os puro-sangue Lusitanos Alter Real.

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