EM VIAGEM PELA TURQUIA – 3 – por António Gomes Marques

A partir de 1415 Esmirna passa a fazer parte do Império Otomano, com o sultão Mehmed Çelebi no poder, vindo a tornar-se num dos principais portos entre os séculos XVII e XIX e um dos maiores centros cosmopolitas do comércio, visitado por comerciantes de todo o Mundo. Famosos também os seus produtos: figos secos, passas e, como não podia deixar de ser, tapetes.

Há quem acredite que Homero ali viveu, há quem pense que não passa de um nome colectivo. O melhor é socorrermo-nos de quem a este tema tem dedicado aturado estudo, o classicista Frederico Lourenço:

«Já na Antiguidade, alguns estudiosos alexandrinos denominados “corizontes” alegavam que a Ilíada e a Odisseia não podiam ter sido compostas pelo mesmo poeta. A partir do século XIX a filologia alemã foi progressivamente revelando que cada um dos poemas denunciava, em secções diferentes, vários estilos e vários hábitos métricos e linguísticos. “Homero”, portanto, não pode ser encarado como um conceito análogo a “Virgílio” ou “Camões”. Será antes um nome colectivo, embora tenhamos de postular a existência de alguém que terá dado aos poemas a forma final que hoje conhecemos.»

In «Grécia Revisitada», Livros Cotovia, Lisboa, Agosto de 2004.

Na «Ilíada», F. Lourenço realça o contraste guerra/paz, à «Odisseia» chama «Encanto Absoluto», correspondendo o primeiro à cólera do sanguinário Aquiles e o segundo ao retorno de Ulisses. A minha preferência vai, claramente, para este último.

Mas é chegado o momento de invocar outro classicista, o meu mestre Padre Manuel Antunes, que nos fala na «Questão Homérica» (O. C., Tomo I, Volume II, F. C. Gulbenkian, Jan.º de 2008) nestes termos:

«A questão homérica, na sua simplicidade máxima, pode formular-se assim: Quem é o autor da “Ilíada” e da “Odisseia”? A esta pergunta muitas respostas têm sido dadas, sobretudo desde a publicação, em 1795, dos “Prolegomena ad Homerum” de Frederico-Augusto Wolf. Essas respostas podem, no entanto, reduzir-se a três linhas de solução: 1) tese unitarista: é um só autor principal da “Ilíada” e da “Odisseia”; 2) tese dualista: são dois – um para cada poema – os autores principais da “Ilíada” e da “Odisseia”; 3) tese pluralista: são vários os autores de cada um dos poemas, “Ilíada” e “Odisseia”, carecendo eles de verdadeira unidade quer temática quer estrutural.

Não vamos, naturalmente, transcrever tudo o que o Mestre escreve sobre esta matéria, procurando eu que o leitor dedique algum do seu tempo à leitura destes classicistas, sem esquecer, obviamente, a leitura dos próprios poemas, recentemente editados em português, graças às traduções de Frederico Lourenço (Edições da Livros Cotovia), podendo mesmo começar-se pela obra pioneira em Portugal, fundamental na formação de muitos: «Hélade – Antologia da Cultura Grega», organizada e traduzida por Maria Helena da Rocha Pereira, outro dos nomes grandes da cultura clássica no nosso país, com a 1.ª edição em Janeiro de 1959, sendo a última, a 10.ª, recentemente publicada, Outubro de 2009, pela Guimarães Editores, S. A.

Presume-se que os poemas de Homero terão surgido no século VIII a.n.e., na Jónia, dando-nos, para além da sua insuperável beleza, preciosas informações sobre a vida quotidiana, o sistema político e social, os costumes, a religião que os historiadores localizam nos séculos IX e VIII a.n.e., mostrando uma unidade notável, apesar de se saber que os dois poemas nos chegam graças a arranjos realizados muito mais tarde, ou seja, no século VI a.n.e.

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