Como disse José Luis Sampedro, o grande escritor catalão. «A democracia não é o governo do povo em lado nenhum» Completa o raciocínio, dizendo que, tal como na infância, na catequese, nos metiam dogmas na cabeça, agora é o intenso marketing que condiciona a forma como as pessoas pensam e com se comportam. Resultado, as eleições só teoricamente são livres – a massa flutuante de eleitores vota em quem lhe mandam votar. E sem cabeças que pensem autonomamente, não existe verdadeira democracia. A democracia não consiste apenas na liberdade de expressão. Para que a liberdade de expressão tenha algum valor, é preciso que haja liberdade de pensamento. Se o pensamento das maiorias é condicionado o que cada elemento dessa maioria exprime não é aquilo que pensa – é aquilo que o condicionaram a pensar.
Hoje toda a gente se queixa do primeiro-ministro e da equipa que ele formou. No entanto, foram eleitos por uma maioria do eleitorado. Se a massa de votantes conhecesse os candidatos e soubesse em quem estava a votar, esta gente estúpida. insensível e corrupta, nunca chegaria ao poder. Apeou-se um mentiroso e elegeu-se outro mentiroso que usa uma aparente verdade para mentir quanto aos seus objectivos. Estamos num momento crucial – toda a gente se deu conta de que este governo tem de ser derrrubado – mas, insistimos, derrubar um lacaio do poder económico para eleger outro lacaio, é tempo perdido.
Ontem Vítor Gaspar anunciou as novas medidas de austeridade – uma enorme subida dos impostos, como ele próprio classificou. Porquê, porque estamos a pagar uma dívida que não contraímos. Gente despudorada dos dois partidos do poder, gente com cargos elevados, enriqueceu de forma ínvia, fundos comunitários foram subtilmente desviados para contas pessoais… Provavelmente, na maior parte dos casos, o roubo foi feito de forma juridicamente inatacável. E agora, acusados de termos gasto acima das nossas possibilidades, estamos a ser espoliados de uma forma que nem os governos da ditadura se atreveram a empregar. Isto nada tem a ver com democracia – isto não é um governo do povo. Isto é fascismo económico. Esse governo tem de ser derrubado. O PS não votará favoravelmente nenhuma das moções O deputado socialista José Lello considerou que as moções de censura do PCP e Bloco de Esquerda são “um número de circo” e acusou o Governo de desrespeito pelo parlamento e pelas regras democráticas. As moções são um número de circo porque BE e PCP sabem que são inúteis, diz José Lello. Mas todo o sistema é um circo. Chama-lhe democracia representativa. Mas não é o povo que está representado – são os barões da banca, os senhores do poder económico que estão representados e que são defendidos.
Democracia – governo do povo. José luis Sampedro tem razão. Nunca existiu.

