Estamos a pensar levar a cabo um debate sobre Espanha ao qual dedicaremos uma edição.
E o problema começa no título, pois há entre nós quem não concorde com a designação e sempre a substitua pela expressão «estado espanhol». É um estado artificial, tal como o é a Grã-Bretanha. Tal como o foi a União Soviética ou a Jugoslávia. São artifícios para ocultar hegemonias. Nos casos referidos, Castela, Inglaterra, Rússia e Sérvia usavam (as duas primeiras ainda usam) o conceito de «união» para impor o seu idioma e a sua cultura, para esmagar sob o seu peso as outras nacionalidades. Numa verdadeira e fraterna união, por que motivo o castelhano, o inglês, o russo ou o servo-croata, foram consideradas «línguas oficiais»?
O caso de Espanha diz-nos mais respeito, pois está aqui ao lado e existiram (e existem) projectos de nos integrar. Integração que, se alguma vez fez sentido, nesta altura seria completamente injustificada. A «jangada de pedra» como Saramago (adepto da absorção de Portugal pelo estado espanhol) chamou à Península, está a desconjuntar-se e a meter água. A Catalunha parece ir separar-se, autonomizar-se. Nação antiga, cabeça do Reino de Aragão, com um história, um idioma e uma cultura próprias, não se justifica estar submetida aos ditames de Madrid. O mesmo se pode dizer do País Basco. E da Galiza. A nossa irmã Galiza, berço do nosso idioma, o galego-português, Foi em galego-português que no século XIII foram escritas as 427 composições que formam As Cantigas de Santa Maria, atribuídas ao rei Afonso X, o Sábio. Este idioma que falamos e que é comum aos irmãos galegos, foi a língua de cultura, a língua poética por excelência mesmo no reino de Castela e Leão.
Hoje, por acção dos nossos escritores e pela audácia dos nossos navegadores, esta língua que falamos, é compartilhada por mais de duzentos milhões de pessoas e, mercê do desenvolvimento demográfico previsto para Angola e Moçambique, é o idioma ocidental com maior margem de progressão.
O nacionalismo opressor de outras nacionalidades é condenável. É uma reminiscência do arsenal de conceitos fascistas. Incompatível com a democracia. Espanha (o estado espanhol), transitou do fascismo para a democracia, sem saldar contas com o passado. O regime democrático conserva todos os roubos, opressões e aculturações que, sonhadas há muitos séculos, se consolidaram com Franco e com o seu bando.
Quando dizemos que a jangada de pedra está a meter água, não falamos do que se passou ontem em Madrid, nas violentas manifestações de protesto contra a austeridade que, lá como cá, obriga trabalhadores e pensionistas a pagar os roubos que corruptos ligados ao poder cometeram. Essas manifestações provam-nos que os castelhanos sofrem como nós e nenhuma vantagem tiram da opressão que em seu nome é feita a outros povos. O estado espanhol é um mau negócio – talvez os próprios castelhanos o comecem a compreeender.

