É frequente – e sei que não se passa só comigo –, quando me desloco pela rua, ser simpaticamente abordado por pessoas que não conheço pessoalmente e me lançam o apelo, ou desabafo: os militares é que têm de tomar conta disto; está na hora de um novo 25 de Abril. Quando estou com pressa limito-me a sorrir compreensivelmente e dizer que esse tempo já passou. Quando estou mais folgado lá vou procurando explicar que os militares desempenharam o seu papel numa determinada conjuntura, criaram as condições para que o povo português escolhesse, livre e conscientemente, os seus representantes no poder e que, agora, a responsabilidade é de nós todos, individual e colectivamente. Enquanto o poder for exercido em resultado de uma escolha livre e no quadro de uma constituição que, também livremente, os portugueses consagraram, aos militares enquanto tal não cabe nenhum papel especial na cena política.
Mas esse papel cabe aos cidadãos, à sociedade por inteiro, no uso de todas as capacidades de intervenção que, legal e legitimamente, estão ao seu dispor. E que são muitas. Nós portugueses temos, definitivamente, de libertar-nos da canga sebastianista, da fé num salvador da pátria que há-de vir resolver os nossos problemas. Temos de assumir as nossas responsabilidades e tomar consciência da força que reside nas nossas mãos. Os últimos acontecimentos vieram por em evidência essa força. O que provocou a morte deste governo não foi a ameaça de moção de censura do PS, nem a convocação do Conselho de Estado pelo presidente da República que aliás, com a sua proverbial inabilidade, se encarregou de, previamente, declarar a sua inutilidade. O que matou o governo foi o povo na rua. O 15 de Setembro é um marco que tem de apontar um rumo.
Penso que muita gente se terá apercebido, no último debate na AR em 20 de Setembro, do ambiente de velório na bancada do ex-governo. O ar comprometido de Passos Coelho, o ar ausente de Portas, o ar incomodado de Gaspar, o ar patético de Relvas.
Mas os portugueses não podem baixar os braços. O governo está morto mas os seus fantasmas movimentam-se na sombra. O que andará Relvas a fazer nas suas deambulações brasileiras e africanas quando se sabe que não quer largar de mão o negócio da RTP? Que submarinos ou guerras contra armas de destruição maciça ainda terá Portas para nos impingir? Há que estar atento sobre a forma como os agentes de um ex-governo poderão aproveitar o tempo que resta para se auto-governarem.
Recebi, por estes dias, um mail, que vale o que vale, mas que experiências recentes me sugerem que merece atenção. Tem a ver com a desconfortável reacção de Passos Coelho à interpelação de Seguro a propósito da privatização da CGD, limitando-se a admitir que está em estudo a venda de activos. Pois bem, o que aquele mail alerta é que, entre estes estará, provavelmente, a área da saúde cuja venda é sugerida pelo memorando da tróika. Entretanto o grupo Soares dos Santos/Jerónimo Martins anuncia a sua entrada nos negócios da área da saúde. Por acaso (?), como consultor governamental para as privatizações pontifica essa iluminada figura de António Borges que também é, entre muitas outras coisas, administrador da Soares dos Santos.
Não fui averiguar ao pormenor todas as linhas desta teia que são, aliás, mais ou menos do domínio público. Será que não haverá nada de estranho em todo este aparente nexo de causalidade?
ACORDAI, cantava-se no jardim de Belém enquanto decorria o Conselho de Estado. É urgente. ACORDEMOS, antes que seja tarde.
24 de Setembro de 2012
