10 CANÇÕES DE LUÍS DE CAMÕES – IX- por Álvaro José Ferreira

Organização de Álvaro José Ferreira

Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho

CANÇÃO IX

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994). Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)

 

Junto de um seco, fero e estéril monte,

inútil e despido, calvo, informe,

da natureza em tudo aborrecido,

onde nem ave voa, ou fera dorme,

nem rio claro corre, ou ferve fonte,

nem verde ramo faz doce ruído;

cujo nome, do vulgo introduzido,

é Félix, por antífrase, infelice;

o qual a Natureza

situou junto à parte

onde um braço de mar alto reparte

Abássia da arábica aspereza,

onde fundada já foi Berenice,

ficando à parte donde

o Sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa

Africana, que vem do Austro correndo,

limite faz, Arómata chamado

(Arómata outro tempo; que, volvendo

os céus, a ruda língua mal composta

dos próprios outro nome lhe tem dado).

Aqui, no mar que quer apressurado

entrar pela garganta deste braço,

me trouxe um tempo e teve

minha fera ventura.

Aqui, nesta remota, áspera e dura

parte do mundo, quis que a vida breve

também de si deixasse um breve espaço,

por que ficasse a vida

pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,

tristes, forçados, maus e solitários,

trabalhosos, de dor e de ira cheios,

não tendo tão-somente por contrários

a vida, o sal ardente e águas frias,

os ares grossos, férvidos e feios;

mas os meus pensamentos, que são meios

para enganar a própria Natureza,

também vi contra mi,

trazendo-me à memória

algũa já passada e breve glória,

que eu já no mundo vi, quando vivi,

por me dobrar dos males a aspereza,

por me mostrar que havia

no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu co estes pensamentos

gastando o tempo e a vida; os quais tão alto

me subiam nas asas que caía

— e vede se seria leve o salto! —

de sonhados e vãos contentamentos

em desesperação de ver um dia.

Aqui o imaginar se convertia

num súbito chorar e nuns suspiros,

que rompiam os ares.

Aqui, a alma cativa,

chagada toda, estava em carne viva,

de dores rodeada e de pesares,

desamparada e descoberta aos tiros

da soberba Fortuna:

soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,

nem esperança algũa onde a cabeça

um pouco reclinasse, por descanso.

Todo lhe é dor e causa que padeça,

mas que pereça não, por que passasse

o que quis o Destino nunca manso.

Oh! que este irado mar, gritando, amanso!

Estes ventos da voz importunados,

parece que se enfreiam!

Somente o Céu severo,

as Estrelas e o Fado sempre fero

com meu perpétuo dano se recreiam,

mostrando-se potentes e indignados

contra um corpo terreno,

bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse

saber inda por certo que algũa hora

lembrava a uns claros olhos que já vi;

e se esta triste voz, rompendo fora,

as orelhas angélicas tocasse

daquela em cujo riso já vivi;

a qual, tornada um pouco sobre si,

revolvendo na mente pressurosa

os tempos já passados

de meus doces errores,

de meus suaves males e furores,

por ela padecidos e buscados,

tornada — inda que tarde — piadosa,

um pouco lhe pesasse

e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria

descanso para a vida que me fica;

co isto afagaria o sofrimento.

Ah! Senhora, Senhora, que tão rica

estais que, cá tão longe, de alegria

me sustentais cum doce fingimento!

Em vos afigurando o pensamento,

foge todo o trabalho e toda a pena.

Só com vossas lembranças

me acho seguro e forte

contra o rosto feroz da fera Morte,

e logo se me ajuntam esperanças

com que a fronte, tornada mais serena,

torna os tormentos graves

em saudades brandas e suaves.

Aqui co eles fico, perguntando

aos ventos amorosos, que respiram

da parte donde estais, por vós, Senhora;

às aves que ali voam, se vos viram,

que fazíeis, que estáveis praticando,

onde, como, com quem, que dia e que hora.

Ali a vida cansada, que melhora,

toma novos espritos, com que vença

a Fortuna e Trabalho,

só por tornar a ver-vos,

só por ir a servir-vos e querer-vos.

Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;

mas o Desejo ardente, que detença

nunca sofreu, sem tento

me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,

Canção, como não mouro,

podes-lhe responder que porque mouro.

* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel

Pós-produzido nos Estúdios Grande Som, Lisboa

URL: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/conteudos/EEuEZkluuuTLFwLByT.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Miguel_Cintra

http://www.infopedia.pt/$luis-miguel-cintra

1 Comment

  1. CAMÕES É ALMA MAIOR DE TODAS AS LITERATURAS E POESIAS CONHECIDAS. É AMOR INFINITO, É SAUDADE E TANTO INJUSTO SOFRIMENTO. POR TANTO AMAR FOI DESTERRADO E MANDADO PARA GUERRA NO NORTE DA ÁFRICA ONDE FOI GRAVEMENTE FERIDO. DEUS O AJUDOU E O CONSERVOU PARA ESCREVER A MAIOR EPOPEIA MARÍTIMA DE TODOS OS TEMPOS. SEM DELITO ALGUM FOI CONDENADO POR DELITUOSOS DO REINO A PASSAR 17 ANOS NO INFERNO DUM CEMITÉRIO DE GÔA. DEPOIS NAUFRAGOU NA FOZ DO RIO MEKONG E CONSEGUIU LUTAR CONTRA AS ONDAS DO MAR E SALVAR TUDO QUANTO ESCREVEU DE BEM E AMOR À SUA PÁTRIA LUSA ATRAVÉS DOS SEUS VASTÍSSIMOS CONHECIMENTOS HUMANÍSTICOS—– DOS LUSÀDAS, DOS SONETOS ( DE GRANDE AMOR ÀS SUAS QUERIDAS E LINDAS MULHERES) MAS TAMBÉM À VIDA, AO UNIVERSO SEM FIM, AOS RIOS, ÀS MONTANHAS, À PÁTRIA. ÉCLOGAS, CANÇÕES EM GESTOS DE AMOR E NUNCA VIGANÇA: É ESTA MINHA AMADA PÁTRIA……..
    NENHUM POETA O ULTRAPASSOU. E FOI TRISTE PENA QUE PORTUGAL NÃO O TENHA LEVADO ACIMA DO QUE OS INGLESES FIZERAM COM SHEIKESPEAR E NUNCA PARARAM. OS GRANDES DE TODA A NOSSA POESIA E PROSA BEBERAM NA FONTE DE CAMÕES QUE EU TENHO SEMPRE PRESENTE.
    MATURINO DOS REIS COHEN – SETÚBAL. 265229965.

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