É hora de deixar de andar a mascar pastilha elástica enquanto se anda de rede de capoeira como protecção contra a crise em Espanha – IX
Por Edward Hugh
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
(conclusão)
E para onde vai a Espanha?
No caso espanhol, fazer uma recapitalização da banca não baseada apenas em financiamento que o país possa gerir sem ajuda, seria muito útil. Os balanços dos bancos precisam de se libertar para estes poderem voltar às suas actividades mais normais, e ajudar aquela parte do sector empresarial que é capaz de crescer e de criar emprego. Uma grande quantia de dinheiro deve ser assim injectado, e isso só pode ser feito através de um grande esforço comum europeu. Tendo o Banco de Espanha aceitado duas avaliações externas dos activos bancários e das perdas prováveis sob uma variedade de cenários é já um passo na direcção certa. Tendo auditores europeus instalados no país tanto no Ministério das Finanças como no Banco de Espanha a situação poderia ser outra, dadas as dúvidas que foram levantadas sobre como a Espanha trabalha os pacotes de dados sensíveis para o consumo público. Europeus que coloquem o seu dinheiro têm necessidade de algum tipo de garantia sobre a efectividade da implementação.
No plano político, a liderança de Mariano Rajoy é, obviamente, cambaleante, cheia de zig-zags. Era o que já se adivinhava, mas eu não tinha pensado que isso fosse tão claro e tão rapidamente. Mas o certo é que então eu não tinha previsto nem a mediocridade do actual governo espanhol nem a dificuldade que eles teriam em falarem a uma só voz. O último exemplo em torno da crise Bankia, com Rodrigo Rato a dizer uma coisa (que ele tinha sido forçado a ir) e Luis de Guindos a dizer uma outra (que não era assim), enquanto o governo espanhol ainda não tinha “detectado qualquer comportamento repreensível”[1] em todo este caso, serve apenas para sublinhar a falta de liderança credível do país – um factor que só torna a Europa e os mercados ainda mais nervosos. Manuel Arias Maldonado, professor de política na Universidade de Málaga resumiu a situação numa simples expressão, num artigo recente do Financial Times “Não há uma só voz que venha explicar claramente aos cidadãos o que está a acontecer”, disse ele ao correspondente espanhol, Victor Mallet, “Eu acho que Rajoy não tem as qualidades necessárias para este cargo – ser seguro, ser claro, ser capaz de transmitir a confiança de que tanto precisamos agora “.
Basicamente esta Administração destacou-se facilmente da Administração anterior tendo-a ultrapassado e de bem longe, na sua capacidade de se estar a contradizer, de se estar contradizer-se a si‑mesma. Talvez o melhor exemplo recente tenha sido o de Jaime Garcia-Lehaz, Secretário de Estado no Ministério da Economia, a exigir a intervenção do BCE, para efectuar compras de títulos da dívida espanhola quase que exactamente ao mesmo tempo que Mariano Rajoy estava na Polónia a defender a ideia de que a Espanha poderia gerir a situação sozinha, por conta própria. “Falar de um resgate não faz qualquer sentido”, disse ele à sua audiência. “A Espanha não vai ser resgatada, a Espanha não pode ser resgatada. Não há nenhuma intenção, e não há nenhuma necessidade e assim a Espanha não será resgatada. “
A briga entre o aparatchick do PP e Ministro das Finanças Cristobal Montoro e Luis de Guindos, o actual ministro espanhol da economia, que é de longe bem mais independente, tem sido constante e o grande medo que os investidores têm é de que o ministro da Economia não tenha a força política suficiente para realizar o tipo de reforma financeira que ele é bem capaz de ver que a Espanha está a precisar, devido ao facto de estar sucessivamente a ser anulado pelo Ministro das Finanças, que é muitíssimo mais sensível à questão de se saber se o estar a aceitar um resgate e injectar dinheiro público no sistema financeiro poderia levar a melhorar as perspectivas do eleitorado do seu partido.
De novo, estar a argumentar em público sobre o valor real do défice dos últimos anos não ajuda nada ao problema. Mas seguramente o ponto de viragem na percepção sobre o que é e o que vale este governo deu-se quando Mariano Rajoy foi a Bruxelas para dar uma conferência de imprensa afirmando a soberania de seu país e a sua capacidade em decidir por si o seu orçamento. A ironia, claro, era que ele estava na capital da UE a assinar um acordo para uma maior cooperação entre os estados membros da Zona Euro, e Rajoy tinha completamente omitido de informar os seus pares das suas intenções, ilustrando, assim, a ineficácia das medidas que tinham sido acordados. O resultado final desta posição foi a de colocar em questão tanto a sua aptidão e as suas opiniões assim como a capacidade de seu próprio país em ser capaz de cumprir as suas metas quanto ao défice. Desde aquele dia, ele tem lutado arduamente para recuperar o terreno perdido.
Anteriormente, as minhas esperanças estavam no que as pessoas em Espanha chamam uma nova versão do Pactos la Moncloa, e estes foram os acordos alcançados entre todos os partidos políticos da Espanha e os parceiros sociais em 1977 (com o rei a desempenhar um papel decisivo na intermediação) em que se colocavam as bases para a estrutura da nova Espanha depois do fim da ditadura de Franco. Eu digo anteriormente, porque, para além da evidente ausência de qualquer um político com o calibre e autoridade moral para dirigir o país neste momento difícil, um recente e infeliz acidente no Botswana eliminou politicamente, na verdade, um dos principais participantes daqueles Pactos. É difícil não ficar com o sentimento de que a Espanha está “amaldiçoada” neste momento, especialmente com Cristina Fernandez também a decidir agora que está na boa altura para iniciar uma vingança contra o nosso país.
