DIÁRIO DE BORDO, 23 de Setembro de 2012

No Guardian online, ontem, Diário de Bordo leu um artigo de Ian Jack, Centuries of Indian life could be extinguished by the arrival of Walmart, com um subtítulo The country’s street sellers will almost certainly vanish once foreign supermarkets are allowed into the big cities. Vejam: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2012/sep/21/indian-life-extinguished-by-supermarkets. A Walmart é a maior cadeia de venda a retalho do mundo. A sua entrada na União Indiana vai fazer forte concorrência ao grande número de pequenos retalhistas, vendedores ambulantes e similares, que asseguram a maior parte do comércio. Ian Jack informa que se estima em cerca de 12 milhões o número de pessoas que no sub-continente vivem do pequeno comércio. Convém não esquecer que a União Indiana tem mil e duzentos milhões de habitantes, mais do que a Europa e os EUA juntos.

Esperemos que os indianos resistam melhor à entrada da Walmart do que, no século XIX, resistiram à entrada dos panos de Manchester, que arruinou a indústria têxtil artesanal do país. Mas há que olhar com atenção este passo da globalização, melhor dito, do avanço do capitalismo financeiro no mundo. Na Europa são poucos os países onde a Walmart está presente. Talvez porque tenha cadeias comerciais mais fortes.

A formação e expansão de grandes cadeias de supermercados são fenómenos da grande concentração de capital. Para os ingénuos, esses fenómenos não têm nada a ver com as relações entre os estados ou a felicidade dos povos. Olham-nos como uma fatalidade, ou limitam-se a realçar eventuais lados positivos. Quem olha mais de perto apercebe-se do latente extremar de posições entre as várias camadas da população.

Em Portugal ultimamente as cadeias de supermercados têm estado na berra mais do que o habitual. O peso que têm no abastecimento explica com facilidade essa maior exposição pública, assim como as acções espectaculares desenvolvidas para atraírem a clientela. Um governo serviçal e incompetente, mesmo sob o ponto de vista puramente capitalista, pensou prestar-lhes um grande serviço com as medidas anunciadas sobre a TSU, agora parece que retiradas. Obrigou inclusive os proprietários das cadeias a suspenderem por momentos a ânsia de lucros (delicado como é Diário de Bordo não lhe vai aplicar a designação de ganância) e a informarem que precisam de ter clientes nas lojas, com dinheiro nas carteiras para pagar os géneros que quiserem adquirir.

Estamos realmente a viver tempos muito complicados. Mesmo tendo em conta que o governo português é um caso excepcional de alienação (só não vê quem ver) e a sua camada dirigente muito pouco solidária com a população em geral, grandes mudanças são necessárias ao nível mais geral. Entretanto, vários aspectos têm de ser acautelados. O abastecimento das pessoas é um dos pontos fulcrais a tratar. E não pode ser assegurado ao nível de bancos alimentares contra a fome, estigmatizando a quem a eles recorre. Pelo andar da chamada crise, com o arrastar das troikas e quejandos, vão ser precisas mais alargadas e eficazes. Era bom que, em Portugal, fossem tomadas por outro governo. Melhor que o de Passos/Portas, ou de José Sócrates.

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