Castela seria, quando das grandes navegações portuguesas e castelhanas, um dos mais pobres territórios da Península. Não havia nenhuma cidade castelhana que pudesse competir em grandeza e importância com Barcelona, Lisboa: Mesmo Sevilha, reconquistada em 1248 no reinado de Fernando III, rapidamente, mercê do seu porto, se transformou numa urbe de grande dimensão e importância económica. Terá sido, a interioridade, a carência de recursos, numa palavra – a miséria – que impeliu o povo castelhano à conquista. Conquista é aliás o termo preferido pelos castelhanos para caracterizar a violência da sua penetração nos territórios recém-descobertos. A ávida busca de tesouros, de ouro sobretudo, transformou plácidos camponeses em soldados sanguinários. Conquista – com o beneplácito da Igreja – o termo serviu de capa ao genocídio, ao roubo, á criminosa destruição de milenares civilizações.
Os portugueses preferiram outra palavra – Colonização. Em certos aspectos, os dois conceitos equivaleram-se em irracionalidade integrista. – a imposição da cruz pela espada. De modo algum quero branquear os crimes cometidos. Porém, por um lado os colonizadores portugueses não encontraram civilizações avançadas (tê-las-iam destruído também, presume-se). Mas não, deparou-se-lhes tribos que praticavam uma agricultura rudimentar, com paralelo na passagem do Paleolítico para o Neolítico. Houve confrontos, nem tudo foi pacífico, mas talvez o maior volume de mortes causadas pelos portugueses tenha sido o das epidemias que espalharam entre os índios. Com todos os erros, brutalidades e crimes comeetidos pelos colonizadores, o Brasill é hoje um país de grande importância. Pese embora as suas assimetrias sociais, é a principal potência económica do subcontinente. Conservou até hoje a integridade territorial – com uma ou outra ameaça de secessão. A conquista castelhana, brutal e devastadora, deu lugar a mais de 20 estados.
Já ouvi a brasileiros o lamento de que se tivessem sido colonizados pelos holandeses, o Brasil seria hoje um país mais desenvolvido – pura ingratidão. Irmãos brasileiros, achais que a Indonésia, rica em recursos naturais, é um país mais desenvolvido do que o Brasil? Mas nem só num território rico em recursos naturais, como o Brasil, a política de colonização praticada pelos portugueses, muito baseada na miscigenação, resultou em terrs áridas como o arquipélago de Cabo Verde – sem recursos, apenas com a inteligência e abnegação dos cabo-verdianos, o país tem um rendimento per capita superior ao de países ricos do continente africano.
Onde quero chegar é que a hispanidade nos países colonizados por Portugal e Castela também foi (e é) vivida de formas diferentes. As próprias independências foram obtidas de maneiras diferentes no Brasil e nas ex-colónias espanholas. A hispanidade dos latino-americanos é vivida com base em dois idiomas – o castelhano e o português. Nos barcos que suas majestades católicas enviavam à descoberta e à conquista, iam catalães, bascos, galegos… A presença nas Américas de outras línguas, que não o castelhano, é residual. Se não tivessemos recuperado a independência, o Brasil teria sido conquistado pelos holandeses. Ou falaria castelhano.
É aqui que quero chegar. Um pequeno país, inventado, imaginado por barões medievais, pobre – ora sonho, ora pesadelo, transportou até aos nossos dias, durante nove séculos, um idioma que colheu a norte do seu território, conservou-o, deu-lhe forma literária, espalhou-o pelo mundo. Isto porque a nossa hispanidade é vivida de costas para Madrid e de olhos postos no mar.
Somos hispanos – mas isso não nos preocupa.

Carlos
Pego na tua última frase – «Isto porque a nossa hispanidade é vivida de costas para Madrid e de olhos postos no mar» – não para discordar mas para chamar a atenção para resoluções bem recentes dos anedóticos governos de Portugal que quiseram construir o TGV. Vou procurar explicar.
Em Espanha (chamemos-lhe como internacionalmente é reconhecido o país) havia (há ainda?) um plano para o transporte ferroviário de grande velocidade que tornaria este país(?), se completado o plano, naquele que teria a maior rede de transporte de tal tipo. Todas as linhas desse plano convergem em Madrid, faltando apenas à completa centralidade de Madrid, no que à Península Ibérica respeita, a linha de TGV Lisboa – Madrid, que os anedóticos governos portugueses logo indicaram como sendo a linha prioritária. Se construída, Madrid ganharia a definitiva centralidade da Península, Lisboa perderia quase tudo, a começar pelas sedes de algumas grandes empresas internacionais, esquecendo que a ligação à Europa por via ferroviária não passa por Madrid mas bem mais acima – Lisboa, Porto, Salamanca, …
Abraços
António
Acho que qualquer que fosse a nacionalidade dos colonizadores, o Brasil teria tido o mesmo destino: ser uma colônia de exploração e não de povoamento, como foram EUA e Canadá, pelo fato de ser tropical e oferecer as matérias-primas e riquezas naturais que a Europa demandava, ao contrário da América do Norte, que, por possuir clima e recursos similares aos europeus, não sofreu tanta repressão por parte da metrópole, tendo mais liberdade para desenvolver a atividade comercial e a indústria e contando com uma colonização que visava mais ao povoamento de suas terras nos mesmos moldes que os pioneiros ingleses haviam deixado em seu país natal. É claro que se tivéssemos sido ocupados por ingleses ou holandeses, mesmo em uma colonização de exploração, haveria diferenças, tanto para o bem como para o mal, por exemplo, não há como negar que esses países, de tradição protestante, valorizavam mais a educação, até pela necessidade de se saber ler e escrever para se conhecer a Bíblia, ao contrário dos povos latinos e católicos, de tradição mais oral. Também não seríamos uma sociedade tão miscigenada, pois os ingleses e holandeses, muito mais herméticos quanto a relações inter-raciais, com certeza não teriam tantos filhos com índias e escravas; o racismo aqui teria sido muito mais ostensivo e violento, talvez com uma política oficial de segregação racial; e também seríamos muito mais puritanos em nossos valores e costumes (sem dúvida o carnaval não seria a festa popular da dimensão que é hoje, talvez nem mesmo existisse). Talvez fossemos mais desenvolvidos material e tecnologicamente, visto que mesmo na condição de colônia teríamos nos beneficiado, ainda que indiretamente, do maior desenvolvimento industrial e científico de Inglaterra e Holanda. E possivelmente haveria menos corrupção generalizada, não que não houvesse de todo, uma vez que ela existe em todo o mundo, porém talvez não tão disseminada por todos os setores da sociedade como é hoje, visto que o maior nível educacional e os valores protestantes,capitalistas e baseados no lucro e na livre iniciativa dos norte-europeus que formariam a nossa elite dominante, por colidir com essas práticas de trocas de favores, privilégios e negociatas, acabariam penetrando na sociedade em algum grau com o passar do tempo (afinal, mesmo que a elite de colonos e administradores britânicos no Brasil estivesse mais interessada em explorar as riquezas tropicais da colônia do que em povoá-la, eles com certeza não abandonariam de todo suas crenças, valores e tradições ao se estabelecerem aqui).