Porque me parece de interesse histórico, em que mais uma vez se ouvem os protagonistas habituais da história”, junto envio um protesto dum desses “protagonistas menores” que sempre ficam pouco à mão de jornalistas e não só…
José Hipólito dos Santos
Cara Jornalista
Tenho neste momento à minha frente o seu artigo “PRESOS NA EMBAIXADA” publicado na Revista do Expresso de 1/9/2012, acompanhado de foto.
Foto essa que por sinal é minha, que cedi ao José Hipólito para que fosse publicada no seu livro “A Revolta de Beja” e que , posteriormente, autorizei a sua publicação em artigo de José Pedro Castanheira “O 25 de Abril poderia ter
sido em Janeiro de 62?” (Supl Actual- Expresso nº 2059 de 14 de Abril 2012).
Foi com redobrada curiosidade que a encontro desta vez na Revista Expresso de 1/Set/2012 acompanhando um artigo seu.
Quanto a isso tudo bem..
Já quanto ao texto não gostei do que li. Não é minha intenção responder aos entrevistados, alegando direito de resposta, ao abrigo do que quer que seja. Nada disso. Até porque, apesar do que lhe teriam dito a si, são três pessoas por quem tive a honra de me ter cruzado num momento de viragem tão importante da minha vida.
Não gostei da análise que fizeram à culpabilização e fraqueza dos “com menos estrutura política”. Será que alguma zanga se deu por questões ideológicas ?
Não. Será que houve muita zanga ? Não. Se houve constrangimento por vivermos tantos (4 mulheres e 15 homens no 1º semestre na Rua da Emenda) em tão pouco espaço, é natural. Mas daí a serem atribuidas
culpas de violência aos do Bairro da Liberdade é um exagero. O estigma há-de vir sempre ao de cima.
Se depressões houve foi exactamente nos melhores “estruturados politicamente”. O caso Ligia, Veloso e Pelágio tem a ver com relações pessoais de uma amizade que falhou. E só.Dos 19 asilados, só 13 estavam relacionados com Beja. Destes, apenas oito deram o corpo às balas em Beja.Os restantes
ficaram em casa nervosos no sofá. Alguma clivagem é normal mas, quando se dramatiza a situação de tal maneira que se chega ao ponto de dizer que mais valia estar preso do que estar ali dentro…só pode ser por uma enorme falta de respeito por todos quanto estiveram presos às garras da PIDE . As grandes vitimas não estavam ali. Haja bom senso.
Cito o artigo de José Pedro Castanheira acima mencionado que termina dizendo: “Reveladora foi a tensão que se manteve na própria cadeia de Peniche, com presos do PCP a criticarem asperamente as «práticas anarquistas e irresponsáveis» dos revoltosos de Beja”.
Apesar de o objectivo politico ser o mesmo nem todos remam para o mesmo lado, ontem como hoje.
E se a porta da Embaixada estava aberta para quem quisesse sair não vi ninguém correr para fora gritando, agarrem-me que eu prefiro ser preso.
Sei do que falo e posso recordar:
Quando em Junho mudámos só os 13 para uma vivenda no Restelo até a Ligia que entretanto engravidou, pode ser sair para ter o filho na clinica privada do seu amigo Dr. Monjardino, considerada a Clinica de obstetricia da alta sociedade e poder regressar ao Restelo.
Os turnos de 2 Agentes da PSP colocados à frente do portão, revezavam-se de 6 em 6horas e em poucas dias estabelecemos conversas com todos ao ponto de quando estavam de turno à hora do almoço ou do jantar, à vez, vinham à garagem e serviamos-lhes uma refeição do muito que sobrava da comida que nos estava destinada. Nunca houve aqui Pides a vigiar porque senão todos os polícias que lá prestaram serviço tinham sido presos.
Qual “arame farpado, qual parafrenália”.
Na vivenda à nossa esquerda 3 dos sete filhos do Primeiro Secretário da Embaixada Sueca vinham visitar-nos , com conhecimento os pais à hora que lhes apetecia.
Do lado direito, o filho de um casal francês fazia o mesmo e trazia dois amigos irmãos que viviam numa vivenda mais acima .
Algumas vezes os polícias dava-nos coberturas para escapadelas e voltavamos depois.
O piloto que levou o Maximino Serra para Marrocos (que só entrou na Embaixada depois da foto ter sido tirada) entrou na Vivenda as vezes que foram necessárias para ultimar a fuga sem que tivesse que se identificar. Familiares e amigos faziam o mesmo. Uma verdadeira rebaldaria.
Que vida dificil de asilado seria esta? Infelizes os que foram presos e que merecem o nosso respeito.
Uma coisa não posso deixar passar quando é dito “o Carlos, que era irmão de um tipo que tinha estado em Beja”. Não sei em
que contexto o disse mas não foi feliz; o Carlos Alberto da Silva Abreu que pediu asilo politico comigo (com a justificação de ter estado em Beja, o que era uma mentira piedosa, porque na verdade a sua situação era de desertor militar ao não embarcar para a India, situação que invalidava o direito de asilo se fosse mencionada) era irmão de David da Silva Abreu, que foi dos principais
operacionais junto de Manuel Serra e que perdeu a vida dentro do quartel. Hoje existe uma Rua com o seu nome em Beja como homenagem, após o 25 de Abril, da Camara Municipal de Beja.
Muito resumidamente acabo de lhe expôr argumentos da minha parte porque não sendo toda a parte não entrevistada,pelos outros não posso falar.
A minha intenção é fornecer-lhe a si mais informação e não entrar em polémica, que a minha idade já não tolera . 20 anos tinha eu que, juntamente com o Gabriel eramos os mais novos de todos quantos participámos.
Se outros que estão vivos são muito mais velhos e se a verdade de hoje é a memória do que fizemos, imagine-se as falhas que a pouco e pouco vão surgindo.
Os meus respeitosos cumprimentos
Delmar Silva
PS.: No se artigo “O homem que fugiu três vezes” a adesão de Manuel Serra ao Patido Socialista pode dizer-se que foi “sol de pouca dura”. Pouco tempo depois do 25 de Abril fundou a FSP e cortou com o PS ,que também durou pouco e acabou por retirar-se desapaixonado com a não realização dos seus sonhos.

Como eu gostaria de falar pessoalmente com o Maximino Serra, ainda vivo.
E tambem com a companheira do Manuel Serra, Marinela