CATUR
– 7.7.70. Segundo se fala aqui iremos em Setembro para o distrito de Tete, que, tal como este distrito do Niassa e o de Cabo Delgado são os distritos de Moçambique onde há guerra. O novo destino parece ser Furancungo situado junto às fronteiras da Rodésia e da Zâmbia.
26.8.70. Mais uma vez tenho más notícias e mais uma vez do Lione.
Hoje, às 6:45 horas da manhã, apenas 4 quilómetros do quartel, uma coluna que se dirigia para Vila Cabral, sofreu uma violenta emboscada com tiros e bazucadas que causou mortos e feridos, todos eles tropa do Lione, da CCaç 2728, que apenas chegaram há dois meses.
Os mortos foram, para já, 3, e os feridos pelo menos dois evacuados.
AGOSTO 1970.
O Comando-Geral da Região Militar de Moçambique admite que só nos últimos três meses (Maio, Junho e Julho) registaram-se 221 mortos e feridos entre as forças portuguesas.
Ontem, 29.8.70, sábado, à uma da madrugada, tivemos a primeira baixa mortal aqui na nossa companhia. O infeliz foi um soldado condutor que foi vítima de um choque eléctrico quando se encontrava de sentinela num posto aqui do quartel e onde passam os fios da electricidade muito perto.
Amanhã, 17.9.70, sairemos de comboio para Nacala onde embarcaremos no navio “S. Brás” com destino à cidade da Beira.
NACALA – 21.9.70 (a bordo do “S. Brás”)
Cá estou de novo, agora já longe do Catur e a bordo do navio “S. Brás”. Quanto à nossa saída do Catur, foi no dia 18, pelas 7 da tarde e não foi das melhores pois quando vínhamos no comboio e ainda perto Catur sofremos uma emboscada em plena viagem.
Apesar de termos sido atacados à bazucada e tiro de metralhadora nenhum de nós ficou ferido. A nossa carruagem era a última e a que foi mais atingida foi a máquina que ia à frente que ficou toda crivada de balas. Quanto à bazucada, tivemos imensa sorte porque entrou por uma porta da máquina e saiu pela outra, rebentando à beira da linha.
Como digo tivemos muita sorte pois se bazucada tivesse acertado na máquina tínhamo-nos precipitado numa ponte que ficava logo à frente do local da emboscada e que tem mais de 20 metros de altura.
Agora estou já a bordo do “S. Brás”, já vou no mar e o barco baloiça por todos os lados.
VILA DE MOATIZE (Distrito de Tete).
– 30.9.70. Estou, agora em Moatize que fica nos arredores da cidade de Tete. Há 5 dias que aqui estou à espera que haja coluna que nos transporte para Furancungo. Dentro de 2 dias fará duas semanas que saímos do Catur e ainda não chegámos ao destino.
Há 5 dias que estamos aqui a dormir no chão e na rua, onde calha. Aqui há calor como nunca vi e só temos água meia hora por dia. Não há água para beber, nem para nada. Temos que aproveitar a que há durante essa meia hora para nos lavarmos e beber. Nunca tive tanto calor na minha vida. Isto é insuportável. A dormir no chão de terra, comer mal, beber nada. Isto é como no deserto, é sol, calor e poeira. A sede é do pior, quando há água além de não prestar vem quente e podre.
FURANCUNGO.
– 6.10.70. Finalmente em Furancungo.
Cheguei ontem depois de andar dois dias de viagem e uma noite a dormir no mato.
Existe aqui uma pista da Força Aérea que fica muito perto do quartel.
O nosso Batalhão vai assumir o comando do Subsector HFR dispondo, como unidades fixas ou de quadrícula, além de 1 GE no Domué, de 3 companhias tipo caçadores (uma em Vuende, outra em Vila Coutinho e a terceira em Chizampeta) todas com pelotões destacados.
Ontem 21.10 veio o avião do correio mas não tive qualquer carta.
Quanto à guerra, foi atacado um quartel que fica bastante perto daqui. Durante 3 horas estiveram debaixo de fogo de morteiros e de tiros.
Um outro quartel que se encontra junto a este, no Vuende, foi também atacado com a mesma intensidade.
No que respeita à guerra, no domingo, dia 8, tivemos mais 2 minas na picada de Tete para Furancungo. Uma foi no Baué, a 30 quilómetros daqui. A outra ainda foi mais perto, pois quando ela rebentou ouviu-se bem aqui no quartel.
A primeira causou um ferido que foi evacuado com facturas num pé e numa perna. Este soldado vinha do hospital para onde tinha sido evacuado há tempos e agora voltou novamente ferido para o hospital.
A outra mina, quase a chegar a Furancungo, causou um morto civil africano que ficou totalmente desfeito aos bocados espalhados pelo mato. A vítima vinha a pé e pisou a mina que estava preparada para rebentar quando passasse a coluna que já tinha rebentado uma outra.
Houve mais um morto de uma das nossas companhias perto aqui do Furancungo. Foi uma emboscada a uma coluna que vinha de Tete para o Furancungo e quando já se encontrava a poucos quilómetros daqui do quartel. O resultado foi um soldado que levou uma rajada de tiros na cabeça caindo logo morto.
Segundo números oficiais no ano de 1970 morreram em Moçambique cerca de 300 militares portugueses, sendo cerca de 200 em combate.
