Lamento esta história por dois motivos: por ser escrita no dia em que o Presidente Allende foi levado ao suicídio e pela simpatia do clã Picunche da Nação Mapuche que habita no Chile.
Conheci os Pinochet quando realizava meu trabalho de campo em Pencahue, na subida à Cordilheira dos Andes. Eram pobres, moravam numa aldeia do seu nome Chanco, que em, mapudungun língua Mapuche, significa moído. Fabricavam queijo, o famoso queijo de chanco, do leite das suas vacas que pastoreavam em terras baldias comuns. Não havia Registo Civil e todo nascimento era anotado por um escrivão e enviado a Santiago. Eis porque aparece este felón como nascido em Santiago. Mal cursou a escola primária, pelos 0 que ganhava em todos os seus trabalhos, como consta nos arquivos de Pencahue, estudados por mim e as minhas colaboradoras Picunche, engenheiras em Veterinária Victória Berrios, e em Agricultura, Angélica Cárcamo. Era um clã agradável, aprendi mapudungun com eles, a língua da terra.
O Pichunche, farto de andar descalço pelas estradas de pó de Chanco, conseguiu um padrinho que o enviara a única alternativa para os pobres do Chile, a Escola Militar. A outra, era o sacerdócio, mas já havia tatos padres na família, que nem mais um cabia. Era filho de um militar de origem francesa, Augusto Pinochet Ugarte concluiu os estudos na escola secundária em sua cidade natal em 1930.
O coronel francês cedo abandonou a mãe do filho e tornou a França. A sua viúva branca, Avelina Ugarte, família antiga do Chile, foi aos padres franceses ou Colégio dos Sagrados Corações. D. Avelina solicitou à caridade dos Padres dos Sagrados Corações para seu filho ser admitido grátis, baseada no facto de ser filho de um coronel francês. Era o colégio da aristocracia do Chile, em que estudavam a creme da sociedade chilena, os meus tios entre eles. Era apodado o burro Pinochet. Nada sabia de nada. Sempre foi um abandonado pelo pai, a mãe não podia viajar desde Chanco, não havia dinheiro para tanto gasto. Apenas tinha um fato, oferecido pelos Padres Franceses, o uniforme do colégio, vestido de domingo a domingo. Os Sagrados Corações aconselharam a viúva branca do retirar do Colégio, era o único que não era esperado por ninguém, ainda menos de carro. Dizem os seus biógrafos que teve uma brilhante carreira militar. Biógrafos partisanos, evidente. Em 1940, casa com Lucía Hiriart Rodríguez, tiveram cinco filhos.
Era militar submisso, que até 10 de Setembro não queria entrar no complot das Forças Armadas. Tinha conquistado um Alto Poder, sendo nomeado pelo Presidente Allende Comandante em Chefe das Forças Armadas, cargo nunca sonhado por ele, por recomendação do Comandante em Chefe saliente, o General Carlos Prats. Recomendou ao novo General como homem de confiança.
Devo confessar que existe una genealogia Pinochet, que é de Chanco e Maule[1]. Mas, não são os Pinochet que eu conheci, esses fabricantes de queijo de vaca da aldeia de Chanco em Pencahue
No dia prévio ao alçamento que derrubou a Allende, houve horas de conversa com o burro Pinochet e os três golpistas: o Almirante da Frota, Toríbio Merino, o General em Chefe de Aviação Gustavo Leigh e o autonomeado General em Chefe dos Carabineros, Mendoza[2]. Com o poder nas mãos, queria ser ele o único a governar[3].
O Picunche queria governar só. Mata a torto e direito aos seus opositores, forma a Legião Condor, que matava opositores dentro e fora do Chile. Convida a Wojtila em 1981, quem ouve a Patrício Aylwin, Começa em 1982 a campanha pelo não à ditadura do Picunche. O plebiscito de 1988 dá a vitória ao no e em 1989, o ditador deve abandonar o poder. O burro Picunche não teve alternativas, convocou eleições livre e em 1989 Aylwin, quem presidia as marchas pelo não, é eleito Presidente. O burro teve que abandonar o poder, guardando para si a chefia de Comandante em Chefe das Forças Armadas e o posto de Senador vitalício, que nunca ocupara. Em 1990 foi detido na Grã-Bretanha, submetido a processo, que continuou no Chile. Só e velho, o meu amigo e companheiro de exílio, Martin Cordeiro, o analisou encontrando-o apto para entender e saber responder. O juiz Gusmão da Corte de Apelo, o acusa de mais de dois mil delitos de sangue, roubo e latrocínio.
Governou o país com mão de ferro durante dezassete anos perdeu o controle quase absoluto que detinha sobre as instituições chilenas, enquanto tutelou o regime chileno e mais tarde quando ainda detinha a imunidade (por ser senador vitalício), passando a temer eventuais investigações e processos judiciais movidos pelos seus adversários políticos, ora transformados pela nova situação de perseguidos em perseguidores.
