POESIA AO AMANHECER – 50 – por Manuel Simões

Luís Filipe Castro Mendes – Portugal

                                                                    ( 1950  –   )

CANÇÃO DO EXÍLIO

Não trouxe nada para te dar.

Sempre fui estranho às terras em que vivi

e só amei de verdade o que mais me foi estranho.

Terra minha, pátria que te dizes,

nada tenho para ti.

Quando chego à tua beira,

à estrema do teu mar,

a língua de alguns versos enrola-se-me na boca,

é certo.

Mas vê bem: tenho os olhos enxutos

e sou alheio a tudo para que me queres chamar.

Bem sei, dependo de ti.

Mãe pobre de gente pobre, ninguém renega

a miséria de que nasce.

Mas eu sou de outras paragens,

porque sempre fui de outros lugares.

Foi sempre assim e nãotem nenhum mistério.

Menino e moço me levaram,

usado e velho não me trouxeram

para o pé de ti.

Não importa: há um verso que cintila

na minha voz,

há pedras, conchinhas, pedacinhos de ossos,

no fundo do mar do meu naufrágio,

há uma história longa que aprendi

mesmo que nunca te diga

e que nada tenha para te dar.

(de “Lendas da Índia”)

Diplomata e poeta. O seu livro de estreia, “Recados”, é de 1983. Outras obras: “Areias Escuras” (1984), “Seis elegias e outros poemas” (1985), “A Ilha dos Mortos” (1991), “O Jogo de Fazer Versos” (1994), “Outras Canções” (1998) e “Lendas da Índia” (2011).

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