A Isabel Fernandes é funcionária pública e, como calculam, a crise só lhe pode ter sido favorável. Mas, não sendo piegas nenhuma, reverteu isso tudo nesta saborosa crónica que nos enviou.
(Adão Cruz)
Cá em casa, ficámos a ganhar imenso com esta crise. Despedimos a empregada que já cá estava há 12 anos e nos custava um dinheirão todos os meses, e contratámos outras 3 para a substituir, que são pagas de outras formas!
Eu explico:
De manhã, aparece uma criatura meio ensonada, de pantufas, que põe a máquina do café a trabalhar, atira com as coisas do pequeno-almoço para cima da mesa, resmunga uns vagos bons-dias, desaparece na casa de banho aí meia-hora, regressa já vestida como deve ser, penteada e perfumada mas ainda rabugenta, bebe um café e come uma torrada à pressa, vai a correr abrir as janelas todas para nos congelar a alma, faz as camas, fecha as janelas e desaparece porta fora com um “até logo”. Não percebo este comportamento mas como posso reclamar, se me custa só um café e uma torrada?
À tarde, chega uma outra criatura parecida com a primeira mas mais composta, com ar cansado, que atira com os sapatos para um canto e vai calçar as pantufas, começa numa ponta e acaba na outra a arrumar o que ficou espalhado pela casa na véspera, enfia roupa para lavar na máquina tudo à molhada, apanha a roupa seca e atira-a para o cesto de passar a ferro – já estou a encher o saco com os suspiros e os ais que vai deixando escapar todos os trinta segundos…
Em seguida abre e fecha o frigorífico vinte vezes para tirar coisas com que prepara um jantar comestível mas desprovido de preocupações gastronómicas (faço-me entender?) e para cúmulo senta-se à mesa e janta connosco, faz perguntas aos miúdos sobre o dia na escola, a mim sobre o meu dia de trabalho, queixa-se do custo de vida e dos apertos nos transportes, enfim, já começa a ser desaforo mas que vou dizer, se só me custa um jantar?
E ainda temos a empregada da noite, que arruma a cozinha, leva o lixo para o contentor e prepara a roupa dos miúdos para o dia seguinte, antes de se apresentar na sala de cara lavada e cabelo escovado, em roupão (que descaramento), e pegar calmamente no comando da televisão para mudar do programa que eu estou a ver para uma inenarrável série da FOX ou do AXN! Como se não bastasse, ao fim de uma hora já está a bocejar, desaparece com um “até amanhã” e vou depois encontrá-la deitada na minha cama…
Claro que não me posso queixar: só me custa uma queca de vez em quando…


