É hora de deixar de andar a mascar pastilha elástica enquanto se anda de rede de capoeira como protecção contra a crise em Espanha – IV
Por Edward Hugh
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O necessário resgate europeu
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(CONTINUAÇÃO)
Os preços da habitação, a principal variável em torno do qual a economia espanhola tem estado a funcionar, estão a descer cada vez mais. É impossível dizer, a este nível, até onde irão caír porque isso, em parte, depende de quantos anos a Espanha vai levar para voltar a criar empregos e qual a percentagem de jovens que entretanto o abandonam, mas 2002 parece ser um nível crítico em termos de impacto nos registos de hipotecas.
Parte da solução para o problema, mas apenas parte dele, encontra-se na limpeza das contas dos balanços dos bancos de Espanha. Esta é a parte que Luis de Guindos, actual ministro espanhol da economia[1], está actualmente a tentar enfrentar. A outra parte é a ausência de procura de crédito solvável, mesmo onde as contas estão menos estragadas, dado os elevados níveis de desemprego e a enorme quantidade de falência das empresas e os baixos níveis de segurança de rendimento que predominam no ambiente económico actual altamente depressivo.
A principal questão que aqui se destaca é a de que os bancos da Espanha mal precisarão de desalavancagem, em termos de redução da ratio dos seus empréstimos relativamente aos seus depósitos – uma coisa difícil de fazer quando toda a insegurança que acompanha a crise está a levar o sistema como um todo a perder cada vez mais depósitos. A taxa de empréstimos concedidos relativamente aos depósitos é ainda demasiado elevada em Espanha e os bancos precisam de efectuar a sua desalavancagem de uma forma ou de outra, precisam de reduzir este ratio em termos de agregados – e a liquidação dos activos tóxicos sobre propriedades nas suas contas a favor das sociedades independente de gestão deste tipo de activos poderia ser uma maneira de iniciar esta desalavancagem; simplesmente pela redução do crédito ao sector privado é que não pode ser.
Existem actualmente cerca de 2 milhões de milhões de empréstimos emitidos pelo sector bancário espanhol e os depósitos atingem um valor de 1,2 milhão de milhões. Isso é, temos cerca de 165% de efeito de alavancagem. As operações LTRO do BCE estão em certa medida a mascarar esta situação, permitindo que os bancos se refinanciem. A única maneira de avançar é a de aumentar a poupança e daí os depósitos e reavaliar os créditos, depreciando-os. Caso contrário, os bancos da Espanha podem ter uma enorme balanço, mas serem apenas capazes de conceder muitos poucos créditos à economia , serão apenas capazes de conceder alguns, poucos, empréstimos porque de uma forma ou de outra grande parte deles estão permanentemente sobrecarregados. Isto pode, ou talvez não, ser óbvio para os responsáveis que decidem sobre a tomada de decisões, mas do ponto de vista macroeconómico a chave para atingir esta reestruturação dos balanços passa por ter uma muito maior capacidade de exportações e por ter também ter uma balança comercial largamente excedentária.
Na Irlanda a ratio entre os empréstimos concedidos e os depósitos atingiu 180% antes do resgate. Veja-se um excerto do que diz o Banco Central sobre os stress testes no BlackRock:
“O Banco Central tenha acordado com os parceiros externos que um sustentável ratio dos empréstimos relativamente aos depósitos para o sistema bancário doméstico agregado seria de 122,5%, ou seja, significar um excedente de cerca de 70 mil milhões de créditos concedidos. A desalavancagem destes empréstimos vai reduzir a dependência do financiamento global e estabelece as bases para um sector bancário sustentável. Isto irá levar a criar bancos mais pequenos, financeiramente mais equilibrados, mais limpos, mais limpos mesmo, que serão capazes de fornecer os novos empréstimos necessários ao apoio da actividade económica na Irlanda”.
Concordamos completamente com estes objectivos do Banco da Irlanda, e são estes mesmos critérios que deveriam ser também os objectivos na Espanha. Retirando os 90 mil milhões de euros em bens imóveis adquiridos e os 400 mil milhões em empréstimos concedidos aos promotores do sector imobiliário e à construção (ver tabela Barcap abaixo) das contas da banca seria um enorme passo na direcção certa, e o problema que existe deriva do facto de que a quantidade de dinheiro necessário para o seu financiamento deveria vir da Europa. A ideia de que os investidores estrangeiros poderiam aqui investir, se os activos estivessem avaliados abaixo dos 30 por cento em euros é pura e simplesmente ridícula.
O pano de fundo para o último episódio da crise é que a Espanha precisa urgentemente de encontrar os financiamentos necessários para limpar completamente o seu sector bancário e não vir ainda apenas com outros 30 mil milhões de euros de provisões, em pastilha elástica e redes de capoeiras, para o sector poder trabalhar e assim evitar o envolvimento da União Europeia. Há agora muita coisa em jogo para todos nós.
