Por uma questão de justiça, vamos relembrar outro grande homem da psicanálise, mas não só – JOÃO DOS SANTOS. Pensar em João dos Santos é pensar num cidadão pleno que dedicou a sua vida às crianças, a tentar perceber os seus problemas, a tratá-las, a ensinar como as ajudar. É pensar num homem, cuja teoria era derivada do fazer, não da teoria.
Em 1936 formou-se em Educação Física e em 1939 em Medicina. Iniciou a sua prática psiquiátrica em 1941, no Hospital Miguel Bombarda, passando, em 1943 para o Hospital Júlio de Matos, inaugurado no ano anterior. Levou a psicanálise para dentro do Hospital sendo responsável pela organização de dois pavilhões da secção infantil.
Em Outubro de 1945, participou numa reunião que exigia “eleições livres”. Como represália, ficou proibido de exercer a sua actividade profissional em Portugal.
Conseguiu uma bolsa de estudos concedida pela Embaixada de França e a este país rumou. Foi aceite como assistente de Henri Wallon que o acolheu no Centro de Pesquisas Científicas de França, Laboratório de Biopsicologia de Paris, vindo este período a ser crucial para a evolução técnica e científica de João dos Santos.
No ano seguinte foi criada a Federação Mundial de Saúde Mental e em 1948 a Organização Mundial de Saúde. João dos Santos aproveitou para se iniciar numa nova ciência, inexistente em Portugal e que mais tarde irá ajudar a introduzir: a Psicanálise. Assim, em 1947 foi admitido na Sociedade Psicanalítica de Paris.
Tendo concorrido, de novo, para o serviço do Estado foi, para grande surpresa, aceite. Em 1964 iniciava-se o projecto do Centro de Saúde Mental Infantil, projecto que “consagrava os princípios da psiquiatria de sector que preconizava a cobertura do país por uma rede de serviços de saúde mental e a aproximação à comunidade. Era uma organização percursora em Portugal da psiquiatria de sector uma vez que descentralizava a actividade assistencial, visando não só o tratamento mas a prevenção, considerada como um dos aspectos fundamentais em saúde mental infantil, conforme os princípios da OMS”. (VIDIGAL, Memórias de utopias,1999).
João dos Santos passou uma boa parte da sua vida profissional a tentar resolver, no plano colectivo, algumas das necessidades mais prementes do sofrimento infantil. Dos projectos à acção, foram as iniciativas em que participou, a partir dos anos 50 que constituíram a experiência fundamental para compreender que não basta falar da importância da família e dos pais, do afecto e da inteligência para promover o bem estar da criança. Sempre frisou que é necessário fazer participar os pais e os técnicos, a família e as comunidades, na organização e suporte das instituições.
A tarefa de ensinar não estava esquecida. Entre 1954 e 1958 foi professor de Psicologia Infantil nas Escolas de Jardineiras dos Jardins Escolas João de Deus, professor de psiquiatria na Escola de Enfermagem Artur Ravara e na Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha. Em 1968 foi responsável pelo curso de saúde mental na Escola Nacional de Saúde Pública. De 1979 a 1982 foi encarregado do Curso de Psicopatologia Dinâmica na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação de Lisboa. Em 1973 participa na fundação da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.


