Foi em 24 de Setembro do ano 622 que Maomé completou a Hégira de Meca para Medina. Hégira significa exílio. Perseguido em Meca, Maomé refugiou-se em Medina. Maomé, tal como Cristo, eram políticos, revolucionários, pois trabalhavam para o advento de sociedades mais justas, erradicando assimetrias e prepotências. E estavam sujeitos a todos os perigos que os revolucionários enfrentam e que advêm das estruturas sociais e políticas que querem destruir ou reformar. Cristo nunca foi «cristão», ou seja, não há conhecimento de que tenha pretendido criar uma nova religião – apenas pretendia que a moralidade existente nos «livros sagrados» tivesse correspondência na vida quotidiana do seu povo. Foi executado. E sobre o seu exemplo de coerência intelectual construiu-se uma religião que nada tem a ver com o que Cristo defendeu – que tem tudo a ver com aquilo que combateu. Para os povos, cristãos, islâmicos,budistas ou o que sejam, a injustiça continua e os clérigos e as hierarquias desses templos feitos de lendas, mentiras e falácias, são sustentáculos dessa injiustiça.
Há nos islâmicos um permanente sentimento de injustiça; o sentimento de que são vítimas de uma perseguição. E na verdade, no Ocidente parece haver gosto em provocar a ira dos islâmicos. O vídeo A Inocência dos Muçulmanos ( Innocence of Muslims) que, segundo parece, apenas tem 13 minutos, ao conter uma imagem caricata do profeta Maomé, pôs o mundo islâmico em pé de guerra – a morte do embaixador americano na Líbia e de mais dois funcionários da embaixada e as manifestações multiplicam-se pelo mundo. Ontem no Paquistão foram mortas 15 pessoas durante os protestos. Oferece-se 100 mil dólares a quem matar o realizador do filme. Enfim, não tem interesse descrever o que esta provocação gratuita está a provocar pelo mundo fora. Na realidade o fanatismo dos islâmicos é insuportável. E, sabendo-se que assim é, é inqualificável a estupidez de quem comete estas provocações gratuitas, sabendo que vai desencadear ondas de violência, e mesmo mortes.
Para quem não crê em deuses tudo isto é ridículo. Os calendários litúrgicos, fazem-se de lendas, os livros sagrados não passam de conjuntos de histórias .No Ocidente condena-se o fanatismo dos islâmicos. E com razão. Mas não se condena com a mesma veemência o poder das igrejas cristãs, principalmente a Igreja Católica. Nem vamos falar das Cruzadas ou da Inquisição. Organizações como o Opus Dei, de estrutura e funcionamento mafiosos, movimentando verbas impressionantes, ostentando riquezas que são um insulto à miséria que grassa pelo mundo fora, com crianças a morrer de fome a cada minuto que passa. As igrejas, os cultos, são a forma de conciliar os homens com as injustiças. Se Deus quer que haja pobres e ricos, se Deus quer que haja crianças a morrer de fome., nesse caso Deus não é uma solução – é parte integrante do problema.

