AVÔ RIBATEJANO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Ribatejano,  o  meu  avô  paterno  gostava  muito  do  rapaz que eu era e eu retribuía-lhe a amizade com cigarros Definitivos. Também levando-o aos espetáculos de luta livre no Parque Mayer. Ele gostava muito dos combates. Eu gostava mais da alegria e da raiva que os lutadores lhe davam. Ria-se e gritava. Levantava-se do lugar, empunhava a bengala, recordava as lutas da sua mocidade. O meu avô foi mestre de varapau e por causa da sua jaqueta de alamares e calça afiambrada, teve que dar muita cacetada em fidalgotes arrogantes. Também gostava de tomar uns copos mas, diz o meu pai, por mais carregados que levasse os machinhos, nunca bateu em velhos, aleijadinhos ou dementes e nunca arrastou a asa a mulher casada. Era um galhardo defensor dos fracos e numa daquelas noites de chuva e escuridão, depois de três litros de briol, até desafiou e fez uma espera ao Diabo que, temeroso, não apareceu na azinhaga do costume. Para a valentia do meu avô havia apenas duas qualidades de homens: os bons e os maus (os justos e os injustos, os leais e os traiçoeiros). Nem os muitos anos que passou no Barreiro a carregar sacas de adubo o fizeram mudar de ideias. Por isso, ora se indignava, ora exultava no Parque Mayer onde havia um palco iluminado sobre o qual lutavam, quase nus, os soldados do bem contra os soldados do mal. Normalmente ganhavam os soldados do bem e o meu avô achava que assim devia ser, também na vida. Nunca soube que o mais bravo dos soldados do bem, fora do Parque Mayer, acabou em agressor da PIDE…

                                                                                                                                                                 In MATA-CÃES

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