POESIA AO AMANHECER (28) – por Manuel Simões

Armando Silva Carvalho – Portugal

( 1938 –   )

A NÉVOA DO NADA

Deu em cinzento o dia.

A cor da paciência amorosa cobre o corpo

e o mar confundido na névoa

tem a resposta abstracta

nos sentidos.

Os sons são a metamorfose dos gemidos do mel,

esse manjar bíblico de núpcias decantadas,

e agridem na sua rigidez cinzenta

a audição passiva.

Os olhos no opaco,

o sabor no vento transtornado,

o olfacto húmido de salinosa angústia

a desflorar a pele,

o frio abraço da separação

da luz.

Uma lição sensual, arrastada pela bruma

que dos versos sempre soube ser

a mais fiel amante.

Altas as aves, recortam-se no céu,

indecifráveis, vãs.

É a vida temível que se ateia nas vozes

mais ocultas da melancolia.

O tempo adensa sem saber o nada,

o amor é o dia.

(de “De Amore”)

Revelou-se como poeta com “Lírica Consumível” (1965), Prémio de Revelação da APE. Publicou a seguir, entre outros títulos: “O comércio dos nervos” (1968), “Armas brancas” (1977), “Técnicas de engate” (1979), “Sentimento dum acidental” (1981), “Lisboas” (2000), “Sol a sol” (2005), “O amante japonês” (2008), “Anthero, areia & água” (2010), “De Amore” (2012).

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