E se desde o princípio não for bem sucedido
Entretanto, esta é agora a quarta tentativa de reforma financeira desde que a crise começou e, certamente, não será a última. “Todos os esforços anteriores tinham sido anunciadas ao rufar de tambores e do forte bater de conjuntos de címbalos também, mas finalmente nada era de confiança, nada era credível”, afirmou Javier Diaz-Gimenez, um professor de economia da Universidade de Navarra disse à Bloomberg News.
Ouso dizer que, as actuais propostas correm o risco de sofrer o mesmo destino de todas as anteriores. Há uma diferença, porém, os esforços de reforma anteriores baseavam-se em voltar atrás e trabalhar a partir do nível de provisionamento que o sistema bancário poderia fornecer sem entrar em ruptura. Esta reforma, a de agora, é baseada num cálculo de engenharia feito em caminho inverso a procurar saber de quanto deve ser o provisionamento que o Estado espanhol se pode dar ao luxo de poder suportar sem ir à Europa pedir ajuda.
O que é necessário agora, no entanto, tal como os líderes europeus o estão a exigir, é uma avaliação completa, franca e independente sobre a verdadeira extensão das provisões necessárias para suportar um realista cenário de choque – os preços dos imóveis a atingir os níveis de 2002 e a ficarem por ai, com o desemprego em mais de 20% até ao final da presente década, com a população da Espanha, a diminuir de 2 milhões de jovens que saem do país devido à falta de trabalho etc, – e então ir e conseguir o financiamento pela parte da União Europeia dos fundos necessários – em condições de rigorosa e constante inspecção da UE ao governo da Espanha e aos números dos bancos espanhóis, esta é a única maneira de actualmente se começar a ter de novo a credibilidade perdida e, desta forma, a Espanha poderia realmente demonstrar que está a fazer o progresso que afirma estar a fazer.
Como um amigo meu me disse ontem, as regras do jogo estão a ser alteradas, e isso é bom, mas haverá ainda muito mais que se terá de modificar e nesse sentido há ainda muito caminho a percorrer. Basta permitir que os esforços da reforma da Espanha degenerem num debate entre PP e PSOE sobre quem é mais responsável pela falência do Bankia – Mariano Rajoy e Esperanza Aguirre (líderes de PP que colocaram Rodrigo Rato à frente do Caja Madrid) ou o governador do Banco de Espanha Miguel Angel Fernandez Ordoñez (defensor indefectível dos membros do PSOE, e ex-assessor de Pedro Solbes na década de 1990) é um desperdício de tempo infantil e estúpido. Toda a sociedade espanhola está de alguma forma aqui implicada, já que quase todos activas ou passivamente (por não terem visto o que eles deveriam ter visto) participou desta enorme farsa. Caramba, ainda apenas há uns meses atrás, a imprensa espanhola tinha mesmo levado os seus leitores a acreditar que o BBVA ao estar a comprar Unim estava a conseguir agarrar uma boa oportunidade de negócio. E quase toda a gente estava a tentar argumentar que a Espanha não é a Irlanda, muito menos a Grécia. O tempo o dirá, mas os números da banca são agora cada vez mais parecidos com os números da Irlanda, enquanto os problemas das estatísticas estão cada vez mais parecidos com os das Grécia , mesmo se a diferença entre a Espanha e a Grécia seja a de que os banqueiros da Espanha e os políticos sabem muito bem quais são os verdadeiros números, eles simplesmente não os querem admitir em público.
Voltando à pastilha elástica e à rede de protecção para capoeiras, lembro-me de ter lido no relatório sobre o acidente nuclear de Three Mile Island, que as questões envolvendo os problemas de manutenção tinham sido negligenciadas ou tinham sido deixadas para serem tratadas ad hoc. O arquetípico exemplo desta realidade foi a descoberta de que um buraco num tubo de refrigeração tinha sido reparado com a utilização de uma bola de basquetebol. Pois é, Luis de Guindos, este é pois o elo que faltava na sua cadeia de ideias de meias-tintas para servir de remendo para a economia espanhola, vá então procurar uma bola de basquetebol!
[1] Nota de tradução. O Governo espanhol, pela voz do seu ministro de Economia afirma: “o Governo não tem nada para dizer si se terão cometido ilegalidades. Há uma nova equipa de gestores. Estes têm que colocar em marcha um plano. Até à data de hoje, o governo não detectou nenhuma responsabilidade. “Mais ainda, como relata El País, “quando se insistiu que os cidadãos poderiam ficar surpreendidos de que ninguém assuma responsabilidades por um fracasso tão evidente que implica uma nacionalização o ministro recordou que o Governo tinha limitado as indemnizações aos directores dos bancos com ajudas públicas. Isto é, o custo para os maus gestores está incluído nas suas indemnizações que são assim menores que as previstas. No caso de Rodrigo Rato, estas ficaram “apenas” em 1,2 milhões de euros, na base da nova limitação estabelecida pelo Executivo.

