Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Nota de leitura à lição n 5 sobre o manual do perfeito banksterismo
Júlio Marques Mota
Uma reflexão séria sobre a desonestidade que vigora nos mercados financeiros com a cumplicidade de muita gente. Face ao escândalo da banca em Espanha que fizeram os neoliberais= Uma Comissão de inquérito? Nem pensar. E o que há neste momento, curiosamente, deve-se à pressão dos Indignados.
Sendo matéria para um outro post, relembramos aqui que o processo de construção europeia e em particular o da zona euro foi um processo longo, feito de vontades múltiplas, de homens com coragem para vencer obstáculos e mesmo até como contraposição aos mercados, processo que correspondia claramente a um enorme salto histórico a caminho do progresso, do desenvolvimento e da paz. Hoje a União Europeia em geral e a zona euro em particular é um projecto claramente em profundo risco de desintegração porque a vontade dos homens alicerçada em projectos colectivos foi substituída pela vontade dos mercados alicerçada na desregulação dos mesmos mercados e na soberania absoluta da rentabilidade financeira como critério de validação social, económica e financeira.
Os esquemas de Ponzi ou esquemas de Dª Branca, o que é equivalente, são a consequência desta lógica do poder absoluto aos mercados financeiros e tão grave é a situação que os mecanismos que se têm criado na Europa sob a tutela de Bruxelas estão a transformar a União Europeia num verdadeiro esquema de Ponzi, numa verdadeira mistificação que vai levar a Europa à ruina, à desintegração e quem sabe a que mais. Num dos textos fala-se mesmo no carrossel da dívida com a Itália a endividar-se a taxas altas para apoiar a Espanha a taxas mais baixas mas que entretanto se vai endividando também cada vez mais. Mas nesta sequência pode cair também a Itália e o carrossel de quem pede aos mercados para ajudar os outros face aos mesmos mercados pode então levar a Espanha a pedir emprestado nos mercados agora para emprestar à Itália. Regime de loucos, enquanto a Inglaterra vende os seus títulos de dívida pública ao Banco central inglês, enquanto os Estados Unidos vendem os seus títulos de dívida pública ao Federal Reserve, enquanto o Governo japonês vende os seus títulos de dívida pública ao Banco Central do Japão. Estes países não estão prisioneiros da Alemanha e dos seus fantasmas.
É assim a Europa, são assim os mercados financeiros, o mercado financeiro em geral e o mercado financeiro espanhol em particular. Textos a ler com atenção, a reforçar mais uma vez a ideia que de que há criminosos a solta protegidos pela lei que tudo lhes permite fazer.
Manual do perfeito “bankster”, lição 5: enganar os seus accionistas
Quinto capítulo da série sobre práticas da criminalidade financeira: a escroqueria no banco espanhol, Bankia
Bankia, quarto banco espanhol . (Dominique Faget-AFP)
Rodrigo Rato, o ex-Presidente do Bankia, quarto banco espanhol, é acusado por “fraude”. “O banco tinha problemas de financiamento, tendo sido posto em situação financeira difícil pelos seus empréstimos imobiliários, resume Adicae, uma associação de defesa dos clientes do banco.” “Para fazer face a estas dificuldades, o Banco manipulou as suas contas e procurou refazer-se financeiramente mas à custa dos seus próprios clientes, por fraude com a venda das suas acções, apanhando na armadilha até mesmo os mais frágeis.
Os seus 400.000 accionistas perderam quase tudo.
O banco Bankia nasceu da fusão de sete Caixas de poupança. Foi introduzido na bolsa em Julho de 2011. Ninguém pensou que o seu Presidente, homem acima de toda a suspeita – ex-ministro das Finanças, antigo Director-geral do FMI – falsificaria no mínimo que fosse a contabilidade da instituição bancária. A extensão dos prejuízos – uma perda de 3,3 mil milhões de euros, um balanço agravado por 32 mil milhões de activos imobiliários tóxicos – só foi verdadeiramente conhecido na Primavera de 2012, quando o Estado espanhol nacionalizou o banco em 45%. Os seus 400.000 accionistas perderam verdadeiramente quase tudo.
Por fim, Bankia enganou os seus clientes com ‘títulos preferenciais’ – metade em acções, metade em obrigações. Pensavam ter feito de facto um investimento sem risco. No entanto, o plano espanhol europeu de resgate dos bancos coloca como condição expressa que os detentores desses títulos sejam obrigados a participar a contribuir no resgate e sofram assim perdas. O calvário dos aforradores- investidores espanhóis está apenas a começar .
