António José Seguro, deu ontem uma entrevista à RTP na qual declarou que “O PS só voltará ao Governo por vontade dos portugueses”,. Ou seja, o secretário-geral do PS excluiu a hipótese de o seu partido integrar um governo de “salvação nacional”. Disse também que nas últimas eleições, no ano passado, “os cidadãos quiseram que os socialistas fossem oposição”. É a perspectiva táctica acertada para um partido que, como o PS, faz parte do sistema dual que, na prática, apenas deixa ao eleitor comum a possibilidade de votar no PSD ou no PS. O governo de Passos Coelho, que fez tábua rasa de promessas eleitorais e impôs medidas de austeridade de uma forma que, além de injusta, foi pouco inteligente, parece ter os dias contados.
Um governo de salvação nacional, seria sobretudo uma forma de salvar a face a esta trupe do PSD e do CDS que está a pôr o País a pão em água. Mas as vozes discordantes dentro da coligação e do próprio partido são muitas e vão crescendo em número e em intensidade de dia para dia. Não é tacticamente correcta a expressão do dirigente sindical de que «quando o barco se está a afundar os ratinhos (sic) fogem». Naturalmente que se estamos a falar de gente de primeira linha, a expressão correcta seria «ratazanas» – e é verdade: fogem porque a água começa a invadir os porões.
Mas nem todos saem por oportunismo e, em segundo lugar, não convém lançar anátemas sobre os desertores – deixá-los desertar. Temos de nos lembrar de que há no PSD gente séria e que está mesmo desapontada com as mentiras do Governo e com o terrorismo social que ele está a exercer sobre as camadas socialmente mais vulneráveis da população. E afinal, votar no PSD ou no PS acaba por ser igual – e tanto assim é que as eleições são decididas por uma massa flutuante de eleitores que ora votam num ou noutro partido. .
As manifestações de sábado passado constituem um inequívoco sinal de que o povo acordou. Era preciso que os políticos da Esquerda compreendessem que as manifestações e a iminente rotura na coligação governamental não são um ponto de chegada, mas apenas um sinal de partida para o que, das duas uma: pode ser apenas a habitual mudança de um dos clones do neo-liberalismo para o outro – a pose de Seguro na entrevista de ontem é já a de um futuro primeiro-ministro; ou pode ser a oportunidade para uma nova força se afirmar. Um Congresso em que.se definisse uma linha de acção comum e a criação de um movimento unitário que, com credibilidade, realismo, ponderação, propusesse numa linguagem sem demagogia um caminho para a democracia portuguesa. Esta seria uma saída para este labirinto que a democracia parlamentar criou.
Se não for assim, o sistema «rotativista» prosseguirá a sua rota. Como na História sem Fim, de Michael Ende, onde chegada ao fim a história recomeça sempre da mesma maneira. O chamado círculo vicioso.