E como se tudo isto não bastasse, a parte mais pegajosa da pastilha elástica está ainda para vir, sob a forma da ideia de alavancagem do Fondo de Garantía de Depósitos de Entidades de Crédito de Espanha para financiar um sistema de garantia de activos para cada um dos bancos que tenha comprado um dos mais preocupantes activos que tenham sido adquiridos pelo FROB . O FdGdD foi criado em 2011 para, adivinhem, garantir os depósitos. Eu acho que vale a pena citar os actuais objectivos desta organização e que constam no Decreto-lei em que se estabelece: O Fundo tem como objectivo garantir os depósitos em dinheiro e em valores ou outros instrumentos financeiros constituídos nas instituições de crédito, com um limite de 100.000 euros para depósitos em dinheiro ou em caso de depósitos denominados noutra moeda, aplicando as correspondentes taxas de câmbio correspondentes, e de 100.000 euros para os investidores que tenham confiadas a uma entidade de crédito valores ou outros produtos financeiros
Bem, não iremos traduzir todo o calão, mas o que os espanhóis dizem é que o objectivo do Fundo é garantir depósitos acima de 100.000 Euros. Esta é a protecção que a maioria dos espanhóis acha que eles têm feito e que eles fazem, mas de quanto é que o Fundo dispõe para garantir os depósitos? Bem, quase nada, uma vez que o dinheiro tem sido gasto em pagar as participações de FROB no CAM e em UNIM quando estas unidades foram vendidos ao banco Sabadell e BBVA respectivamente, por 1 Euro em cada uma das situações. E porque é que foi o financiamento desta operação feita desta forma peculiar, usando um fundo cuja função era a de garantir os depósitos em caso de falência bancária? A resposta é óbvia, é simplesmente que a operação foi feita desta maneira devido a alta prioridade dada por Luis de Guindos e pelo governo que ele representa para tentar manter a ideia que nenhum dinheiro público está a ser colocado nos bancos. O FdGdD é financiado a uma taxa de 0,2% sobre os depósitos bancários, e é o fluxo de rendimentos assim a obter durante os próximos 8 anos que os “especialistas” no Ministério da economia agora estão agora a pensar, ao que se diz, em titularizar de modo a poder pagar os esquemas de garantia de activos. Os bancos vão assim andando, para pagarem a sua própria limpeza, à boa maneira do Barão von Munchausen[2]. Inteligente, não é? Então agora o leitor percebe porque tenho estado a falar de mascar pastilha elástica e porque é que neste caso ela é particularmente pegajosa. No entanto isto é mais um mealheiro que agora está a ser aberto e a única garantia para os depósitos será então o Governo espanhol e este , como sabemos, está-se a debater com enormes problemas de financiamento. Percebe-se portanto porque é que sentimos como urgente abrigarmo-nos num porto da União Europeia, e muito rapidamente.
Na verdade esses são os caminhos que Luis de Guindos, actual ministro espanhol da economia, parece disposto a percorrer, para assim enganar toda a gente e de modo duradouro, pois quando se colocou a questão de se estar ou não a gastar dinheiro público, nessa última sexta-feira, ele mesmo explodiu de uma forma que o John Dizard do FT chama o comportamento à Harold Wilson de duplo discurso e de evasivas. O primeiro-ministro britânico, lembremo-nos, disse ao público britânico já com a libra esterlina a ser desvalorizada em 14%, mesmo assim, que a libra no seu bolso não seria afectada. Bem, quando confrontamos as duas posições, somos levados a dizer que o Ministro da economia da Espanha fez agora ainda melhor que Harold Wilson. Perante um grupo atónito de jornalistas na Conferência de imprensa do governo, de sexta-feira, o ministro das Finanças de Espanha calmamente explicou como é que com as regras de aprovisionamento para o novo banco não há nenhum dinheiro público a ser gasto, uma vez que, e em primeiro lugar, os estimados 15 mil milhões de Euros que FROB iria injectar nos bancos não poderiam ser geridos a partir dos seus próprios recursos e poderiam pois assumir a forma de um empréstimo a uma taxa de juro penalizadora (e isto é suposto ser para ajudá-los), enquanto no caso do Bankia o empréstimo existente concedido por FROB foi sendo convertido em capital e não seria portanto uma injecção de dinheiro público, uma vez que – toquem-se as trombetas e os tambores – o dinheiro já tinha sido emprestado ao banco. Como é que cada um de nós consegue ligar estas duas afirmações, bem o melhor é perguntar a Guindos, o Ministro da Economia.
(continua)
[1] Nota de Tradução. Antigo director de Lehman Brothers em Espanha.
[2] Nota de Tradução. Segundo a lenda, o barão Munchausen ter-se-á agarrado pelos seus próprios cabelos para se salvar a si mesmo e ao seu cavalo de morrer afogado!



