POESIA AO AMANHECER – 45 – por Manuel Simões

António José Forte – Portugal

( 1931 – 1988 )

LIBERTAÇÃO

Descerão por paredes sangrentas

e subirão do asfalto

ganindo com um prego na língua

com os pulsos atados às patas

sobre pulmões raivosos em barcos de esterco

e não olharão nem para baixo nem para o alto

mas para a frente

para o horizonte de fatias vermelhas

e para trás

para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas

cada um com um buraco em seu peito

esguichando palavras estridentes

descerão atravessando gargantas

e subirão pela espinha a golpes de jejum

descerão empurrando palavras

transportando-as ao pescoço como cintos de salvação

abrindo crateras nas cabeças queridas

e olhos nos olhos dos aflitos

subirão do asfalto

transparentes e feridos

com os olhos nas mãos

a cabeça no sangue

chegarão aos pares ligados pela boca

com um estandarte negro seguro nos dentes

e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto

até chegar à orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez

(de “40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e

Outros Poemas”)

Integrou o chamado grupo do Café Gelo. Colaborou na revista “Pirâmide” (dirigida por Carlos Loures). A sua produção poética, embora breve, deixou marcas noutros autores do seu tempo, designadamente na área surrealista e abjeccionista. O primeiro livro, “40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e Outros Poemas”, é de 1960. A sua poesia, de raiz utópica, está reunida em “Uma Faca nos Dentes” (1983), com prefácio de Herberto Helder (2ª ed. 2003).

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