António José Forte – Portugal
( 1931 – 1988 )
LIBERTAÇÃO
Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para o alto
mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando-as ao pescoço como cintos de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais e cada vez mais alto
até chegar à orla do inferno chorarem as últimas lágrimas e partirem de vez
(de “40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e
Outros Poemas”)
Integrou o chamado grupo do Café Gelo. Colaborou na revista “Pirâmide” (dirigida por Carlos Loures). A sua produção poética, embora breve, deixou marcas noutros autores do seu tempo, designadamente na área surrealista e abjeccionista. O primeiro livro, “40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girândola Implacável e Outros Poemas”, é de 1960. A sua poesia, de raiz utópica, está reunida em “Uma Faca nos Dentes” (1983), com prefácio de Herberto Helder (2ª ed. 2003).

