Falar de todo o jeito – Augusta Clara

(Adão Cruz)

O desgaste que o conceito clássico de democracia foi sofrendo tem vindo a suscitar progressivamente várias questões.

A democracia permite a liberdade de expressão. Mas qual expressão? E a quem?

Chegámos hoje a um ponto em que os conceitos que caracterizavam a ideia de democracia se encontram praticamente todos esvaziados. Os poderes acabam sempre por se apropriar e reintegrar tudo o que era anti-poder, das artes, às ideias, até à própria maneira de viver em sociedade – aquela que imaginamos e quereríamos que fosse a mais consentânea com a dignidade e a felicidade dos seres humanos -, revertendo-o em mecanismos de apaziguamento, de anestesia ou de repressão. E, para isso, usam a palavra. É através dela que se enganam os povos, se constrói o embuste em que os enredam.

É difícil escapar a esta dinâmica quando a cultura amordaçada se torna sua vassala, a mais fiel servidora para domar o entendimento, a reflexão e a acção do maior número possível de pessoas. Por isso se cortam as verbas e se passa a Cultura de ministério a secretaria de Estado. Para que hiberne dando-lhe a falsa aparência de estar muito activa.

Se sempre foi, parece, agora mais do que nunca, necessário reflectirmos sobre o papel da palavra, melhor dizendo, o papel que a forma como a usamos tem a ver com a liberdade de expressão, a nossa liberdade de cidadãos.

Segundo  o filósofo José Gil, em entrevista à RTP numa das últimas semanas, as pessoas têm medo de falar e é preciso que falem, que deem expressão às suas aflições, à sua revolta, como escape à tensão que subterraneamente se vai acumulando por acção da desumana e criminosa política do actual governo que já nada respeita em termos de pessoas e de instituições, usando da mais completa arbitrariedade, fazendo-nos oscilar o chão debaixo dos pés. A vida dos portugueses passou a ser uma ameaça de terramoto.

Mas a sua preocupação não se ficava por aqui  O que ele acrescentou é coisa que muito me tem andado pela cabeça. É o combate ao discurso estereotipado. É o criar a consciência de que qualquer pessoa tem o direito de expressar aquilo que pensa sem que o facto de não ter tido as mesmas possibilidades de estudos que outros tiveram, lhe iniba o discurso, lhe crie a ideia de que só “os letrados” detêm o saber de como dizer as coisas, conferindo-lhes esse estatuto o exclusivo direito de falar em nome de todos.

É uma ideia completamente errada que esta falsa democracia de classes enraizou no pensamento ao usar formas de descriminação que  impedem a uns e a outros o acesso a terem, logo ao nascer,  a mesma perspectiva de vivência do mundo e da vida.

Aqueles a quem se apelida de estúpidos, a menos que sofram duma perturbação orgânica, são na verdade muito poucos. São muito mais os ignorantes, não no sentido pejorativo do termo, mas no sentido radical de “não saber”. Todos nós não sabemos muitas coisas, mas uns mais do que  outros são impedidos, sequer, de tentarem diminuir o fosso entre a ignorância e o maior entendimento possível dos fenómenos. E, à custa desses, ou da sua maioria, se manobra a vida dum povo, se praticam as maiores malfeitorias deste sistema aterrorizador que governa o planeta.

O resto é discurso ensaiado por conveniência de manutenção de mordomias e estatuto. São raros os que passam pelas altas esferas onde se discute o nosso destino colectivo que tenham a coragem de usar a palavra com a nobreza que esses cargos exigiriam. Infelizmente, por lá se passeiam, com salvaguarda das poucas excepções, palhaços e máscaras cuja presença se substituiria vantajosamente por uma máquina falante.

Dos poucos, lembro-me, neste momento, dessa extraordinária figura da cultura portuguesa, Natália Correia, que, em plena Assembleia da República, não temia “chamar os bois pelos nomes”. Que o diga o tal Morgado.

 Para actuarmos sobre a sociedade em que vivemos, para darmos a nossa opinião sobre o país que queremos seja o nosso, não é obrigatório pertencermos a partidos nem matarmo-nos por adquirir um cargo privilegiado. Temos, sim, o dever de exigir que, às gerações vindouras, e a partir de já,  seja garantida a absoluta igualdade, desde o berço, a serem donas da palavra, da arte, da música, da ciência. Em suma, da cultura.

E nós, os da esquerda, em matéria de diversidade do discurso, também não sei se estaremos inocentes. Cristalizado por arrastamento de décadas, quantas vezes nos “exprimimos à esquerda” e somos “criticados à esquerda”?

José Gil advoga que cada um tem o direito (e o dever, diria eu) de expor as suas ideias e opiniões da forma mais genuína com que a expressão se lhe imponha. Não é isso que fazem a poesia e a música? Expressarmo-nos em prosa é, também, uma arte

A riqueza da língua não está só na formalidade. É, também, na cor, na música das palavras, seja no discurso poético ou em qualquer outro que modele o nosso pensamento. É a visão do fluir do raciocínio

Não se fala nisso, agora, porque estamos em crise económica?

Ai, fala, fala, e mais do que nunca. Essa é outra: o eterno monopólio do discurso económico. Mas fica para próxima conversa.

Hoje ficamos com a Natália Correia a cantar “A padeira de Aljubarrota”.

3 Comments

  1. Oh, Augusta!, há um local maravilhoso para aprender mesmo a fazer pão, com todas as qualidades que pode ter e agora nas cidades não tem, que é o maravilhoso Museu do Pão, na Serra da Estrela, um pouco acima de Seia. Também se almoça lá muito bem, numa boa relação qualidade/preço.

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