Gastão Cruz – Portugal
( 1941 – )
A SOMBRA INICIAL
Vem a poesia da meia claridade
do princípio da vida quando as sombras
tornam ainda obscuro
o texto e pouco a pouco uma água
começa a percorrê-lo sem o levar
Porém que diz ao mundo uma visão
de rostos inclinados transformando-se
devagar em palavras que não
sobem do fosso em que naufragam?
É preciso salvá-las
dessa água que as lava sem levá-las
e os rostos do mundo então dividem-se
e a luz sai dos
olhos ignorados sem sabermos
se é isso a poesia ou se ela era
a sombra inicial que vimos quando a
vida se afastava do nada
(de “A Moeda do Tempo”)
Participou no movimento colectivo “Poesia 61” e foi coorganizador da “Antologia da Poesia Universitária” (1964). Teve a seu cargo a crítica de poesia no suplemto literário do “Diário de Lisboa” (1966-1967) e na “Seara Nova” (1969-1970). Co-dirigiu a série “Textos de Poesia” (1971-1972). Da sua obra poética destacam-se: “A Morte Percutiva, Poesia 61” (1961), “Outro Nome” (1965), “As Aves” (1969), “Teoria da Fala” (1972), “As Leis do Caos” (1990), “Rua de Portugal” (2002), “A Moeda do Tempo” (2006).

