Algumas pessoas ficaram com a sensação, mais do que isso, quase com a certeza de que o discurso de Passos Coelho de sexta-feira estava previsto numa agenda programada, pelo menos em parte, noutras partes do mundo. Uma agenda com vários cenários previstos, mas uma agenda. Com respostas preparadas para cada um desses cenários. Na Europa Central, em Wall Street, em Hong-Kong, à beira do Golfo Pérsico… Naqueles fóruns que, volta e meia, aparecem nos grandes títulos…
Passos Coelho será um personagem menor, mas um personagem menor disposto a ir longe. A mensagem que deixou no Facebook assim o demonstra. A sua vida é a política, e não a quer deixar. Nos Olimpos que nos comandam (há quem lhes chame oligarquias …) não é difícil descortinar pessoas mais competentes do que ele, mas talvez por isso mesmo, não quiseram arriscar-se. Entretanto, o grande drama é do cidadão comum, submetido a tamanha calamidade, e ameaçado de mais.
A propaganda passista insiste no modo ordeiro em como o povo tem suportado a crise. Mas como já foi referido no Diário de Bordo, os portugueses já começaram com o primeiro grande protesto: estão a emigrar outra vez. É bom que quem sinceramente se interessa pelo futuro de Portugal não menospreze esse protesto. A emigração, que será cada vez mais de gente nova e bem preparada, vai deixar o nosso país ainda mais descalço do que já está. É verdade que essa emigração é desejada por vários sectores internos, de grupos privilegiados, que vêm na emigração uma válvula de escape para as tensões geradas pela governação “empobrecedora” , que quer as pessoas fora das suas “zonas de conforto”.
E é de prever que nos próximos meses outras formas de protesto, que já se manifestaram anteriormente, venham a ter presença mais significativa. O actual governo (o anterior também) tem-se vindo a preparar para as reprimir, como já foi claramente visível nalgumas ocasiões. Será importante saber enfrentar essa repressão, porque Portugal tem sido prejudicado por uma imagem, falsa é verdade, de aceitação das medidas descabeladas que nos têm caído em cima. As valentias de café e os sectarismos de algibeira têm de ser ultrapassados para dar peso à resposta. A luta política da esquerda tem de ser incentivada, com as forças políticas existentes ou com outras que se criem. E não esquecer que a esquerda, para se assumir como tal, tem de lutar contra o capitalismo.
Um facto, importante sem dúvida, por algumas tensões que criou, e alguns defendem que faz parte do pano de fundo do novo disparo de Passos Coelho, foi a decisão anunciada por Mario Draghi, no sentido do BCE vir a comprar dívida dos países em crise. Se contou ou não na decisão de o primeiro-ministro apresentar as novas medidas será difícil saber ao certo, mas é muito discutível que só por si venha a ter efeitos decisivos para nos tirar do lodaçal. No máximo, poderá aliviar alguns efeitos. E, a prazo, salvaguardar o próprio capitalismo. Não se pode esquecer que, dentro do próprio BCE, organismo não eleito, para muitos uma sucursal da Goldman Sachs e do Bundesbank, há quem defenda ser indispensável ir mais longe, limitar mesmo as taxas de juro, o que aliás é uma medida indispensável, dentro do actual sistema, para aliviar as contas dos países em crise.
Para os tais Olimpos é fácil formalizar acordos entre eles, hoje em dia. É a tal globalização. Em contrapartida, para as classes trabalhadoras e restantes explorados, está cada vez mais difícil. Como se tem visto em várias situações há vontade, mas também muitos obstáculos.

