Armando Silva Carvalho – Portugal
( 1938 – )
A NÉVOA DO NADA
Deu em cinzento o dia.
A cor da paciência amorosa cobre o corpo
e o mar confundido na névoa
tem a resposta abstracta
nos sentidos.
Os sons são a metamorfose dos gemidos do mel,
esse manjar bíblico de núpcias decantadas,
e agridem na sua rigidez cinzenta
a audição passiva.
Os olhos no opaco,
o sabor no vento transtornado,
o olfacto húmido de salinosa angústia
a desflorar a pele,
o frio abraço da separação
da luz.
Uma lição sensual, arrastada pela bruma
que dos versos sempre soube ser
a mais fiel amante.
Altas as aves, recortam-se no céu,
indecifráveis, vãs.
É a vida temível que se ateia nas vozes
mais ocultas da melancolia.
O tempo adensa sem saber o nada,
o amor é o dia.
(de “De Amore”)
Revelou-se como poeta com “Lírica Consumível” (1965), Prémio de Revelação da APE. Publicou a seguir, entre outros títulos: “O comércio dos nervos” (1968), “Armas brancas” (1977), “Técnicas de engate” (1979), “Sentimento dum acidental” (1981), “Lisboas” (2000), “Sol a sol” (2005), “O amante japonês” (2008), “Anthero, areia & água” (2010), “De Amore” (2012).

