EM COMBATE – 179 – por José Brandão

Mesmo aqui ao pé do quartel, a cerca de 3 quilómetros, um camião com tropa passou por uma mina que tinha sido posta na estrada e rebentou. O camião e os homens foram pelo ar e logo de seguida houve tiros de emboscada mas como vinha mais tropa atrás e o quartel era muito perto, eles, os da Frelimo, que eram alguns com armas e uma bazuca, fugiram, meteram no mato e desapareceram.

Continuo sem grandes problemas para mim. Tenho a sorte de não ser fácil sair do quartel, por conseguinte não sou dos mais azarentos. Outros camaradas meus do pelotão de reconhecimento do alferes Sousa e dos sapadores de infantaria do alferes Cunha, assim como os condutores, transmissões, saúde e outros apoios, esses sim, coitados, é noites e noites sempre a dormir no mato, a comer rações de combate.

Tive sorte em ser telegrafista e vir integrado numa companhia CCS ou seja: comando de batalhão, mas seja como for não estou no céu.

No dia 16.2.70, saí pela primeira vez do quartel numa coluna que foi a outro quartel situado a uns 60 quilómetros buscar umas coisas quaisquer.

Voltei a sair do quartel, desta vez fui até Vila Cabral que fica a uns 100 quilómetros daqui. Como o caminho é pelo meio do mato e serras a viagem demora 4 horas e mais. Ao todo eram cinco carros da tropa. Três camiões Berliet, um Unimog e um jipe.

Saímos às 5 e trinta da manhã e só vamos regressar já de noite, por volta das 9 horas.

É nesta picada, que liga o Catur a Vila Cabral, que se encontra a famosa curva da morte, chamada do “caracol”, um dos três locais de Moçambique onde se têm verificado as maiores e mais mortíferas emboscadas da Frelimo. Temos de passar por ela, não há como fugir.

UM ATAQUE! –

Na noite de 27 para 28, às 21:30 horas, quando eu estava de serviço no posto de rádio começaram a soar tiros, rajadas de metralhadora e rebentamentos de granadas por todos os lados aqui do quartel.

Larguei tudo, agarrei na arma corri para a barreira de terra batida e deitei-me no chão para me proteger. Entretanto, todos os meus colegas corriam para os seus postos; uns em cuecas, outros descalços, ou sem camisa como era o meu caso.

Enquanto o tiroteio continuava voltei ao posto de rádio e chamei pelo rádio todos os quartéis aqui da zona para ficarem à escuta para no caso de serem precisos reforços. Ao mesmo tempo já tinham saído do quartel dois carros cheios de tropa em direcção ao local de onde vinham os tiros que estavam a atingir o quartel.

De seguida, os tiros começaram a abrandar até que pararam. Mesmo assim ainda tivemos cerca de duas horas deitados no chão como medida de prevenção.

Chegou-se à conclusão que os guerrilheiros da Frelimo estavam a cercar o quartel para fazerem um ataque em massa pelo amanhecer, mas 4 deles foram detectados e avistados pelos meus camaradas que estavam de guarda num posto avançado que imediatamente começaram a dar tiros de rajada e daí todo o tiroteio que se gerou.

Pelas 23:30 lá foi tudo dado por acabado, reforçaram-se os postos, que em vez de um homem ficaram com três em cada posto.

Algumas paredes ficaram crivadas de balas e tudo passou.

5.3.70. Desta vez não foi propriamente a tropa a ser atacada mas sim elementos da milícia, ou seja, uma espécie de tropa mas todos negros.

O caso deu-se na madrugada de quinta-feira, dia 5, às 6 horas da manhã e o local foi muito perto do quartel, no máximo 3 ou 4 quilómetros.

Uma zorra do caminho-de-ferro com um atrelado carregado de trabalhadores da linha e a respectiva milícia para os proteger foi alvo de uma emboscada à bazucada e a tiro.

No local aquilo era pavoroso. Feridos e mortos por todo o lado totalmente decompostos, a zorra completamente destruída, sangue e homens em estado absolutamente lastimável.

Balanço deste trágico ataque: para já 6 mortos e 18 feridos, 7 dos quais também às portas da morte, entre eles o único branco desta equipa civil, o capataz, e que ia muito mal quando o avião o transportou para o hospital de Vila Cabral.

Ficámos na dúvida se esta emboscada não estaria preparada para uma nossa coluna, que só não passou no local àquela hora porque se atrasou 15 minutos no quartel. Ou se não seria mesmo para o comboio que haveria de passar no local uma hora depois da emboscada. Tudo nos leva a crer que os guerrilheiros se tenham enganado pois não é normal eles atacarem gente da cor deles, mesmo que sejam milícias e empregados do caminho-de-ferro.

Seja como for, o resultado foi trágico. A Frelimo deve ter remorsos do engano, ou não engano, deste seu ataque a gente da sua cor. Apenas lá ia um branco que nem sequer era tropa.

1 Comment

  1. Pois é camarada Brandão. Foi no caracol que a minha companhia (C.CAV2415 ,1968 – 1969) teve os dois primeiros mortos e alguns feridos, numa emboscada. Um furriel e um sargento. Era complicado passar por lá!
    Um abraço. SANTA.

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