Ao todo, o ex-presidente chileno enfrentou uma dezena de processos judiciais, sendo que para cada um deles os juízes tiveram que obter o levantamento da imunidade de que gozava Pinochet graças à sua condição de ex-chefe de Estado, além de terem de provar as suas condições de saúde para poder enfrentar os processos.
Segundo a Comissão Rettig — Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação Chilena — (relatório enviado ao presidente Patrício Aylwin no dia 8 de Fevereiro de 1991) e diversas outras investigações, teriam sido feitas cerca de 3.197 vítimas (números não são consensuais. Dentre estas, havia 1.192 pessoas detidas “desaparecidas” – a maioria delas à época do Golpe de Estado – conforme uma prática usual entre os regimes militares instituídos nas repúblicas vizinhas, como o Brasil e a Argentina. Calcula-se que o número real de mortos e desaparecidos do governo de Pinochet esteja próximo a 50.000 pessoas.
Faleceu no banco dos acusados, réu de mortes e roubo, como todos nós pretendíamos, como consta na Revista Nature que me entrevistara a minha volta a Cambridge, em Dezembro, 15, de 1973. Faleceu como eu pretendia, só, pobre e em julgamento.[4]
É o que acontece com as crianças pobres, quando crescem e têm o poder nas suas mãos. Wojtila foi quem, na sua visita, destoara esse não ao burro.
[2] Em 1973 foi designado diretor de Bem-estar, cargo que ocupou hasta el golpe militar de 11 de setembro de 1973. O general José María Sepúlveda, diretor de Carabineros até essa data, foi relevado das sus funções. Demitiu-se da Junta em 1985. Leigh sofreu uma tentativa de morte no ano seguinte por pretender tonar à democracia. O Almirante não interessava: era alcoólico. Com o poder nas suas mãos, o Picunche se fez eleger Presidente com o nome de Diretos Supremo, para emular ao Libertador do Chile, Bernardo O’Higgins
[3] Pinochet organizou plebiscitos em 1978 e 1980 para dar uma certa aparência de legalidade à sua ditadura e manter-se no cargo; na ausência mais absoluta de liberdade de imprensa e de expressão de pensamento, a vitória de Pinochet era certeira. O plebiscito do 78 lhe conferiu a maioria dos votos da população e seu governo teve confirmado a sua “legitimidade”. Já o fraudulento plebiscito de 1979/80 foi um mero trâmite para “legitimar” e prolongar uma ditadura pessoal; realizou-se sem quaisquer registros eleitorais, sem que a oposição tivesse acesso aos meios de comunicação de massa, e não houve controle algum sobre o “ato eleitoral”. Milhares de chilenos permaneciam no exílio, havia centenas de presos políticos e os aparatos repressivos como a DINA, estavam em plena atividade.
[4] No dia 3 de Dezembro de 2006 sofre um ataque cardíaco e, aos 91 anos, falece em 10 de Dezembro às 14h15 devido a um infarto do miocárdio e um edema pulmonar agudo no Hospital Militar. Uma hora depois do anúncio da sua morte, várias manifestações acontecem em frente ao hospital, tanto a favor quanto em oposição ao ex-presidente. As Forças Armadas chilenas prestaram-lhe as honras devidas ao funeral do seu comandante supremo. O governo chileno, porém, não lhe deu honras de Chefe de Estado nem decretou luto oficial. Referiu-se à sua pessoa apenas como general Pinochet e enviou apenas uma representante para os funerais, a ministra da Defesa Viviane Blanlot, cuja presença ao lado do esquife foi recusada pelos filhos de Pinochet. Da mesma forma, a presidente chilena, Michelle Bachelet – que foi presa, torturada e exilada durante a ditadura militar comandada por Pinochet – recusou-se a comparecer ao enterro de seu antigo algoz. O movimento popular oposto à participação do governo nas honras militares ao ex-ditador Pinochet organizou um simultâneo ato em homenagem ao ex-presidente Salvador Allende em frente do seu monumento na capital chilena.
Augusto José Ramón Pinochet Ugarte morreu no Dia Internacional dos Direitos Humanos e dos Povos Indígenas.

Tenho lamentado escrever este texto, porque os Picunhe do Chile, não tem a sorte de ter tido um traidor entre eles. Bem como, porque acabo de terminar um livro de 300 páginas em que estudo aos próceres das varias independênças, como Atahhualpa Yupanqui. Moctezuma II, os próceres que criarom os EUA e os da Revolução francesa, como os da América Latina, que aprenderam com Francisco de Miranda, Jefferson e Franklin, como se faz uma revolução e se conquista a liberdade: Simón Bolívar, José de San Martín, o Padre Hihalgo do México e o seu grito de Dolores, e o herói traido do Chile, o primeiro, o denominado Pai da Pátria Bernado O’Higgins
RI
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