Companhia de Cavalaria 2415
MOÇAMBIQUE
1968-1970
Há coisas que o tempo não apaga. Voltando atrás no nosso tempo de guerra, ainda me lembro do cachorrinho quente dentro do pão e da Ucal morna logo de manhã na cantina de Cav.7, que ficava logo ao pé das escadas que davam acesso à parada de instrução. Ainda me lembro das célebres instruções nocturnas ao pé do Moinho de Vento no alto da Ajuda, e da aplicação militar na mata do Monsanto. Aqui foi-me prometida uma despromoção pelo simples motivo de haver muita lama e eu saltar por cima de alguns exercícios, apareceu um senhor de “galões” que me disse: Se volta acontecer o que eu vi é despromovido e atenção, hoje estou bem disposto. Fará se não estivesse! Lembro-me ainda daquela estadia na Serra da Carregueira, onde demos fogo com quase todas as armas, da pequena viagem de Helicóptero, saltando das alturas para o chão. Como éramos felizes! Dos fins-de-semana de serviço sem poder ir a casa e os que podiam, esses trocavam com outros a troco de umas cervejas. Aquele passeio pedestre desde a Costa da Caparica até à Fonte da Telha, as patrulhas pela mata onde as Codornizes saltavam à nossa frente, das emboscadas nocturnas, numa delas estivemos toda a noite emboscados à espera dos “turras” (soldados de C7 preparados para o efeito) mas nunca apareceram, enganaram-se no percurso, e ainda do treino de fogo com a G3 e os rebentamentos que fizemos com “trotil” na praia da F. da Telha. Quem se lembra da tasca que ficava do lado esquerdo da porta de armas? Lembram-se da miúda que lá estava que era mais feia que uma bota da tropa? E da Leitaria que ficava logo de frente? Aqui sim, a miúda era loira e linda! Foi aqui nesta Leitaria na mesa do fundo onde nasceu, de entre três que fiz, o emblema da nossa companhia. Era aqui onde alguns trocavam a farda pela roupa civil.
Assim lembrei mais alguns episódios do nosso passado de guerra. Daqui, se alguém se lembrar mais ao pormenor de algum destes episódios pode e deve descrevê-los.
F. SANTA
“AINDA ME LEMBRO”
(Por F. Santa)
Ainda me lembro da partida. Meio-dia em ponto. O “Vera Cruz” apitava três vezes ecoando pelo Tejo fora e começava afastar-se do cais da rocha ao mesmo tempo que se fazia ouvir o Hino Nacional. Lenços brancos, chapéus da cabeça, lágrimas e gritos era o cenário dado por aqueles que viam partir os seus filhos, os seus maridos, os seus namorados, os seus irmãos e alguns mais pequeninos viam partir os seus pais sem entenderem muito bem toda aquela cena, fazendo ainda parte deste leque de emoções os amigos. Era uma partida com bilhete de ida pois o de volta era uma incerteza. No barco todos empilhados como “sardinha enlatada” lá fomos desbravando o oceano até costas de Moçambique. No “Dek”do navio ainda me lembro das sessões de ginástica para estarmos em forma, da hora do almoço e do jantar que foi talvez uma das melhores coisas da viagem, e daquela célebre “orquestra” que a gente formava tocando cada um o seu instrumento, que pertenciam ao salão de festas do barco. Seria música o que agente tocava? Cá para mim era música desconhecida de autores desconhecidos! Lembro-me dos peixes voadores brilhantes como prata saindo da proa do barco, dos tubarões no golfo da Guiné fazendo escolta ao nosso barco e ao mesmo tempo aproveitando os restos de comida que eram lançados ao mar, da bela Baía de Luanda e daquele desfile em Lourenço Marques todo ele cheio de aprumo e beleza. Chegados á Beira, lembro-me da visita que eu e mais alguns fizemos ao “Moulin Rouge” (julgo que é assim que se escreve) a um restaurante chinês onde se tinha de comer sentados no chão e com pauzinhos, quem conseguiu não sei, lembro-me ainda da chegada a Nacala e da confusão para a entrada do comboio que nos iria levar até Catur parecendo o “Transiberiano”. Daquela chegada a Lione já noite dentro todos cheios de pó com lenços a tapar a boca, o nosso primeiro “passeio” de Lione para Chala e a minha primeira aventura ” Passeio no desconhecido”, para Matipa. Quem se lembra do casamento em Lione? Da visita do M. da Educação (não sei se era) do Malawi a Chala? Aqui só me lembro da grande bebedeira que alguns apanharam neste dia. E do Norberto? Que foi mais tarde parar à nossa companhia e que em Chala levava a cafeteira do café (cheia) para o posto de vigia do lado do rio, e cantava fados de Coimbra toda a noite para afastar o medo?
Tudo isto e muito mais dava para uma longa-metragem. Quem se lembrar disto e quiser completar mais alguma coisa está à vontade, pois como eu costumo dizer: Lembrar è viver! Até á próxima.
Um abraço para todos
Santa

