Luís Filipe Castro Mendes – Portugal
( 1950 – )
CANÇÃO DO EXÍLIO
Não trouxe nada para te dar.
Sempre fui estranho às terras em que vivi
e só amei de verdade o que mais me foi estranho.
Terra minha, pátria que te dizes,
nada tenho para ti.
Quando chego à tua beira,
à estrema do teu mar,
a língua de alguns versos enrola-se-me na boca,
é certo.
Mas vê bem: tenho os olhos enxutos
e sou alheio a tudo para que me queres chamar.
Bem sei, dependo de ti.
Mãe pobre de gente pobre, ninguém renega
a miséria de que nasce.
Mas eu sou de outras paragens,
porque sempre fui de outros lugares.
Foi sempre assim e nãotem nenhum mistério.
Menino e moço me levaram,
usado e velho não me trouxeram
para o pé de ti.
Não importa: há um verso que cintila
na minha voz,
há pedras, conchinhas, pedacinhos de ossos,
no fundo do mar do meu naufrágio,
há uma história longa que aprendi
mesmo que nunca te diga
e que nada tenha para te dar.
(de “Lendas da Índia”)
Diplomata e poeta. O seu livro de estreia, “Recados”, é de 1983. Outras obras: “Areias Escuras” (1984), “Seis elegias e outros poemas” (1985), “A Ilha dos Mortos” (1991), “O Jogo de Fazer Versos” (1994), “Outras Canções” (1998) e “Lendas da Índia” (2011).

