EM COMBATE – 171 – por José Brandão

MUEDA 1967/1968

1.º A chegada

O ataque do grupo de guerrilheiros da Frelimo em 25/09/1964, ao posto do Chai, no Distrito de Cabo Delgado, marca a data oficial do início da luta armada em Moçambique, contra a ocupação Portuguesa.

A resposta das forças portuguesas a esta situação foi idêntica à que haviam experimentado em Angola e na Guiné.

O dispositivo militar na zona de Cabo Delgado centrou-se em MUEDA, capital tradicional dos Macondes, ponto de convergência de todas as grandes vias de comunicação que liga o planalto ao mar, vinda de M. da Praia; a norte para Tanzânia, através de Mocimboa do Rovuma; ao sul em direcção a Nancatari, Montepuez e a Pemba (Porto Amélia); e ao interior do planalto, para Nangololo, Muidumbe e Miteda.

Os elementos antes citados são para situarmos os acontecimentos, servem de referência a quem nunca lá tenha estado. Mueda situava-se bem no centro do planalto dos macondes e desde o início das hostilidades, o principal centro operacional de combate à guerrilha no território Moçambicano o mais perigoso de entre todos.

Quando chegamos a Mueda em 10 de Maio de 1967, vindos de Mocimboa da Praia, somos instalados no quartel de destino, cujo edifício principal albergava o Comando, vários serviços administrativos, de saúde, outros serviços e segurança. Possuía duas casernas, no exterior bunker de protecção pessoal, separadas pela parada, um refeitório, cozinha e depósitos dos géneros alimentícios. Nas traseiras de uma das casernas funcionavam as oficinas de mecânica auto, serralharia e padaria. As instalações para oficiais e sargentos situavam-se à entrada do quartel, à sua esquerda, num edifício em alvenaria, com nome pomposo em inglês, flat.

2.º A segurança

A segurança da Unidade estava confiada aos militares nas 24 horas do dia, guarneciam armados os 4 postos de vigia colocados nos vértices do perímetro, porta de armas e sentinelas. Circundava todo o perímetro interior do quartel várias trincheiras e pequenos bunkers. Faziam parte também do mesmo esquema de segurança em permanente alerta, unidades equipadas com morteiros e obuses que periodicamente faziam fogo para o exterior para objectivos preestabelecidos. Outras das competências confiadas ao nosso Batalhão era defender e garantir a defesa da Unidade assim como toda a zona militar envolvente; o combate à guerrilha através de operações militares, e apoiar e proteger o deslocamento de viaturas em coluna, mantendo as vias livres à circulação para possibilitar o apoio logístico às varias Unidades. Em todas elas o Batalhão e os seus homens honraram o seu compromisso.

Para além do BCaç.1916, com a CCS e a Compª. 1710, várias unidades mais pequenas estavam sediadas no nosso quartel, outras distribuídas por vários pontos de Mueda que faziam dela na maior Base Militar em Moçambique, cito algumas: Pelotão de cães de guerra, Pára-quedistas; Unidade Hospitalar; Comandos; Engenharia; Base Aérea; Esquadrão de Cavalaria; Esquadrão de Reconhecimento nº. 3; Grupo de Artª. de Campanha e Pelotão A/D.

Muito dificilmente Mueda cairia nas mãos da Frelimo, quer pela quantidade e qualidade humana dos seus militares, bem como pela capacidade militar que possuía. A Frelimo não tinha nem possuía capacidade militar para tomar de assalto esta praça-forte… razões para que nunca o tenha tentado fazer. Mas, Mueda sofreu alguns ataques por armas de fogo curvo de (morteiro), disparando de rajada para rapidamente abandonar os locais para não virem a ser referenciados. No fundo era o dá e foge. Nunca os guerrilheiros se aventuram em fazê-lo através do assalto ou de tiro directo ou por exemplo (bazuca).

3.º A burlisse

Depois da confusão inicial do primeiro dia, sou instalado na flat 2 com mais sete companheiros. Depois de uma noite de repouso num sono bem merecido, levanto-me e apresento-me no Deposito de Géneros, a fim de assumir a posse das suas instalações e dos produtos armazenados. O Furriel (?) Vague mestre, anterior responsável, inicia ao processo de inventariação dos produtos existentes por espécie, aceitando eu como certa e valida a relação dos produtos que passam à minha guarda. Passados os primeiros 30 dias, procedo a novo inventário das existências e qual é o meu espanto quando dou por um buraco enorme no arroz e azeite. Falando comigo mesmo, pensei… fui levado… que ingénuo. Seguidamente levo as mãos à cabeça, barafusto com quem me enganou. O coração palpita tanto que não cabe no interior da caixa torácica, de imediato dirijo-me aos serviços administrativos, não sabendo bem o que fazer ou com quem falar. Entro na repartição muito atrapalhado, como explicar as razões do trama? Quando dou por mim estou a relatar o sucedido ao Alferes Simões…ouve tudo com muita calma, uma sua característica, a minha explicação para o sucedido, vira-se e diz-me: – Ribeiro tenha calma pá, nós vamos resolver em conjunto rapidamente a situação. Vou ajudá-lo a resolver o problema pá. Durante os próximos dois meses vamos corrigir e por as existências em ordem, disse. Palavras santas, emocionalmente a paz voltou ao meu coração e, assim foi, passados 60 dias as existências estavam todas normalizadas. Só com ajuda desinteressada, mas empenhada do Alferes Simões, conseguisse ultrapassar o grave problema. A minha inexperiência de “chekinha” foi a causa de tal burlisse… o que não desculpa o “burlão”… esta má experiência serviu de exemplo futuro, ali mesmo fiz um pacto comigo: – jamais serei enganado e a palavra se cumpriu.

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